Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, julho 21, 2006

Luiz Garcia - Violência cega



O Globo
21/7/2006

Era fácil e prazeroso aplaudir Israel nos bons tempos em que a nação dos kibutzim dava ao mundo lições de como levar água, agricultura e democracia ao que parecera durante séculos ser um deserto irrecuperável. Era impossível não torcer pelos sobreviventes do massacre nazista e pelos sabras, por exemplo, quando enfrentavam e derrotavam tanques de invasores egípcios.

Não é assim hoje. Quando brasileiros enfrentam o pânico e a morte no Líbano — um país que mandou muitos de seus filhos para o Brasil — fica complicado não ver daqui com tristeza e indignação a reação do governo israelense ao seqüestro de dois militares (dois, só dois!) pelo Hezbollah, grupo terrorista que tem quartel-general no Líbano. Complacência ou cumplicidade do governo local com os seqüestradores justificariam protestos e retaliações de diversos tipos — mas nunca a morte de inocentes (já eram mais de 300 dois dias atrás).

Em outros tempos, líderes como Ben Gurion, Golda Meir e Moshe Dayan tinham o respeito do mundo. Construíram uma nação quase do nada e a defenderam com coragem, energia e, sobretudo, inteligência. Talvez tenha sido a experiência socialista mais bem-sucedida da História. Nenhuma das antigas virtudes é aparente no atual governo israelense.

Não é preciso qualquer simpatia pelos terroristas do Hezbollah, nem pelos desígnios que a Síria possa ter em relação ao Líbano, para se constatar que Israel abre mão de ter razão quando bombardeia maciçamente áreas urbanas. É uma forma de ataque particularmente cruel e covarde. Disparadas à distância, bombas não escolhem vítimas: indiferentemente, podem acertar colégio, asilos, hospitais ou bases terroristas.

E a onda de destruição vem em momento cruel: o Líbano começava a recuperar, depois dos anos de ocupação síria, a imagem dos bons e velhos tempos em que Beirute era chamada de “Paris do Oriente”.

O Hezbollah, para usar o termo técnico empregado pelo analista internacional George Bush, provavelmente só faz merda — mas que palavras devem ser usadas para definir o que está fazendo o governo de Tel Aviv?

Diz-se que o bombardeio do Líbano não visa apenas a forçar os terroristas a devolver os dois soldados. Teria também (talvez principalmente) o objetivo estratégico de impedir uma nova ocupação do país pela Síria.

Pode ser, pode até dar certo, mas a violência cega das chuvas de bombas tem preço alto demais para Israel: seu governo se desmoraliza ante a opinião pública mundial.

Arquivo do blog