Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, dezembro 21, 2005

VALDO CRUZ Dias turbulentos

FSP
O mercado aposta que o crescimento do PIB brasileiro no próximo ano, o da eleição presidencial, não vá passar de 3,5%. Confirmado esse prognóstico, o próximo presidente não será Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa avaliação é feita pelos próprios petistas. Sabem muito bem que perderam completamente a bandeira da ética. Terão alguma chance apenas se a economia deslanchar.
Não por outro motivo a pressão sobre o ministro Antonio Palocci só faz crescer. Ele ainda resiste, mesmo sabendo que até o presidente se convenceu de que precisa jogar lenha na fogueira da economia.
Lula, por sinal, já deu seus passos. Quer salário mínimo de R$ 350, reposição de perdas salariais para o funcionalismo público, correção da tabela do Imposto de Renda.
Abrindo os cofres, porém, pode levar o Banco Central a reduzir o ritmo de queda dos juros, essencial para que o país volte a crescer a taxas, digamos assim, eleitoreiras. O alerta é de gente do próprio BC.
Quando pensa nisso, um petista lembra que Lula perdeu o melhor momento para mudar a equipe do Banco Central, no ano passado. Agora, estaria refém dos diretores do banco.
Qualquer mudança na turma do BC, num ano eleitoral, será avaliada como um afrouxamento em demasia da política monetária. O tal de mercado reagiria muito mal, a inflação poderia voltar a crescer. Aí Lula não se reelegeria mesmo.
Nem os tucanos gostam de um cenário como esse. Sabem que o discurso público de Lula, de que não tomará medidas eleitoreiras, não passa disto: discurso. Ele fará o que puder para se tornar um candidato competitivo.
É por isso que os tucanos não querem fragilizar Antonio Palocci. Vêem nele um fiador de que a coisa pelo menos não vai degringolar. Fica ruim, mas controlável para quando assumirem no ano que vem. Afinal, eles já se consideram eleitos.
E se Palocci sair? Sinceramente, nem Lula deseja isso. O que o presidente mais sonha é com um ajuste na política econômica com o seu atual ministro da Fazenda no comando.
Cansado do tiroteio de inimigos e aliados, o ministro da Fazenda, porém, pode ser levado a se retirar do campo de batalha. Talvez não suporte ficar apanhando praticamente sozinho no ano eleitoral.
Nesse caso, sugere um petista, o presidente poderia aproveitar e trocar também pelo menos alguns diretores do BC. Os alvos são Afonso Bevilaqua e Alexandre Schwartsman, vistos como ortodoxos demais e responsáveis pelo "erro de mão" do BC. Com uma interferência dessa em sua equipe, Henrique Meirelles pode sair junto. A dúvida é se Lula consegue nomes de prestígio e acima de qualquer suspeita num ano eleitoral. Nunca é demais recordar que, até escolher Meirelles, Lula ouviu muito "não".
A equipe econômica sugere sangue frio ao presidente. Garante que o país crescerá acima dos 3,5% em 2006 sem pirotecnias. Só que Lula já não acredita tanto assim na turma de Palocci. Dias turbulentos estão por vir.

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