A guerra das pesquisas
Pesquisas de opinião não definem as escolhas partidárias, mas nunca tiveram tanto peso político quanto nessa campanha pré-eleitoral, tanto para a própria candidatura de Lula à reeleição, quanto para a definição dos dois outros grandes partidos nacionais, o PSDB e o PMDB. No PSDB, o prefeito paulistano José Serra, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, têm nas pesquisas os pontos decisivos de uma eventual candidatura. Se Serra não aparecesse tão destacadamente como o único tucano a vencer Lula, já agora nos dois turnos indistintamente, não haveria nem discussão. O governador Geraldo Alckmin, depois de uma carreira política que o levou de vereador do interior a 12 anos à frente do maior estado do país, seria o candidato natural do partido.
Além do mais, as últimas pesquisas confirmaram sua capacidade de crescimento na opinião pública nacional, e a do Datafolha é ainda melhor para sua pretensão, pois o distancia bem do ex-governador Garotinho, colocando-o com 20% das preferências contra apenas 11% de Garotinho. Pelo Ibope, Alckmin aparece empatado com Garotinho, com 20% das preferências, isto é, ainda lutando para chegar ao segundo turno, o que não é bom para ele.
Se até março ele não conseguir se distanciar de Garotinho claramente, ficará sempre a dúvida sobre sua capacidade de ir para o segundo turno contra Lula, etapa que Serra já superou largamente, pelo menos segundo as pesquisas. Chegando ao segundo turno, no entanto, Alckmin aparece já empatado tecnicamente com Lula nas duas pesquisas, o que quase equilibra sua disputa com Serra.
Disposto a manter a condição de candidato natural, o governador ressalta, sempre que pode, que Serra não se declarou candidato porque seria inconcebível deixar a prefeitura com pouco mais de um ano de mandato. A argumentação interna dos adeptos da candidatura Alckmin é de que a escolha de Serra como candidato à Presidência seria um risco político desnecessário.
Serra teria que passar a campanha inteira explicando a decisão de sair da prefeitura, depois de se comprometer por escrito a não sair. Falta de ética não é apenas roubar, argumentam os "alquimistas", mas também não faltar com a palavra. Essa "falha" daria argumento aos candidatos petistas até mesmo ao governo estadual, especialmente para a ex-prefeita Marta Suplicy, que acusava Serra de estar usando São Paulo como trampolim para chegar à Presidência da República.
Os "alquimistas" ressaltam, nas reuniões internas, que o PSDB só perderia com a candidatura de Serra: perderia a prefeitura de São Paulo que nunca teve, "o quinto estado do país", deixando que o PFL ficasse no posto por quase três anos; poderia dar argumentos ao adversário na campanha para governador, correndo o risco de perder o estado, e nada garantiria que ele ganhará a Presidência.
O jogo paulista é vital para os tucanos e, por isso, também a disputa do governo estadual entra nessa estratégia partidária. O ex-presidente Fernando Henrique, que é o grande eleitor no PSDB, aparece como o candidato mais competitivo do partido contra o favoritismo de Orestes Quércia, presidente regional do PMDB. Mas rejeita totalmente a idéia de se candidatar, cogitada por diversos setores do partido há muito tempo.
Ele se referiu quase com irritação à colocação de seu nome na lista de candidatos: "Eu estou fora, nunca admiti ser candidato ao governo de São Paulo. Na relação espontânea, meu nome nem aparece, porque essa questão não está colocada", garante Fernando Henrique, considerando que o resultado da pesquisa é uma maneira de induzir a pressão partidária para cima dele. Ele não se assusta com a presença de Quércia no primeiro lugar e garante que Alckmin tem pesquisas que mostram que "os japoneses" do PSDB — o vereador José Aníbal, o ex-ministro da Educação Paulo Renato e o secretário Aloysio Nunes Ferreira, todos mais ou menos com o mesmo baixo índice de apoio nas pesquisas — sobem muito de posição quando aparecem como candidatos do governador ou dele próprio.
De uma média de 4% a 5% da preferência, qualquer deles pula para cerca de 30% imediatamente, garantem assessores do governador. Quércia está em campanha, mas espera um acordo com o PSDB, que não tem candidato forte. Mas não há jeito de o PSDB abrir mão do candidato próprio.
Paulo Renato está jogando seus prestígio na sociedade para se impor no partido e tem contra si o fato de nunca ter disputado uma eleição. Mas tem a seu favor uma história importante no Ministério da Educação. Aparecer empatado tecnicamente como Aníbal, que teve mais de 500 mil votos nas últimas eleições municipais e tem mais história partidária, é um trunfo para ele.
Outro é o apoio do ex-presidente, que, no entanto, não tem condições de impor um nome ao partido. Mas Paulo Renato conta também com a simpatia de Alckmin e foi estimulado por Serra a apresentar seu nome ao partido. Ele pode vir a ser um tertius nessa disputa interna.
A pesquisa para o governo de São Paulo ajuda muito o raciocínio a favor de Alckmin, pois se os tucanos não acreditam que terá fôlego para se eleger governador, também não podem considerar que a eleição presidencial já está decidida em favor deste ou daquele candidato simplesmente pelos resultados das pesquisas de hoje.
A máquina de Garotinho Não é apenas na escolha do candidato a presidente da República pelo PSDB que a política de São Paulo vai ter influência decisiva. Também na escolha do PMDB, entre ter um candidato próprio ou se dividir em diversas candidaturas, será fundamental a posição da seção paulista do partido. O ex-governador Orestes Quércia, mesmo que seja generalizada a percepção de que ele não tem fôlego para se eleger governador do estado, parte de um patamar importante para as negociações políticas, aparecendo como favorito hoje. A decisão do PSDB será tomada em março, à luz das pesquisas, mas também de outros fatores: quem tem mais condições de fazer alianças, quem tem menos vulnerabilidade em uma campanha. A primeira decisão terá que ser dos pré-candidatos: quem vai ter coragem de dar o salto no escuro, mesmo protegido por uma hipotética rede de segurança que vem das pesquisas. Quem tem mais a perder é o prefeito José Serra. Se derrotado pela segunda vez por Lula, o prefeito paulistano terá abandonado a prefeitura, ficará marcado pela decisão e sem cargo político. Sua decisão é assombrada pela marca que deixou no PSDB a decisão do então prefeito de Belo Horizonte Pimenta da Veiga de abandonar a prefeitura para se candidatar ao governo de Minas. A derrota de Pimenta, considerado favorito na época, até hoje é lembrada. Já o governador Geraldo Alckmin, que poderia ser eleito senador, ficará fora da política pelos próximos quatro anos. Alckmin tem pesquisas que mostram que ele sairia vencedor de uma hipotética disputa com o senador Eduardo Suplicy, do PT, pela única vaga do Senado que estará em disputa no próximo ano. O PMDB acena com apoio à candidatura Serra, de quem já foi vice, se houver acordo para o governo de São Paulo. O mesmo objetivo tem o PFL com Afif Domingos, que aparece nas pesquisas para o governo do estado com apenas 6% dos votos, a mesma média dos candidatos do PSDB. Mas não há espaço para esse tipo de acordo entre os tucanos, pois eles estão convencidos de que, com uma média de aprovação em torno de 80%, Alckmin tem força política para fazer seu sucessor. Um acordo para o Senado, com qualquer dos dois partidos, é possível, se Alckmin, derrotado em sua pretensão, permanecer à frente do governo, como é o desejo do partido. Assim, o PFL não assumiria ao mesmo tempo o governo de São Paulo e a prefeitura da capital. Quércia está demonstrando que tem força, e se não houver um acordo, pode apoiar Garotinho à Presidência para tentar ser candidato pelo PMDB em São Paulo com mais viabilidade. Na avaliação ousada de Garotinho, Lula está perdendo para ele votos nas camadas populares, e os candidatos do PSDB estão tirando seus votos nas classes média e superiores, um processo de corrosão que pode levá-lo a não disputar o segundo turno. Garotinho, hoje, vislumbra um segundo turno contra o candidato do PSDB. Segundo as pesquisas, ele já está passando Lula no Norte do país e acha que está criando uma situação no PMDB que é irreversível. Seu raciocínio é pragmático: se ele rompe a barreira dos 20% de preferência no eleitorado, como pode o PMDB escolher outro candidato? Ele fez uma pesquisa entre os 20 mil convencionais do partido e diz que tem 63% de apoio. Não teme ser "cristianizado" como já aconteceu com figuras mais importantes do PMDB, como o próprio Quércia e Ulysses Guimarães, porque não conta muito com o apoio da cúpula, mas com a base do partido. Ele quer o tempo de televisão do PMDB, pouco mais de quatro minutos, para se equiparar aos dois outros candidatos que polarizam a disputa: o PT tem pouco menos de cinco minutos, e o PSDB, caso se coligue com o PFL, terá mais ou menos o mesmo tamanho de programa de rádio e televisão. Garotinho acredita que o PMDB dá a ele os instrumentos e a capilaridade para seu discurso se espalhar pelo país. Ele considera que os 18 candidatos a governador com chances eleitorais — nove que disputam a reeleição e outros nove que concorrem com chance — terão interesse no fortalecimento de sua candidatura. Por isso, é contra a verticalização, pois sem ela os candidatos regionais poderão fazer alianças políticas independentes, o que é uma marca registrada da política peemedebista: uma federação de forças políticas que se bastam regionalmente. Se houver a verticalização, é mais difícil o PMDB ter candidatura própria. Por isso, o PMDB é a maior máquina partidária montada no país: tem o maior número de governadores, maior número de prefeitos e vereadores, maior bancada do Senado e segunda bancada na Câmara. Uma máquina que nunca trabalhou em conjunto para uma candidatura a presidente. Garotinho acha que conseguirá unir essa máquina pela base. E por isso também a cúpula partidária está se unindo contra ele. Assim como Garotinho, com razão, diz que sua candidatura não depende da cúpula partidária, querendo apenas os instrumentos eleitorais de que o PMDB dispõe para se firmar como uma opção eleitoral, os chefes partidários do PMDB não desejam perder o controle para esse recém-chegado. Preferem se dividir nos apoios a diversos outros candidatos e manter o controle de seu feudo eleitoral. Os caciques que estão contra a candidatura Garotinho alegam que de nada adianta ele aparecer bem nas pesquisas pois, se chegar ao segundo turno, será derrotado por qualquer dos adversários. A força do PMDB, mais do que nunca, está nesse axioma político: o partido não consegue eleger um presidente da República, mas nenhum presidente governa sem apoio do PMDB.
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