Talvez tenha ficado a impressão de que a China vinha escondendo a barriga, como a jovem envergonhada de uma gravidez inesperada. Mas não foi assim. Este foi o primeiro censo econômico da história da China feito em bases metodológicas confiáveis. Como por lá a qualidade das estatísticas nunca foi exemplo de excelência, já se contava com que um levantamento mais sério apresentasse surpresas. Esperava-se, por exemplo, que os novos números confirmassem um peso maior para a economia informal. Mas ninguém esperava por um salto tão grande no tamanho do PIB.
Diante dessa revisão estatística, as agências internacionais dedicaram-se a realçar a ascensão da China no ranking das maiores economias do mundo. Mas esse dado tem pouca relevância. Há conseqüências de impacto maior a avaliar.
O ex-diplomata Renato Amorim, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, foi o chefe da Área Econômica da embaixada brasileira em Beijing no período 2001-2004, cargo que o credenciou como especialista em Assuntos Chineses. Embora os pormenores do censo chinês ainda não sejam conhecidos, Amorim avança algumas das principais conseqüências dessa expansão inesperada.
Um dos problemas econômicos da China que vinha alarmando os analistas era o enorme volume de créditos podres (non performing loans) concentrados em quatro superbancos estatais. Os números oficiais admitem algo próximo dos US$ 230 bilhões, ou cerca de 13% do PIB. Mas, extra-oficialmente, acredita-se que já estejam perto dos US$ 600 bilhões, ou 36% do PIB. Com um PIB bem mais alto, esse pedaço estragado cai para a casa dos 11% (ou para 31% se forem tomados os números não oficiais) e pode ser mais facilmente neutralizado.
Correção também importante será feita na área do investimento (Formação Bruta de Capital Fixo). Até agora, dizia-se que a China tinha uma poupança de aproximadamente 47% do PIB e um investimento de 43% do PIB (dos quais apenas 3 pontos porcentuais correspondem a investimentos estrangeiros). Os novos números impõem uma revisão dessas proporções para a casa dos 37% ou 38%, mais próximos dos padrões asiáticos.
Para o Brasil, duas são as mais importantes conseqüências. A primeira está relacionada com o maior tamanho do mercado interno de consumo da China. Sabe-se que as exportações chinesas crescem 25% ao ano e o consumo interno, em torno de 12%. Se ocorresse uma crise mundial e as exportações chinesas despencassem, a economia chinesa também baquearia e, com ela, baquearia o resto do mundo que exporta para a China. Mas, se o mercado de consumo é maior do que o esperado e se continua crescendo 12% ao ano, segue-se que a economia chinesa não está tão dependente, como se imaginava, do crescimento do comércio mundial. Nessas condições, reduz-se o risco de que, de uma hora para outra, os preços das commodities (soja, trigo, minério, metais, etc.) despenquem, pondo fim rápido ao ciclo altista e, portanto, à atual expansão das exportações brasileiras.
A outra conseqüência para o Brasil desse mercado interno chinês mais amplo é a de que as exportações de insumos industriais e de máquinas (item que mais tem crescido na pauta de exportações para a China) devem continuar firmes - sugere Amorim.
No mais, me vem à cabeça a repetida advertência do biólogo inglês Edward Osborne Wilson: "Precisaríamos de mais quatro planetas Terra para sustentar toda a população do mundo nos padrões de consumo dos Estados Unidos." Enfim, até onde esse nosso velho mundo agüenta o tranco?