Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 20, 2005

CLÓVIS ROSSI Diário do novo velho mundo

FSP
A BORDO DO VÔO 739 - Que mundo esse, hein? Comecei na profissão enviando reportagens por telefone quando fora da sede -ainda por cima depois de conseguir que uma telefonista completasse a ligação (inexistiam DDD e DDI).
Agora, em algumas companhias aéreas, a internet está disponível a bordo. Nas companhias brasileiras não. Aliás, nem nos vôos da Lufthansa a partir do Brasil, a não ser duas horas depois de iniciado. Já na Ásia, a telinha de bordo mostra o Himalaia lá embaixo e, não obstante, posso ler a Folha na minha poltrona. Quando criança, o Himalaia era inatingível. Agora, é o Brasil.
Numa das lojinhas de eletrônicos do aeroporto de Hong Kong, cruzo com um garotinho que deve ter a idade de meu neto (12 anos). Olha alguns desses objetos para mim esotéricos, corre para a calculadora em cima do balcão, faz a conversão para dólares norte-americanos e desiste da compra.
Pergunto de onde ele é. "Sou paquistanês", responde, e emenda rápido: "Mas vivo na América".
"América" é pronunciada como se fosse uma nova pele, como se fosse um vencedor, apesar de sua velha pele marrom-terra, como é típico nos sul-asiáticos, e do preconceito que a persegue, assim como outras peles não-brancas.
A "América" pode ter e tem mil pecados, cometeu uma e mil barbaridades em tantos países, mas é sempre sinônimo de terra de oportunidades. A delegação norte-americana na Conferência de Hong Kong era, aliás, uma evidência física: Karan Bahtia, da mesma cor e traços fisionômicos do menino do aeroporto, era uma das caras que se apresentava à mídia, ao contrário das demais delegações, puramente autóctones.
Sem falar que outra face era a de Susan Schwab, rara voz feminina na linha de frente de um mundo ainda escandalosamente masculino.
Pensando bem, eletrônicos à parte, talvez o mundo não tenha mudado tanto assim.

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