Antes de falar das contradições, é preciso entender o que está ocorrendo. As cotações chegaram ao fundo do poço no dia 6, quando fecharam a R$ 2,177.
Ao contrário do que muitos empresários vinham dizendo, esta não é uma flutuação "limpa" do câmbio. O Banco Central não pára de comprar dólares. Ao longo de 2006 comprou cerca de US$ 20 bilhões e só em dezembro já deve ter incorporado às reservas outros US$ 2,6 bilhões. O Banco Central também tem atuado agressivamente no mercado futuro por meio de troca de dívidas. Repassa títulos que rendem juros e fica com títulos que rendem a correção cambial. Essa operação é conhecida como swap cambial reverso, cujo efeito prático tem sido a alta do dólar no câmbio interno.
Ontem, em vez de propor a troca de 12 mil contratos de dívida, como vinha acontecendo diariamente, o Banco Central encurtou a ração para 8,3 mil contratos, que repetirá hoje. O mercado entendeu que o Banco Central não quer ir tão longe com a alta do câmbio porque um dólar muito mais alto tende a encarecer não só os produtos importados, mas também as commodities produzidas aqui no Brasil (como café, soja, açúcar, milho, etc.), que já vêm cotadas em dólares. Ou seja, o Banco Central parece estar agora evitando novo repique da inflação. Por isso, resolveu dosar as intervenções.
A partir do que aconteceu dá para concluir duas coisas. Primeira, que, sem as compras e as operações do Banco Central no mercado futuro, o dólar só tende a afundar. Segunda, ao contrário do que pretendem os exportadores, há limites técnicos para recuperação das cotações do dólar no câmbio interno.
Os dirigentes do Banco Central têm repetido que a intervenção no câmbio apenas corrige distorções de liquidez. No entanto vai provocando enorme volatilidade (oscilações bruscas nas cotações). Esta é a primeira contradição. A segunda, a de praticar políticas conflitantes: os juros continuam sendo os mais altos do mundo para derrubar a inflação enquanto a política cambial produz efeito oposto.
Não há como negar: se o câmbio for deixado à mercê das forças do mercado, o dólar afunda. Há duas explicações para esse fenômeno. A primeira é a de que o real tende a valorizar-se como efeito da substancial melhora dos fundamentos da economia. É o que pensa o Banco Central.Apenas o superávit comercial injeta cerca de US$ 230 milhões por dia no mercado interno. Não há comprador para tantos dólares e, nessas condições, o dólar vai submergindo. A melhor maneira de inverter essa tendência seria estimular importações que, por sua vez, aumentassem a procura de dólares. Bastaria que o governo suspendesse ou reduzisse (ao menos temporariamente) as alíquotas do PIS-Cofins que incidem sobre os preços dos produtos importados. Mas essa seria uma saída que deixaria enlouquecidos os empresários que viriam nisso concorrência desleal do produto importado.
A outra explicação é a de que são os juros altos que trazem dólares (ou evitam sua saída do País) de onde obtêm baixo retorno para serem aplicados internamente e tirar proveito do rendimento obtido no mercado financeiro. Assim pensa a maioria dos empresários e grande número de economistas, como Delfim Netto, Bresser Pereira, Eliana Cardoso e Yoshiaki Nakano.
Eles pedem corte drástico dos juros para acabar com a arbitragem (ganhos com diferença de juros) e, assim, com a excessiva valorização do real.
As duas forças estão derrubando o dólar, mas, neste momento, a mais importante é mesmo o superávit comercial.
De todo modo, os juros estão caindo e possivelmente cairão pelo menos 0,75 ponto porcentual na próxima reunião do Copom em janeiro. Enquanto a balança comercial continuar despejando dólares no mercado interno de câmbio, dificilmente os juros mais baixos conseguirão reverter a trajetória do dólar.