Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, dezembro 08, 2006

A bonança mal aproveitada Luiz Carlos Mendonça de Barros



Artigo -
Folha de S. Paulo
8/12/2006

A alteração estrutural no comércio exterior domina a mudança na balança de pagamentos brasileira

VENHO, repetidas vezes, chamando a atenção do leitor da Folha para as alterações pelas quais a economia brasileira vem passando em razão da incrível mudança nas nossas contas externas.
Uso a expressão "economia aberta com sobra de dólares" para definir a situação atual, em contrapartida a uma "economia aberta com escassez de dólares" que caracterizou quase todo o governo FHC. Posteriormente elaborei um pouco mais esse conceito tomando a volatilidade do valor do real como principal medida dessas duas situações antagônicas.
O leitor pode se perguntar por que volto a essa questão agora. A minha motivação é muito simples.
O Banco Central divulgou nesta semana as estatísticas referentes ao movimento de dólares no país, entradas e saídas, no mês de novembro, e elas são impressionantes.
Nesses 11 meses de 2006 "sobrou" no mercado de câmbio um total de US$ 40,7 bilhões, resultado de um saldo de US$ 49,8 bilhões no mercado comercial (exportações superiores às importações) e de uma saída líquida de capitais financeiros da ordem de US$ 9 bilhões.
A maior parte dos dólares que sobraram foi parar no caixa do governo no exterior, por meio do acúmulo de reservas externas. Fica claro porque a presença do Banco Central como comprador de dólares de última instância tem sido importante para evitar uma indigestão de dólares na economia brasileira.
Sem ela, a taxa de câmbio seria valorizada ainda mais e nós, brasileiros, seríamos levados a uma UTI como pacientes terminais da chamada "doença holandesa".
Felizmente nossa autoridade monetária, embora com atraso, resolveu defender uma taxa de câmbio fixa, como fazem hoje os governos da China e outras nações asiáticas. Ao fazer isso abandonou uma terapia diferente da de um grupo de economistas que defende liberdade total no mercado de câmbio, sem intervenção para defender um piso para a cotação de nossa moeda. Alguns desses continuam vociferando contra essa política, mas agora sem exercer influência maior na ação do BC.
Mas vamos voltar às estatísticas divulgadas ontem e que me levaram a essas reflexões. Essa sobra de dólares já existia em 2000, ano em que começa de forma mais clara a pressão da demanda chinesa por commodities sobre os preços desses produtos. Neste ano sobraram quase US$ 12 bilhões, US$ 6 bilhões via entrada de capitais financeiros e US$ 6 bilhões vindos do saldo comercial. Entre 2001 e 2003 a sobra de dólares do comércio exterior acelerou-se para mais de US$ 40 bilhões anuais, mas as saídas financeiras aumentaram muito em razão dos temores de um governo Lula em sua versão esquerdista.
Com isso, o saldo final naqueles dois anos foi próximo de zero. É só a partir do segundo semestre de 2003, com o novo Lula conservador e a favor dos mercados, que a fuga de capitais termina e a sobra de dólares aparece em toda a sua intensidade. O saldo cambial no segmento comercial acelerou-se para US$ 37 bilhões em 2004, US$ 52 bilhões em 2005 e, provavelmente, vai chegar a US$ 54 bilhões em 2006. Para 2007 os economistas da Quest esperam um saldo próximo a US$ 48 bilhões, o que nos levará a um total de US$ 150 bilhões em três anos. Esse valor equivale a praticamente toda a dívida externa do Brasil hoje. É mole?
Uma outra observação importante a ser feita diz respeito à percepção que ainda existe em parte dos analistas de que são os juros elevados o principal fator por trás da valorização do real. Os juros reais altos exercem certamente influência na entrada de dólares, mas não na intensidade imaginada pelos defensores dessa tese. Quando olhamos para a taxa de juros em termos reais, isto é, acima da inflação, podemos observar que o excesso de dólares se mantém mesmo quando há queda significativa daquela.
A alteração estrutural no nosso comércio exterior é dominante nessa mudança na balança de pagamentos do Brasil, que é duradoura e talvez permaneça até o fim do segundo mandato do presidente Lula. Cabe agora discutir a melhor alternativa para perenizar esses ganhos e usá-los como indutores de uma economia de mercado mais racional e mais eficiente. Outro caminho a ser trilhado, e que me parece ser o que vai sair da confusão de idéias do governo, é o de continuar transformando esses melhores tempos em benefícios de curto prazo via aumento do consumo do governo e de parcela de nossa população.
Em outras palavras, temos a oportunidade de escolher entre a racionalidade de prazo mais longo e a demagogia. Voltarei a esse tema.

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