Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, setembro 14, 2006

VERISSIMO Pantomimas Verissimo, uma besta!

BLOG REINALDO AZEVEDO

O pior petismo é o envergonhado. Leiam a coluna de Luiz Fernando Verissimo no Globo de hoje — o sistema do jornal não permite fazer link; cadastre-se, e o acesso é gratuito. Diz irrelevâncias sobre um tema relevante: a, se me permitem a repetição, suposta irrelevância da política nos dias correntes, em que o capital financeiro daria as cartas. Verissimo está entre aqueles petistas que queriam um Lula socialista. Desde que se preservasse, claro, o seu apartamento em Paris... É um dos pseudo-intelectuais brasileiros do miolo mole (ave!, José Guilherme Merquior), que pontifica sobre o que não entende. Chega a ser ridículo ler a sua coluna e cotejá-la com o conteúdo da editoria de política. Corrupção a cada linha, e lá está o homem a dizer que, ao menos, começou a haver no Brasil um tímido processo de transferência de renda, embora modesto, ele diz. Homem também voa em vassoura de bruxa? Deveria dar um passeio com Rose Marie Muraro. Mentira dele. Mentira de várias formas combinadas. Não é inédito. Ele que vá estudar o que aconteceu com o fim da inflação no Plano Real. Mais: com o crescimento medíocre quie temos, a transferência de renda é, na verdade, esmagamento da classe média e transformação de uma capacidade mínima de poupança em consumo (ver notas abaixo sobre o documento de Mendonça de Barros). Não é sustentável. Mas Verissimo está achando divertido, fauno meio balofo, o que ele considera “desespero das elites” com o sapo barbudo. Qual elite, meu senhor? Olavo Setúbal, dia desses, saudou o Lula conservador. Veríssimo acha que o Brasil é uma porcaria por causa dos outros. Eu acho que é por causa dele. Que usa seu prestígio de humorista para 1) se passar por pensador; 2) se fingir de analista político; 3) dar pinta de esquerdista e amigo do povo. Quando ele se cansa do fedor, ele foge pra Paris. Ele já disse certa feita que demorou para escrever, lançar-se, porque havia a sombra do pai, Érico Veríssimo, escritor de mão cheia. Deveria ter ficado quieto mesmo. O tempo passa, e ele só piora. Não por acaso, é um dos melhores amigos de Chico Buarque, com quem costuma de divertir na França. São os embaixadores do socialismo dos caetés.

VERISSIMO Pantomimas O GLOBO
Of ato de o PT ter passado a vida criticando a política econômica que adotou quando chegou ao poder seria o maior exemplo nacional da nova tese que rola por aí, a da irrelevância da política no mundo do capital imbatível. A política inutilizada seria uma contrapartida da História encerrada do Fukuyama, ambas vítimas do mesmo algoz. Segundo a tese, tanto fazia eleger o Lula presidente quanto só abrir um escritório do pensamento dominante em Brasília, com o Meireles de gerente, e o resultado na política econômica, e, portanto, o governo, seriam os mesmos.

Não sei se a tese está certa ou é só o simplismo do momento, mas ela nos permite pensar na política sem aplicação prática como apenas jogo histriônico, concurso de personalidades e recursos financeiros — enfim, como tudo que ela é e a gente já sabia, só que agora sem o atenuante de servir para alguma coisa.
Mas a política nacional como mera pantomima enquanto os destinos da nação se decidem em outra parte não deve abalar nossas convicções democráticas ou nos isentar do dever cívico de apertar conscientemente o botãozinho. A irrelevância da política não significa a irrelevância do voto.

Mesmo votando em pantomimas está-se votando em alguma coisa — não no governo que o votado faria, pois este já vem pronto, mas no que o seu personagem representa. E se o que ele representa é uma ficção, não faz mal.
De acordo com a tese, tudo em volta ou fora do caroço duro da submissão à realidade econômica única é, no fim, metáfora.

Visto assim, o grande valor político do Lula é o que ele simboliza na pantomima, o seu valor metafórico. Seu personagem não é significativo só pelas razões sentimentais óbvias — exretirante, cara que veio de baixo e venceu etc. —, mas pela didática comparação com as outras figuras, atuais ou tradicionais, do nosso teatro eleitoral. Sua origem proletária contrasta com uma história feita até agora de cima para baixo, com escassa participação popular, e com a rotina histórica da espoliação do Brasil pela sua própria elite. Seus problemas com a sintaxe e a gramática o contrapõem às gerações de doutores que construíram a sociedade mais desigual do mundo sem cometer um erro de concordância. E se nada disso é muito relevante para a vida real, leia-se econômica, do país, não deixa de ser divertido — no nível da caricatura mais primária, da pantomima para criança — ver o desespero da nobreza inconformada com a evidência de que o barbudo malnascido vai ficar, outra vez, com a princesa.
Falta dizer que, sem escapar da submissão às regras do capital financeiro internacional, este governo conseguiu começar um processo de transferência de renda, falho e insuficiente, mas inédito, no país. Mesmo irrelevante (se aceitarmos a tese), a política ainda pode fazer uma diferençazinha.








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