Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 20, 2005

Natal sem dualismo POR Xico Graziano

OESP

Natal é época de conciliação. A ceia familiar cultiva a tolerância. Nem as agruras do cotidiano, nem, eventualmente, o genro chato estragam a festa. No céu e na terra, o espírito natalino brinda à paz. Chama à virtude.

Trazido para a economia rural, esse sentimento cristão pode auxiliar na superação de certas divergências do pensamento. Nada melhor que a reflexão generosa. Falsos raciocínios provocam divergências estéreis, que apenas criam antipatias. Não levam a nada.

A cultura ocidental prima por criar dualidades, freqüentemente associadas ao bem e ao mal. Na religião, Deus enfrenta o diabo. Julgamentos se fazem sobre comportamento de pessoas, buscando o certo e o errado. O saber se compartimenta, teses se polarizam. É cara ou coroa.

Na análise do desenvolvimento rural brasileiro, a mais antiga dualidade opunha a agricultura de exportação à produção de subsistência. Quem já leu os clássicos da matéria - Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. - conhece os argumentos da teoria nessa época.

O que sempre se afirmou é que as culturas da cana-de-açúcar, do cacau e do fumo, no Império, e depois o café, na Colônia, estabeleciam uma oposição com os cultivos básicos, de arroz, feijão e mandioca. As "plantations", apelido original dos latifúndios, visavam ao mercado externo e dominavam a sociedade, em detrimento do interesse popular.

Mais recentemente, já nos anos de 1970, Paul Singer liderou um grupo de intelectuais que pensava de forma mais orgânica, não segmentada, sobre os processos agrários. Na mesma época, Chico de Oliveira escreveu sua Crítica da Razão Dualista, um marco na literatura da economia rural. A teoria evoluiu.

Com a promulgação do Estatuto da Terra, em 1964, a discussão sobre a reforma agrária gerou nova polaridade. O governo militar promovia a colonização rumo ao Centro-Oeste e à Amazônia, enquanto a oposição defendia a desapropriação de terras nas áreas já desbravadas. "Integrar para não entregar" era o lema governamental. Contra o imperialismo e o latifúndio, gritava a resistência democrática.

Em decorrência dessa discussão, surgiu a distinção entre "política agrária" e "política agrícola". A primeira preocupava-se com a distribuição e o uso da terra. Na segunda interessavam os mercados e seus preços. Uma era de "esquerda", rumo ao socialismo; a outra representava a "direita", capitalista.

Com o advento da ecologia, o debate no campo esquentou. A erosão dos solos, fenômeno mais antigo, ganhou a companhia dos reflexos da modernização tecnológica, a começar pelo uso indiscriminado de defensivos agrícolas, os temidos "agrotóxicos". Começava a era dos produtos orgânicos.

A preocupação com a Amazônia e a luta contra a destruição da mata atlântica acirraram a polêmica sobre o desmatamento. A polarização, nesse assunto, se estabeleceu entre "produzir ou destruir". Ambientalistas se opunham aos ruralistas. Depois surgiu sua síntese, a agricultura sustentável.

Por fim, recentemente apareceu a mais nova, e profundamente equivocada, polaridade da economia rural: a oposição da "agricultura familiar" com os "agronegócios". Sua origem remonta a meados da década de 1990. O debate entre a pequena e a grande propriedade rural se embaralhou.

Familiar faz contraponto com patronal. Para certa esquerda, agricultura familiar é do bem, enquanto os agronegócios representam o mal. Nessa visão, agronegócios só visam à exportação, criando desigualdades sociais. Já a agricultura familiar alimenta o povo e traz a bondade social em seu âmago.

Parafraseando Nelson Rodrigues, toda polaridade é burra. Na economia rural, então, essa mania grotesca, nascida num marxismo banal, de opor conceitos somente atrapalha a compreensão da realidade. Pior, leva pessoas a deformar a realidade para ver adaptados seus esdrúxulos conceitos teóricos.

Ora, agronegócio significa produção vinculada ao mercado, dentro de uma cadeia econômica de relacionamento empresarial. Nada tem que ver, na origem do conceito, com o tamanho da propriedade rural, tampouco com exportação. A negação do agronegócio está na produção de subsistência, não da agricultura familiar.

O objetivo correto de uma política de desenvolvimento rural deve ser o de profissionalizar a pequena produção, ofertando tecnologia adequada e gestão correta. Transformar o agricultor familiar em empresário eficiente representa o maior desafio da economia agrária.

Errado não está em ser pequeno, mas sim em trabalhar sob o jugo do atraso, em plena era da tecnologia e da globalização. "Small is beautiful", escreveu Schumaker. Certo, desde que se tenha a oportunidade de gerar renda e garantir qualidade de vida. Quem gosta de defender a pobreza no campo é intelectual rico da cidade.

Sublimar a agricultura familiar e condenar o agronegócio representa cair na cilada do raciocínio banal, típico das velhas polarizações que provocaram tanto debate, gastaram tanta saliva, mas pouco contribuíram para a mudança. A dualidade serve ao discurso retórico e agrada à ideologia barata. Seu conteúdo, todavia, é oco.

Antes de festa, Natal pede reflexão. O dualismo apenas leva ao porre chato e à intriga desnecessária. Os agricultores, familiares ou patronais, pequenos ou grandes, que exportam ou vendem aqui, assentados ou tradicionais, querem produzir em paz.

Que 2006 seja melhor para a inteligência agrária.

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