A estratégia do presidente Washington Luís para conter a oposição no processo eleitoral foi impedir que a Câmara dos Deputados funcionasse. Os deputados da Aliança Liberal passaram a fazer as sessões em frente ao Palácio Tiradentes. Não satisfeito, o governo infiltrou provocadores para dificultar as reuniões-comício nas escadarias. A temperatura subiu. Simões Lopes -deputado e coordenador da campanha de Vargas- e Souza Filho -deputado governista- discutiram e trocaram empurrões. Luís, filho de Simões Lopes, lançou mão de uma bengala e bateu em Souza Filho. Este desembainhou um punhal e partiu para cima de Luís. O deputado Simões Lopes não vacilou: sacou a sua arma e atirou em Souza Filho, que faleceu.
Estamos às vésperas da sucessão presidencial, depois de 12 anos seguidos tendo presidentes de São Paulo. Mais um? |
Washington Luís, tentando influenciar a sucessão, impôs a candidatura de mais um governador paulista: Júlio Prestes. Minas Gerais e Rio Grande do Sul entenderam que já estava na hora de abrir a outros Estados o acesso à Presidência da República. Os gaúchos costuraram sua unidade interna, com a aquiescência de Borges de Medeiros e Assis Brasil, em torno do nome do governador Getúlio Vargas. Minas, através do governador Antônio Carlos, entendeu que essa era a melhor solução. A Paraíba se somou a eles.
Por iniciativa de Minas, se propunha acabar com a chamada "política do café-com-leite". São Paulo já havia dado os presidentes Prudente de Moraes, Campos Sales, Rodrigues Alves e, agora, Washington Luís, que queria ir mais longe com Júlio Prestes. Minas havia dado Afonso Penna, Wenceslau Brás e Artur Bernardes. E o vice de Washington Luís, Mello Vianna, que antes havia sido uma invenção de Artur Bernardes ao governo de Minas. A intransigência de Washington Luís produziu um conflito e, depois, o confronto que culminou em outubro de 1930.
Na República Velha, quando não existiam partidos nacionais, o processo sucessório era coordenado pelo presidente em exercício. Rodrigues Alves havia tido mais sensibilidade. Depois de 12 anos de presidentes paulistas, de 1894 a 1906, tentou empurrar o nome de Bernardino de Campos, governador de São Paulo. A reação veio imediatamente, e Rodrigues Alves aceitou estudar alternativas, acabando por escolher o nome de Afonso Penna, governador de Minas Gerais. É aí que começa a política do café-com-leite, que vai até 1929, quando o governador de Minas, Antônio Carlos, e os deputados Mello Franco -pai e filho- e José Bonifácio, entre outros, entenderam que deveria ser interrompida.
Washington Luís não teve a sensibilidade de Rodrigues Alves, e Afrânio de Mello Franco escreveu uma longa carta ao ex-presidente Epitácio Pessoa, que estava na corte de Haia, detalhando os fatos, analisando as suas conseqüências, prevendo seus desdobramentos e pedindo a intervenção dele. Pessoa retornava ao Brasil, mas preferiu não intervir. A sua própria escolha para a Presidência da República havia sido o resultado surpreendente de um impasse.
Aliás, esse também tinha sido seu comportamento na sua sucessão, quando nem sequer exerceu o papel de coordenador, o que gerou uma sucessão traumática, com as cartas falsas de Artur Bernardes, depois descobertas, mas que geraram um atrito insuperável com os militares, do qual o ex-presidente marechal Hermes -à época presidindo o Clube Militar- tentou se aproveitar para ver se entrava como "tertius". O fechamento do Clube Militar acabou por acelerar a rebelião prematura dos Dezoito do Forte, em 1922, abrindo um longo período de estado de sítio sob a presidência de Artur Bernardes. Outra sucessão dentro do jogo café-com-leite que custou muito ao Brasil.
Num país federado como o nosso, com um enorme desbalanceamento regional, com identidades regionais fortemente marcadas, com a genética histórica de inconformismos em relação a ultracentrismos regionais, dos quais Pernambuco e Rio Grande do Sul deram mostras em diversas ocasiões desde 1917, enquanto Minas o fez por três vezes (1792, 1906 e 1929), o natural seria aprender as lições da história e levar em conta excessos político-regionais. Isso sem deixar de lembrar que 1937 coincidiu com a postulação de Armando Sales à Presidência, mais um governador de São Paulo.
Quando o deputado José Dirceu levou a sua bengalada, me veio à memória dezembro de 1929. Em seguida, lembrei dos processos sucessórios, os já citados e outros. Agora, estamos às vésperas de mais uma sucessão presidencial, depois de 12 anos seguidos tendo presidentes de São Paulo. Mais um? Vamos para 16 anos de presidentes paulistas? Não custa nada viver a história e conversar com o país todo sobre desequilíbrio econômico e, principalmente, sobre desequilíbrio político, para que não se cometa mais um erro e não se precipite um processo cujo resultado eleitoral pode ser uma resposta a tais excessos regionais.
Os cuidados devem ser tomados por quem imagina que pesquisas vencem eleições. E para que novas bengaladas não venham por aí.