Adquire intensa gravidade, entretanto, quando quem diz o que ele disse a respeito da conduta pessoal da juíza, qualificando-a como "terrorista" e "tendenciosa", postula nada menos que a Presidência da República.
Pudéssemos classificar a reação do ex-governador – e da governadora Rosângela Matheus, também irada por ser considerada inelegível em sentença de primeira instância – de ingênua, certamente poderíamos evitar chamá-la de desrespeitosa e de cunho autoritário frente a uma decisão da Justiça.
Mas, por mais que a reação colérica e, esta sim, politicamente incorreta, tenha tido o condão de atrair sobre o casal uma onda de revolta e antipatia, Garotinho foi tudo, menos ingênuo.
Revelou, antes, sofrer de mal assemelhado – e acentuado – ao que acomete também seu adversário o presidente Luiz Inácio da Silva: desapreço a formalidades, descuido com as palavras, presunção de autoridade absoluta e desconsideração pelo discernimento alheio.
Não são atributos que o ajudem a firmar junto ao eleitorado a imagem de que poderia vir a suceder a Lula na chefia da Nação com chance de desempenho pessoal diferenciado – para melhor.
Ao contrário, do atual presidente da República já ouvimos muitas e nem sempre boas. Mas afrontas a decisões da Justiça dele não vimos quando, por exemplo, foi condenado pela Justiça Eleitoral a pagar multa por uso indevido do cargo na campanha de Marta Suplicy à reeleição na Prefeitura de São Paulo. A Advocacia-Geral da União recorreu da sentença e ficamos por aí dentro dos limites da legalidade e da legitimidade.
Também o Supremo Tribunal Federal até recentemente tomou decisões contrárias às expectativas do Palácio do Planalto, e nem por isso o presidente ou qualquer integrante do Governo achou-se no direito de desancar publicamente a reputação dos ministros do STF.
Neste aspecto, Garotinho, tão rápido na formação de conceitos desabonadores a respeito do Governo ao qual dá combate na política, mostra-se desde já em desvantagem.
Exibiu-se estouvado, mas não inédito, na resposta, indiferente à evidência de que não reina mais na província, não estava em cenário de disputa política e de que cumpre burilar seu comportamento caso queira mesmo integrar o elenco de líderes políticos de alcance nacional.
Dizem os advogados do PMDB que Garotinho e a governadora Rosângela não tiveram a intenção de "ofender" a juíza.
Pois se não foi isso, pretenderam, e conseguiram, agredir a instituição Justiça.
E, se não tiveram nenhum dos dois propósitos, pior: não sabiam o que estavam fazendo, ou dizendo, quando a título de defesa buscaram desqualificar a juíza. Desse modo, abrindo mão da batalha no campo racional, aceitaram o pressuposto de que, no caso, contra os fatos relatados na sentença realmente não há argumentos.
Graças aos instrumentos conferidos pela Justiça, o ex-governador e a governadora têm direito a recursos a instâncias superiores e poderão, se reformada a sentença de Denise Appolinária, recuperar as condições de elegibilidade.
O dano político para ambos, porém, está posto. Sem entrar no mérito do arrazoado apresentado pela juíza – que recupera e fixa na memória nacional o que foi a campanha de 2004 no Rio, quando até o gabinete a governadora transferiu para Campos –, a reação de Anthony Garotinho ofereceu ao País um exemplo de como se porta um candidato à Presidência da República frente a uma contrariedade de ordem institucional.
Efeito especial
Se, como dizem vários próceres governistas, a conduta do funcionário dos Correios Maurício Marinho é "ato isolado" e suas acusações fruto da megalomania de um leviano, por que tanta indignação e para que também a abertura de inquéritos e sindicâncias? Bastaria demiti-lo que a República prosseguiria toda ela proba como querem fazer crer suas excelências.
A agitação em prol da moralidade – ressalvadas as reputações aliadas – é proporcional à necessidade de o Governo tentar recuperar, no discurso, o capital ético gasto ao longo de dois anos e meio de gestos de condescendência diante de toda sorte de condutas: das meramente questionáveis às francamente condenáveis.
Pelo gongo
Se na reforma ministerial a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos tivesse ido junto com o Ministério das Comunicações para o PP, como reivindicava a partido, o ônus da corrupção ali descoberta hoje provavelmente estaria na conta do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti.
Inversão
o dia
Nenhum comentário:
Postar um comentário