Entrevista:O Estado inteligente
Tempestade perfeita - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 06/12
O
dia de ontem foi pródigo em manifestações das mais variadas espécies
sobre um só motivo: o receio de que as manifestações de junho passado
voltem a tomar conta do país. Quem primeiro revelou essa preocupação
recôndita foi o ex-presidente Lula, cuja língua solta acabou traindo-o
no discurso de improviso que fez ao receber o título de doutor honoris
causa da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo.
Ao
se autoelogiar por ter autorizado o funcionamento da universidade, Lula
alertou a presidente Dilma, presente ao evento na qualidade de
coadjuvante, como só acontecer quando os dois estão juntos: "Depois que
ele se forma doutor, não espere que ele ficará agradecido. Ele vai para a
rua fazer manifestação contra você".
Para evitar isso, Lula
disse que só existe uma maneira: "Garantir que, depois de formado, ele
possa aperfeiçoar seus estudos e o emprego do sonho dele. Quando ele
conseguir isso, pode estar certa de que ele não vai mais sair para
passeata"
Portanto, Lula sabe que as passeatas foram contra o
governo, e admite publicamente que é preciso fazer mais do que
simplesmente criar universidades sem estrutura e sem projeto de
educação.
Em seguida, foi o prefeito do Rio Eduardo Paes que
confirmou o aumento de passagens de ônibus no ano que vem, inevitável
por previsão contratual. Mais uma vez as manifestações populares de
junho, que começaram a partir de um movimento contra um aumento de R$
0,20 centavos nas passagens de ônibus — que, aliás, havia sido adiado a
pedido do governo federal para segurar a inflação —, voltaram a rondar a
conversa quando o prefeito disse que a redução ocorrida este ano "por
motivos óbvios" não poderia ser mantida por muito mais tempo.
Para
completar o cardápio, o secretário-geral da Fifa, Jerôme Vaicke admitiu
que as manifestações populares de junho quase tiraram a Copa do Mundo
do Brasil. Na Costa do Sauípe às voltas com o sorteio das chaves da Copa
do Mundo e os atrasos dos estádios de futebol brasileiros, Vaicke
relembrou que houve um momento em que se pensou em suspender a Copa das
Confederações, o que tecnicamente levaria à mudança da sede da Copa de
2014.
Pois todos esses fatores estarão de volta ao cenário
brasileiro no próximo ano, e com ingredientes da economia internacional
que podem pressionar a combalida economia nacional. Seria a "tempestade
perfeita" raro fenômeno meteorológico que conjuga fatores climáticos
produzindo ondas gigantescas e ventos de quase 300 km/h, como aconteceu
em 1991 no Caribe.
Em economia, dá-se esse nome à conjunção de
fatores internos e externos que pode abalar um país. Com a perspectiva
de reversão da política monetária fortemente expansionista do governo
dos Estados Unidos através do Federal Reserve (Fed, o banco central dos
Estados Unidos), e os problemas fiscais vividos pelo país, teme-se que
uma "tempestade perfeita" atinja o Brasil no próximo ano, exacerbada
pelas questões políticas infernas.
Justamente quando estará em
disputa a reeleição da presidente Dilma, que, por isso mesmo, não terá
margem de manobra para reduzir gastos públicos. Há estudos que
demonstram que historicamente a utilização de políticas monetárias,
fiscais e cambiais com claros objetivos político-eleitorais gera Ciclos
Políticos de Negócios (CPNs), cuja principal característica é a redução
do desemprego em períodos pré-eleitorais, com o objetivo de proporcionar
um ambiente positivo capaz de influenciar o resultado eleitoral.
Após
esse período de crescimento, no entanto, o período pós-eleitoral é
caracterizado por inflação em alta, cuja consequência é a adoção de
políticas macroeconômicas contracionistas. No Brasil, temos pleno
emprego em uma economia que cresce a ritmo de pibinho, com previsão de
piorar no próximo ano. E já temos inflação alta.
Todo o esforço
da presidente Dilma será atravessar o ano sem que as diversas crises
previstas afetem sua possibilidade de reeleição. Seja quem for o
vencedor, porém, terá um 2015 caótico pela frente.
Os pontos-chave
1
- O dia de ontem foi pródigo em manifestações das mais variadas
espécies sobre um só motivo: o receio de que as manifestações de junho
passado voitem a tomar conta do país
2 - Ao se autoelogiar por
ter autorizado o funcionamento da universidade, Lula alertou a Dilma,
presente ao evento na quaüdade de coadjuvante, como sói acontecer quando
os dois estão juntos: "Depois que ele se forma doutor, não espere que
ele ficará agradecido. Ele vai para a rua fazer manifestação contra
você"
3 - Todo o esforço de Dilma será atravessar o ano sem que
as diversas crises previstas afetem sua possibilidade de reeleição. Seja
quem for o vencedor, porém, terá um 2015 caótico pela frente
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