domingo, dezembro 01, 2013

O humanista cético - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 01/12

A Editora PUC-Rio acaba de lançar o livro Dionísio Dias Carneiro, um humanista cético, em homenagem ao economista, professor, formador de alunos e pessoas, a quem ele ensinava criatividade em ciência econômica e ética na vida profissional - e deles recebia admiração, amizade e gratidão. Organizado por Luiz Roberto Cunha (amigo de longos anos no Departamento de Economia da PUC-Rio), Maria Antonieta Leopoldi e Eduardo Raposo, o livro tem prefácio de Edmar Bacha e depoimentos de economistas e alunos que o acompanharam por 40 anos de vida acadêmica, até sua morte, em 2010.

Conheci Dionísio há 20 anos, tornamo-nos amigos e era a ele que recorria sempre que precisava entender a lógica da economia na vida do País. Não havia ninguém que explicasse melhor - com sabedoria, paciência, simplicidade, generosidade e honestidade intelectual - os meandros do Plano Real e das crises econômicas que o Brasil viveu. O humanista cético de inteligentes e imperdíveis comentários carregados de delicioso e refinado bom humor eu conheci em nossos incontáveis encontros em restaurantes do Rio de Janeiro e no apartamento do Leblon ou na casa de Petrópolis, quando a doença passou a frear sua mobilidade.

A vida de Dionísio Carneiro se entrelaça com a evolução do ensino universitário da Economia. Ao regressar do doutorado na Universidade de Vanderbilt (Tennessee, EUA), em 1972, com apenas 27 anos, foi lecionar na Universidade de Brasília, convidado por Edmar Bacha, que acabara de assumir o seu Departamento de Economia. Já no ano seguinte se transferiu para a Fundação Getúlio Vargas (FGV), levado por seu grande mestre Mario Henrique Simonsen. Mas, com a ida de Simonsen para o governo, o conflito com o grupo liberal de Carlos Geraldo Langoni acirrou e precipitou a saída de Dionísio, Chico Lopes e Rogério Werneck da FGV. Em 1977, os três criaram o curso de mestrado da PUC-Rio, um núcleo formador de talentos econômicos. Entre professores e alunos, por lá passaram Armínio Fraga, Pérsio Arida, Edmar Bacha, Pedro Malan, André Lara Resende, Gustavo Franco, Ilan Goldfajn, Edward Amadeo, José Márcio Camargo, Luiz Roberto Cunha, Elena Landau, Eduardo Loyo, Pedro Bodin, Marcelo de Paiva Abreu e muitos outros. O Plano Real nasceu de discussões e de debates entre alguns deles, e Dionísio Carneiro sempre foi o agregador do grupo.

Em 1992 ele criou a Galanto Consultoria e para lá levou muitos alunos da PUC. Na verdade, a empresa (ele gostava de chamar Família Galanto) funcionou como extensão de suas aulas, o aprendizado prático dos 46 estagiários que por lá passaram, entre eles Mônica Baumgarten de Bolle, que se tornou sócia e herdeira na Galanto.

Mas Dionísio e o amigo Bacha sentiam falta de um lugar para debater grandes temas, que contribuísse para a formulação de políticas econômicas para o Brasil. Em 2003, nascia o Instituto de Estudos de Política Econômica, conhecido como Casa das Garças e abrigado numa bela casa no Leblon, construída por Oscar Niemeyer e com jardins de Burle Marx, de propriedade de dois ex-alunos de Dionísio. Hoje dirigido por Bacha, o Instituto Casa das Garças rejeita ser chamado de "ninho tucano" e, desde o início, Dionísio foi quem mais brigou para fazer dali um fórum de debates independente, apartidário e plural. Aliás, além de preparar e formar alunos, outra boa mania de Dionísio era estimular o debate de ideias. Foi o que ele fez também nas centenas de textos de artigos que escreveu para oEstadão ao longo de 12 anos.

Privatização. Agora que as licitações de aeroportos e de rodovias engrenaram com leilões bem-sucedidos, o governo federal deveria aproveitar o embalo, engatar a marcha e dar a partida para a mais urgente e mais difícil das privatizações de ativos enfileirados na nova prateleira de Dilma Rousseff: as seis distribuidoras de energia estaduais empurradas para a Eletrobrás, que não as quer nem dá a isso uma solução definitiva.

Há vários anos elas sangram o balanço financeiro da Eletrobrás, são campeãs em serviços de péssima qualidade, acumulam gigantescos prejuízos e dívidas, que crescem ano a ano, e agora viraram empecilho para o governo definir as condições para renovar as concessões de 44 contratos de distribuidoras que vencem entre 2014 e 2017.

Os números financeiros dessas distribuidoras (dos Estados do Amazonas, Acre, Alagoas, Piauí, Roraima e Rondônia) são de espantar e expulsar quem nelas poderia pensar em investir. Só com a taxa denominada Reserva Global de Reversão (RGR) elas têm uma dívida global de R$ 2 bilhões, e ainda há outras, entre elas com as geradoras Eletronorte e Chesf, de quem elas compram energia. Os prejuízos são também gigantes e se avolumam há décadas: o de 2012 foi de R$ 1,33 bilhão, 33% maior do que o de 2011, que foi maior do que o de 2010. A situação delas, enfim, é caótica e não há como vendê-las sem ajeitar suas dívidas e sua gestão.

Incapaz de engendrar uma solução, a Eletrobrás contratou o Banco Santander e o escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados para modelarem um plano de reestruturação das seis distribuidoras, que há muito está para sair e não sai.

Algumas alternativas são cogitadas, mas a que o governo quer é atrair investidores privados para entrarem com dinheiro e capitalizarem as seis. Qual louco colocaria dinheiro em empresas que já estariam falidas não fosse o guarda-chuva da Eletrobrás? Também nos aeroportos o governo queria atrair operadoras estrangeiras e manter o poder de mando com a Infraero. Não houve interesse dos investidores e o governo foi obrigado a recuar. Quer repetir o erro com as distribuidoras de energia?

Este é mais um descalabro de gestão pública irresponsável. Essas empresas passaram mais de 20, 30 anos sendo usadas (ou, melhor, depredadas) por lideranças políticas locais, no governo Lula foram transferidas para a Eletrobrás, mas o uso político continuou. A única forma de acabar com a gestão política é vendê-las para empresas privadas. Só que não há quem compre ativos falidos. A melhor opção é estancar a sangria com urgência, afastando os obstáculos à venda para o capital privado. Essa seria a maior prova de fogo da nova fase de Dilma Rousseff pró-privatização - não fossem as eleições de 2014.

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