Entrevista:O Estado inteligente

domingo, junho 19, 2011

Às cegas FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/06/11

Faz algumas semanas, cometi o atrevimento de tentar demonstrar como o
Lula e o PT terminaram por ocupar, na vida política brasileira, o
lugar do partido que era o seu principal adversário, o PSDB. Não havia
nada de desconhecido nessa metamorfose, faltava apenas enunciá-la, e
foi o que eu fiz: demonstrei como Lula e seu governo, depois de
combaterem ferozmente o governo FHC e seus programas, entenderam que,
se insistissem nessa postura, jamais alcançariam a presidência da
República. Mudaram e ganharam as eleições.

E mais: ao assumir a chefia da nação, sem nenhum projeto, Lula viu
que, se não seguisse o rumo do governo anterior, levaria o país ao
desastre. E assim foi que, conforme disse naquela crônica, o lobo
vestiu a pele do cordeiro, isto é, o PT virou PSDB. E a metamorfose
continua, pois, agora, depois de satanizar, durante as últimas
eleições, a privatização, Dilma decide privatizar os principais
aeroportos do país.

Disso resultou que o PSDB não conseguiu fazer oposição de fato ao
governo petista, já que para isso teria que se opor a tudo o que
defendera e implantara no país. E essa situação se mantém, e de tal
modo, que o PSDB, desde então, mergulhou numa apatia que vinha se
agravando a cada dia. E, com a cara de pau que o caracteriza, Lula
afirmou que isso ocorre porque o partido de FHC não tem programa...

A verdade é que Lula _e agora Dilma_, tendo se transformado em autores
dos projetos e programas que combateram, aliaram às medidas saudáveis
do governo anterior _que liquidaram com a inflação e mantiveram
estável a economia_ outras abertamente populistas, visando conquistar
o maior número possível de pessoas carentes.

Com isso, Lula garantiu a seu governo e seu partido uma popularidade
de que jamais gozariam se tivessem persistido na pregação radical que
sempre os caracterizou. Além do mais, aparelhou órgãos e empresas
estatais, pondo-os todos a serviço da propaganda oficial. De tudo isso
resultou o enorme crescimento do PT nas últimas eleições e a
inabalável popularidade de Lula, que assim pôde eleger para a
presidência uma senhora que jamais disputara qualquer pleito
eleitoral. Ela governa o país, seguindo o mesmo plano populista de seu
inventor, com ampla aprovação popular.

Que perspectiva viável terá um partido de oposição, como o PSDB, em
face de semelhante situação? Essa pergunta de difícil resposta tem
levado muitos opositores de Lula e do petismo à indecisão e à
imobilidade.

É verdade que alguns fatos recentes deram certo alento à oposição,
como a derrota do governo na votação do Código Florestal e, sobretudo,
o escândalo que envolveu Antonio Palocci e resultou em sua saída da
chefia da Casa Civil. Mas esses episódios, se revelam a verdadeira
natureza do governo petista, não bastam para afirmar a oposição como
alternativa de governo. Isso só acontecerá quando os líderes
oposicionistas se dispuserem a refletir sobre a situação do país,
visando construir um projeto de nação.

Para concebê-lo seria necessário entender que a estabilidade
econômica, se é um fator positivo, não basta para definir o futuro e
garantir a melhoria real da vida das pessoas, particularmente daquelas
menos equipadas para crescer socialmente. Esse projeto, o PT não é
capaz de criar.

E não o é porque ele não tem nem nunca teve plano de governo. Esse
tipo de partido, por acreditar que todo o mal da sociedade decorre do
domínio da burguesia, imagina que basta tirá-la do poder para resolver
todos os problemas. Foi por isso que, para governar, o PT teve que
transformar-se em PSDB. Mas continua sem projeto próprio.

Isso significa que, não o tendo, improvisa a cada dia um novo lance
populista, como o recente Brasil sem Miséria, mais um slogan do que um
programa de governo. Esses programas assistenciais não são capazes de
alterar qualitativamente a vida das pessoas, especialmente dos jovens,
cujo futuro depende da educação de qualidade.

São previsíveis os problemas que as novas tecnologias poderão criar em
nosso país, no qual seu uso se estende de forma célere sem que a isso
corresponda à formação de quadros técnicos aptos a fazê-lo funcionar.
Enfim, o Brasil precisa de um projeto de nação.

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