Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 19, 2006

O bom selvagem


Artigo - Denis Lerrer Rosenfield
Folha de S. Paulo
19/12/2006

Desenha-se, se o imobilismo triunfar, um novo apagão. Cabe saber se os brasileiros estão dispostos a jantar à luz de velas 365 dias por ano

O PRINCÍPIO da precaução, utilizado tanto pelos ecofundamentalistas quanto pela ministra Marina, do Meio Ambiente, deveria ser mais propriamente denominado de princípio do imobilismo. Uma outra versão sua seria: "Quanto menos se fizer, melhor!".
As votações na CTNBio são uma clara demonstração disso. Os ecofundamentalistas conseguiram fazer passar a regra de que toda aprovação de transgênicos tem como condição a sua validação por dois terços dos membros desse conselho. Logo, basta não haver quórum para que nada se decida. E, se alguma decisão intervir, ela será sempre favorável aos defensores do princípio do imobilismo. Em recente votação, uma vacina transgênica foi derrotada por 4 a 17. Ou seja, quatro votos valem mais do que 17, contando entre os últimos renomados cientistas. Literalmente, a pesquisa nacional sobre transgênicos vai para o espaço, junto com a independência da ciência em nosso país.
Há toda uma ideologia que sustenta essa atitude, num curioso amálgama de marxismo e rousseauísmo. O Ibama se tornou um refúgio do politicamente correto, como se uma causa universal estivesse em jogo. Evidentemente, excessos foram cometidos em nosso país e no mundo todo contra a natureza. Um balanço justo deve ser claramente estabelecido, e medidas, tomadas. Querer, no entanto, atribuir ao capitalismo e à propriedade privada a responsabilidade exclusiva por esses fatos é um contra-senso histórico.
Se ao capitalismo pode ser atribuída a responsabilidade por devastações ambientais, o mesmo se pode dizer do socialismo. Nos países que o implantaram, houve devastações ambientais enormes. Os casos da ex-União Soviética, da China e dos países do Leste Europeu são exemplares. Porém, os fiscais do Ibama e seu corpo técnico, tendo à frente a ministra, revelam posições anticapitalistas e antiempresas. Travar uma usina hidrelétrica, por exemplo, é considerado um ato que segue posições revolucionárias, como se a luta socialista continuasse por esses meios ditos ambientais. Na verdade, eles defendem uma atitude anticapitalista que apregoa uma volta ao pré-capitalismo a partir de uma luta pelo socialismo.
Esse aparente paradoxo não é, porém, novo -já surgiu em outros momentos históricos. No movimento socialista ludista, no século 19, na Inglaterra, os operários destruíam as máquinas, numa luta contra o advento da nova tecnologia que mudava as relações sociais existentes. Mais especificamente, é como se Rousseau reaparecesse como guia dessas ações. Não nos faltam nem os bons selvagens. Indígenas, que já ocupam uma franja mais do que significativa do território nacional, maior do que vários Estados europeus juntos, mas para uma população infinitamente menor, se tornam uma espécie de exemplo que deve ser seguido.
A tolerância governamental, ou melhor, o apoio explícito da Funai, termina autorizando que um grupo de índios invada um porto da Aracruz no Espírito Santo sem que nada seja feito. Há um esboço de conflito entre trabalhadores e indígenas. Está se tornando moda reivindicar por simples declaração uma determinada propriedade que foi comprada e negociada livremente.
A Companhia Vale do Rio Doce tem problemas semelhantes com índios que usam automóveis, celulares e outros objetos da civilização. O bom selvagem já não é tão bom, mas isso não importa na defesa de uma causa que se volta, hoje, contra grandes empresas e o agronegócio; amanhã, contra os empreendedores rurais em geral.
É cada vez mais evidente que o país enfrenta um problema de gargalo do crescimento econômico que passa pela questão central da energia. O país não voltará a crescer a altos índices se nada for feito no que diz respeito à construção de novas usinas. O que se desenha no horizonte, se o imobilismo for triunfante, será um novo apagão. O país se coloca diante de uma escolha: aumentar a oferta de energia pela construção de novas usinas, hidrelétricas ou nucleares, ou viver o romantismo de que nada deve ser feito. O Brasil deverá optar entre avançar ou voltar para uma espécie de passado idílico, anterior à propriedade privada, à economia de mercado e à civilização em geral.
A escolha é válida, só que ela deve ser proposta à sociedade em seu conjunto, e não ficar restrita às mãos dos iluminados do imobilismo. É romântico um jantar à luz de velas. Cabe, no entanto, saber se a sociedade brasileira está disposta a jantar à luz de velas 365 dias por ano. Um referendo poderia colocar essa questão ao conjunto dos cidadãos.

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