terça-feira, dezembro 03, 2013

Marmelada brasileira Guilherme Fiuza



Veja - 02/12/2013
 
O Cruzeiro perdeu para o Vasco por 2 a 1. O Cruzeiro é o campeão brasileiro (com quatro rodadas de antecedência). O Vasco luta para não ser rebaixado. A diferença técnica entre os dois times é abissal a favor do Cruzeiro. Foi uma partida estranha. Antes do jogo, o zagueiro Dedé, do Cruzeiro, afirmou seu amor ao Vasco, clube que o revelou. Pediu para não atuar na partida. Disse aos colegas que não gostaria de ver o Vasco rebaixado. Em campo, os atletas campeões pareciam estar com sono. O Brasil ético diz que não houve nada de mais nesse jogo. O Brasil ético precisa comer muito arroz com feijão para entender o que é ética.
A cena mais polêmica foi a imagem do jogador Julio Baptista, do Cruzeiro, dizendo a um zagueiro do Vasco a frase: "Faz logo outro". O time carioca vencia por 2 a 0, e o jogador do time mineiro recomendava ao adversário que fizesse outro gol, conforme mostrou a leitura labial. Imediatamente, choveram explicações: "Num campo de futebol se diz qualquer coisa", "há todo tipo de provocação", "armação de resultado é teoria conspiratória" etc.Explicações que só tornam mais lamentável o que se passou no Maracanã.
Quem conhece futebol pode pular toda essa literatura. Basta observar o comportamento da defesa do Cruzeiro no segundo gol do Vasco. A zaga de postura implacável nos mais de 30 jogos anteriores, que não deixava espaço para os adversários respirarem, parecia naquele lance passear no shopping. Como numa pelada de casados e solteiros, o jogador do Vasco prestes a fazer o gol recebe uma marcação, por assim dizer, distraída - com os zagueiros do Cruzeiro esboçando um movimento de talvez, quem sabe, se aproximar do adversário quando ele já tivera tempo para dominar a bola, ajeitá-la e penteá-la. E, já que ninguém se opunha, chutá-la para o gol.
Como disse recentemente na rádio CBN o jornalista Marcos Guiotti, jogador de futebol, se quiser, sabe entregar o jogo com toda a discrição. O futebol se pratica hoje com altíssima velocidade e dinamismo, e uma sutil desaceleração aqui e ali já pode liquidar a fatura. O Brasil cordial e benevolente prefere decretar que o Cruzeiro perdeu porque estava cansado da comemoração do título. Pode-se acreditar nisso, e esperar que Papai Noel desça de trenó no Mineirão.
O Brasil faz acrobacias politicamente corretas, legisla sobre tudo nessa indústria do proselitismo pró-minorias, mas se recusa a olhar o seu caráter no espelho. O time do Cruzeiro tinha conquistado o título por antecipação, e imediatamente assumiu a postura comum à média dos brasileiros que conquistam algum poder: agora faço o que quiser. O lutador de MMA Anderson Silva, exaltado por sua origem humilde e sua batalha suada para vencer a pobreza e o preconceito racial, também não resistiu. Transformado em mito, resolveu debochar do adversário, rebolar diante dele, usar o poder conquistado para se dar o direito à soberba e ao escárnio. Uma noção patética da liberdade que o poder proporciona. Foi nocauteado.
Os mensaleiros foram nocauteados pelo mesmo motivo. Já na primeira posse de Lula, era possível notar o deslumbramento, com sua afirmação de que a Presidência da República era o ponto mais alto a que alguém poderia almejar. O poder como fim, não como meio. O mensalão e demais esquemas em que o PT se meteu decorrem da sensação de liberdade discricionária: cheguei ao topo e posso tudo. Silvinho Pereira achou normal ganhar uma Land Rover de uma empresa que fazia negócios com a Petrobras. Fernando Pimentel, que o Brasil cordial permite continuar ministro do Desenvolvimento, prestou consultorias milionárias e jamais demonstradas, graças aos seus belos olhos de amigo de Dilma.
José Genoino diz que só subscreveu os documentos do valerioduto porque era o presidente do PT. Mas jogou fora a chance de mostrar respeito pelo dinheiro público ao pedir, depois de toda a sangria do mensalão, aposentadoria por invalidez na Câmara. O poder será usado - com fins privados - até a última gota.
O time do Cruzeiro afronta o próprio clube ao usar seu poder de campeão para fazer caridade ao ex-clube de um colega. Mas o Brasil não liga. Dá uma rebolada e segue em frente, como o caranguejo.





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