Entrevista:O Estado inteligente

sábado, dezembro 20, 2008

Sete Vidas, com Will Smith

Choro fisiológico

Em Sete Vidas, Will Smith renova com o diretor
Gabriele Muccino uma parceria calculada para levar
a platéia às lágrimas – e dar a ele a oportunidade
de exercitar seu talento dramático


Isabela Boscov

Everett Colection/Grupo Keystone

UM INSTANTE PERFEITO
Smith e Rosario, que encabeça uma lista misteriosa com sete nomes: atores que deixam a sensação de que ainda têm muito a mostrar


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Em seu início de carreira, Will Smith impressionou os não muitos espectadores que viram Seis Graus de Separação com um desempenho dramático extraordinário – o qual, nestes quinze anos desde então, ele poucas vezes se interessou em revisitar. Pesam aí a facilidade que Smith demonstra para escolher material cômico ou de ação que o mantenha no posto de astro mais consistente do cinema americano hoje, em bilheteria e popularidade, e a recepção pouco calorosa às suas tentativas passadas de se envolver em filmes mais densos, como Ali. Há dois anos, porém, Smith encontrou o meio-termo que lhe agrada na pessoa do cineasta italiano Gabriele Muccino. À Procura da Felicidade, em que Muccino o dirigiu no papel de um pai que, largado sozinho com o filho pequeno, tenta driblar a má sorte, deu a Smith a oportunidade de exercitar sua flexibilidade sem alienar seu público. Agora, ator e diretor repetem a parceria em Sete Vidas (Seven Pounds, Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país, arriscando-se em uma história alguns tons mais sombria que a anterior.

No filme, Smith é Ben Thomas, um auditor do imposto de renda movido por razões que só no final serão explicadas, mas que desde o começo se intuem complicadas. Ben carrega consigo uma lista de sete pessoas, e as submete a testes, por assim dizer. O diretor de um asilo de velhos, por exemplo, é inquirido sobre sua situação financeira, e também acerca da evolução de sua leucemia. Sobre um cego que trabalha como operador de telemarketing (Woody Harrelson), ele despeja insultos cruéis, à espera de uma reação. De toda a lista, a pessoa a que ele dedica mais tempo e curiosidade é Emily (Rosario Dawson), uma tipógrafa que sofre de insuficiência cardíaca. Ben a procura no hospital e em casa, bisbilhota sua vida, observa-a de perto e a distância, telefona com hora marcada ou a visita de improviso. A certa altura, o teste acaba e um relacionamento começa – no qual a missão de Ben, seja ela qual for, vai interferir.

O título original de Sete Vidas, "sete libras", é uma referência à célebre passagem de O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, em que o personagem Shylock exige de um devedor que lhe pague com uma libra da própria carne. Significa, portanto, a cobrança dura e desproporcional de uma dívida. No filme, fica claro que Ben é que está cobrando de si mesmo um preço alto por um erro cometido. E não há dúvida também de que o objetivo é pôr a platéia para chorar – ao que ela corresponde em peso, numa reação quase que fisiológica. Muccino avança além do necessário na manipulação, mas ganha pontos pelo ótimo partido que tira de Rosario Dawson e por expor um pouco mais das inflexões dramáticas de Will Smith. O "um pouco", aqui, corre não por conta do diretor, mas do próprio ator: se a impressão é verdadeira ou não, só outros filmes poderão dizer, mas Smith é talvez um caso único de astro que intriga não tanto pelo que já mostrou como pela promessa do que ainda tem a mostrar.

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