Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 16, 2008

A nova geração de brasileiros na piscina

A glória de César Cielo

Na mais rápida e estonteante prova das
piscinas, o brasileiro conquistou um ouro
inédito nos 50 metros livres e transformou-se
no nosso maior nadador de todos os tempos


Kalleo Coura

Fotos Jonne Roriz/AE, Satiro Sodré/Agif/AE
FESTA DUPLA NO CUBO D’ÁGUA
Na quarta, Cielo celebrou o bronze. Na sexta, comemorou com o país inteiro sua vitória histórica

Para o país dos gramados de futebol e das quadras de vôlei, a maior glória olímpica em Pequim teve lugar nas águas de uma piscina. Na sexta-feira passada, o Cubo d’Água foi palco de um momento raro de triunfo e superação individual, só comparável, na nossa longa e quase sempre frustrante trajetória nos Jogos, às vitórias no atletismo de Adhemar Ferreira da Silva e Joaquim Cruz. O paulista César Augusto Cielo Filho, de 21 anos, ganhou para o Brasil uma inédita medalha de ouro na natação ao vencer os 50 metros livres, a prova mais rápida e estonteante da modalidade, com o tempo de 21s30, novo recorde olímpico. Foi o seu segundo grande desempenho na Olimpíada. Dois dias antes, ele arrebatara o bronze nos 100 metros livres, a disputa mais nobre da natação, juntamente com o americano Jason Lezak.

"Foi a melhor prova da minha vida. Se eu tivesse de voltar no tempo e mudar alguma coisa, não mudaria nada para viver essa sensação. Não há nada melhor do que colocar o número ‘1’ na frente do seu nome. Agora, eu sou um campeão olímpico", celebrou Cielo, que chorou muito com a conquista. Suas façanhas são um feito ainda mais digno de nota numa Olimpíada em que, antes deste fim de semana, já haviam sido esmigalhados 23 recordes mundiais de natação – incluindo as provas masculinas e femininas –, contra catorze em Sydney (2000) e oito em Atenas (2004). Sua primeira medalha surpreendeu inclusive a ele próprio. "Sonhei que chegava em terceiro lugar, mas acordei e lembrei que nadaria na raia oito", contou. Essa foi a raia que lhe coube por ter obtido apenas o oitavo tempo nas semifinais. Ou seja, sua vaga para a final era a última, o que lhe abria poucas perspectivas de pódio. Ao mergulhar para a disputa, porém, Cielo nadou como nunca até então, cravou 47s67 e conquistou, além do bronze, o recorde sul-americano.

A história seria diferente nos 50 metros. Cielo quebrou o recorde olímpico na eliminatória e na semifinal. E, na quase madrugada pelo horário de Brasília, manhã de inesperado céu azul na capital chinesa, fez o que havia prometido um dia antes. Mostrou que é o número 1 do mundo em sua especialidade, deixando para trás o francês Alain Bernard e o australiano Eamon Sullivan. Em Pequim, Cielo teve um desempenho único na equipe brasileira de natação, esporte que, até as suas vitórias, contava com um total olímpico de três medalhas de prata e seis de bronze. A outra esperança, Thiago Pereira, que saiu com seis ouros dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, ficou com o quarto lugar nos 200 metros medley. Nos 400 metros medley, terminou em oitavo.

Natural de Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, César Cielo praticou judô e vôlei na infância. No judô, por ser o maiorzinho entre os garotos de sua idade, era destacado para enfrentar os lutadores mais velhos. Por isso, vivia apanhando. No vôlei, não mostrava a mesma habilidade que exibiria na água. Seu talento seria detectado pelo ex-nadador Gustavo Bor–ges, dono de quatro medalhas olímpicas. Ao vê-lo competir em um campeonato regional, em 2003, Borges o convidou para treinar no Clube Pinheiros, em São Paulo. Cielo permaneceu por lá durante quase dois anos e, nesse período, Borges passou de ídolo a seu conselheiro. Hoje, ele tem como empresário o também ex-nadador Fernando Scherer, o Xuxa, bronze em Atlanta (1996) e Sydney (2000).

A velocidade alucinante e a técnica primorosa de Cielo, que mede 1,95 metro e tem 88 quilos, foram lapidadas nos Estados Unidos. Há três anos, o campeão ganhou uma bolsa de estudos na Universidade Auburn, no Alabama, onde treinou com o ex-nadador australiano Brett Hawke. Para os estudos acadêmicos, escolheu inicialmente uma área inusitada: criminologia. Depois, decidiu cursar administração. Nos primeiros anos de faculdade, além de ouvir dos técnicos uma sugestão difícil de acatar – não ter namoradas –, assinou um contrato que o impedia de sair à noite e de beber, como é de praxe na natação. Tudo para não atrapalhar os exercícios. As cinco horas diárias de treino, mais uma hora de musculação, deram resultado. Em 2007, ele arrebatou três medalhas de ouro no Pan. No último mês de abril, superou o fenômeno Michael Phelps no Grand Prix de Ohio, ao vencê-lo nos 100 metros livres. Tudo bem, esse não é o percurso nem o estilo em que Phelps se sai melhor. Ainda assim, foi de arrepiar: Cielo venceu com dois dedos das mãos deslocados. Mais extraordinário e empolgante do que isso é a medalha de ouro em Pequim, que o transformou no novo herói do esporte brasileiro – e no nosso maior nadador de todos os tempos.

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