Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, maio 18, 2005

Entre o ruim, o pior e o muito pior

O Congresso vive um dilema: instala a CPI mista do Correio e se arrisca a descobrir o possível envolvimento de alguns dos seus membros com roubalheiras em empresas estatais?
Ou empurra a CPI de barriga e se arrisca a despertar a ira da sociedade que por enquanto a tudo assiste pacificamente?
Está fresquinho na memória de senadores e deputados o que aconteceu nos últimos dois dias em Porto Velho - e o que talvez ainda esteja em curso por lá.
Parte da população foi às ruas protestar contra a censura judicial que a impediu de ver na televisão deputados tentando tomar dinheiro do governador.
Uma vez nas ruas, depredou os prédios da Assembléia Legislativa e do Palácio do Governo. A polícia foi obrigada a reprimi-la com violência. Os deputados filmados pelo governador deverão ser cassados. O governador deverá perder o mandato.
Recentemente, a bordo de um vôo comercial com destino a Brasília, o senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL, foi desacatado por uma passageira.
De dedo em riste, ela começou a criticar os políticos por não fazerem nada e por só quererem tirar vantagens dos mandatos.
Bornausen só conteve a fúria da mulher quando disse que fazia oposição ao governo. E que ela em parte tinha razão.
Senadores e deputados têm muitas histórias para contar parecidas com essa. Não contam para preservar a própria imagem.
O deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, pode ter dito a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade quando se defendeu ontem da acusação de chefiar um suposto esquema de corrupção montado por seu partido na empresa do Correio.
Mas é provável que bem pouca gente que o ouviu tenha acreditado em suas palavras. Porque é crescente na sociedade o sentimento de que a maioria dos políticos mente e rouba sempre que tem oportunidade. E pouco importa que isso não seja verdade.
Raro é o dia em que tal sentimento não se alimente com novos fatos.
No sábado, a Veja circulou com a confissão do ex-diretor do Correio. Quem acessou o site dela pode vê-lo embolsando R$ 3 mil.
No domingo, o Fantástico exibiu as fitas onde deputados de Rondônia pediam ao governador uma mesada de R$ 50 mil mensais. Ontem, a Polícia Federal prendeu prefeitos e ex-prefeitos alagoanos acusados de desviar dinheiro público.
O grau de desfaçatez de certos políticos chegou a tal ponto que há alguns dias, em Brasília, diante de colegas e de um ministro do Supremo Tribunal Federal, um senador do PMDB comentou que seu partido arrecada dinheiro por meio dos cargos que ocupa no governo.
O imprudente senador é tão espalhafatoso quanto as gravatas de gosto duvidoso que costuma usar.
Pior do que instalar a CPI do Correio é ter conseguido o número suficiente de assinaturas para instalá-la e dar um jeito de não fazê-lo.
Em tempo: tem uma coisa pior, sim.
Será muito pior instalar a CPI e ela não dar em nada.
BLOG do Ricardo Noblat

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