Mais não fosse, porque Luiz Inácio da Silva em outubro último deu aval a toda e qualquer ação do presidente do PTB, Roberto Jefferson. Este, à saída de um encontro com o presidente para tratar justamente de acusações – à época, de um acordo pelo qual o PT teria "comprado" o apoio eleitoral do PTB em cinco cidades por R$ 10 milhões – , relatou ter ouvido do presidente o seguinte: "Você atravessou o oceano sozinho. Eu te daria um cheque em branco e dormiria tranqüilo".
Não se fez jamais no Governo nenhum reparo à manifestação de confiança e tampouco se deu confiança às denúncias logo atribuídas ao ânimo caluniador de um ou outro deputado petebista eleitoralmente insatisfeito.
Perdeu-se, ali, uma excelente oportunidade de esclarecer suspeições ao invés de desqualificá-las passando a mão na cabeça dos suspeitos. No caso, o PT também estava envolvido e, pelo jeito, é por ai que o Governo se enrola.
Perde suas prerrogativas morais de cobrar moralidade em casos assim como esse, de evidência acachapante, quando por repetidas vezes evita enfrentar com austeridade, rigor e coragem denúncias contra integrantes do Governo em escalões mais altos que os agora demitidos Maurício Marinho, chefe do departamento de contratação e administração de material dos Correios, e seu superior imediato, o diretor de administração, Antônio Osório Batista.
É verdade que tão eloqüente como este agora, nunca havia vindo a público um caso.
Mesmo o de Waldomiro Diniz ainda prestava-se ao exercício da desfaçatez porque, na fita onde aparece pedindo propina, fica claro que é corrupto mas a comprovação da existência de um esquema de corrupção em funcionamento careceria de investigações.
Na reportagem de domingo, a revista Veja mostra um sólido sistema em ação.
Seguramente por sentir as costas quentes, o chefe de seção filmado por lobistas dizendo-se interessados em fazer negócios com o Governo deu nome, sobrenome, endereço e atividades do empreendimento por ele executado nas dependências de uma das empresas estatais que, até muito recentemente, aparecia nas pesquisas como uma das mais acreditadas junto à população.
"Nós somos três e trabalhamos fechado. Os três são designados pelo PTB, pelo Roberto Jefferson. É uma composição com o Governo. Nomeamos o diretor, um assessor e um departamento-chave", diz Maurício Marinho na gravação, autodesignando-se a função de "departamento-chave".
A reação dos petebistas e governistas ante tantas e tão inquestionáveis evidências foi de susto, expresso na disparidade de versões oferecidas a título de explicação.
Uns falaram de "fato isolado"; outros, em fantasias produzidas pela mente doentia de um funcionário com mania de grandeza – segundo o líder do PT no Senado, Delcídio Amaral, ele tentava "vender o Pão de Açúcar" aos lobistas – havendo mesmo quem atribuísse a fala de Marinho na fita ao diabetes e à hepatite que acometem o funcionário. Criativo, é de reconhecer, mas estapafúrdio.
Ventilou-se ontem também a hipótese de o indefeso e cândido líder Roberto Jefferson estar sendo vítima de uma chantagem posta em prática pelo funcionário que, tendo montado a filmagem para incriminá-lo, ofereceu a ele antes a fita.
Em troca do que, não se diz, bem como não fica claro qual o interesse do chefe de seção de divulgar cenas onde é o personagem principal e , óbvio, candidato primeiro à punição.
O que torna definitivamente crível o conteúdo da gravação é que Veja apresenta, com fatos, a comprovação do teor da conversa de Maurício Marinho com os lobistas. Ele refere-se a nomeações e licitações que realmente vieram a existir.
Muito bem, e agora o que quer o PTB do Governo? Isonomia de tratamento.
Para o petebista de São Paulo Campos Machado, o Governo Lula tem o "dever" de defender Roberto Jefferson porque defendeu o ministro da Casa Civil, José Dirceu, "numa situação muito mais grave". A saber, o caso Waldomiro Diniz.
Defendeu não só ele, mas muitos outros – todos, traduz melhor a situação – que vieram a ser alvo de suspeitas. Proteção dada pelo presidente a pretexto de preservar sua autoridade e não ser pautado por "manchete de jornal".
É um perfeito e bem acabado direito do presidente da República escolher seu método de trabalho. E o escolhido por Lula leva em conta o critério do contrário: sempre que a maré aponta para um lado, ele ruma para o lado oposto.
Se o clamor é por demissão deste ou daquele, o presidente Luiz Inácio da Silva firma-se na manutenção deste ou daquele. Se o consenso indica pela prudência do afastamento, ainda que temporário, de altos funcionários investigados, Lula faz da solidariedade profissão de fé.
o dia
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