Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 08, 2005

O GLOBO Miriam Leitão

Quando o Banco Central começa a ficar mais otimista em relação à inflação, uma parte do mercado volta a ficar mais pessimista. A pesquisa divulgada ontem com as cem maiores instituições do mercado financeiro mostra uma elevação da expectativa de inflação para o ano, logo depois de uma ata do Copom que mostrou o primeiro sinal de otimismo em muito tempo. A Tendências elevou de 5,3% para 6% a previsão para 2005.
— A alta dos ônibus de São Paulo, a recuperação de preços de commodities, a alta do minério de ferro e sua repercussão na cadeia produtiva têm que ser levadas em conta. Por isso, elevamos a previsão e acreditamos que outras instituições vão fazer o mesmo — diz o economista Roberto Padovani, da Tendências.


O professor Luiz Roberto Cunha acha que essas pressões já eram esperadas; já estavam no preço:

— Duas coisas me preocuparam nas duas últimas semanas: commodities agrícolas, como a soja, que voltaram a dar uma subida, e o preço do petróleo.

Para o professor, porém, no curto prazo, isso não muda nada.

— Quando se roda o modelo do BC, ele continua convergindo para os 5,1%. Este mês, com o relatório de inflação, poderemos ver melhor como o Banco Central está observando tudo isso.

Ele não se preocupa nem mesmo com a elevação da expectativa do mercado divulgada na pesquisa Focus de ontem.

— As cinco instituições que mais acertam — chamadas de Top 5 — nem aumentaram a previsão. A alta da expectativa nesta semana foi ajuste do aumento de ônibus em São Paulo. Ele vai impactar em 0,26 pontos percentuais o IPCA no ano. O mercado estava com um percentual menor de aumento. O reajuste foi no topo da previsão. Mas acho que isso não vai influenciar nas decisões do Banco Central porque ele já contava com o aumento — afirma.

Luiz Roberto admite que é preciso ficar atento no segundo semestre:

— Acredito que outros dois fatores podem influenciar bastante na inflação: os juros americanos e a questão fiscal no Brasil.

Padovani acha que o esquisito da situação atual é que o mercado começa a ficar mais pessimista, quando o BC está indicando que deve parar, em breve, a escalada de alta dos juros.

— Antes, as expectativas de inflação estavam em queda e o Banco Central fazia alertas pessimistas na ata. Agora, o mercado está vendo vários pontos de preocupação, e o BC mudou de tom na ata.

Um dos pontos de preocupação — mas também de otimismo — é a alta das commodities. André Petersen, da Máxima Asset, conta que tem muita gente no mercado revendo as previsões de balança comercial:

— A China continua crescendo, o mundo continua crescendo e há muita liquidez na economia mundial.

O preço das commodities, que vinha caindo desde o fim de outubro do ano passado, voltou a subir, como mostra o gráfico abaixo. Essa mudança eleva as previsões de saldo comercial.

Se, por um lado, commodities com preços mais altos ajudam na balança comercial, por outro, são uma pressão a mais na inflação.

— Mas contra esta inflação não há o que fazer. Só se consegue evitar a propagação, mas não o aumento. Neste caso, o Banco Central tem que ver como um choque — diz o economista.

André Petersen está contando com uma inflação em 2005 de 6%; acima da expectativa de mercado, que é de 5,84%. Ele acredita que não só o ritmo mundial de crescimento quanto uma maior recuperação do consumo podem fazer com que os preços aumentem mais do que o mercado espera este ano.

Mesmo assim, o mercado prevê uma nova — e última — elevação da taxa de juros para março. Depois disso, o Banco Central deve manter a taxa de juros elevada por muito tempo para ver o resultado.

Quanto ao dólar, o BC continua comprando para aproveitar o momento, evitar queda da cotação e acumular reservas. A estimativa é de que ele tenha comprado US$ 4,5 bilhões em fevereiro. Isso significa que, desde dezembro, foram comprados US$ 10 bilhões pelo Banco Central .

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