Toda véspera de mudança ministerial é a mesma coisa, a assessoria de comunicação do Palácio do Planalto dissemina com esmero e riqueza de detalhes a versão segundo a qual a maior dificuldade da reforma do Ministério é a aflição pessoal do presidente Luiz Inácio da Silva ante a hipótese de demitir amigos.
Embora tenha o condão de mostrar Lula como homem de bons sentimentos, soa estranho o argumento porque autoriza o cidadão mais exigente a concluir que o presidente da República não tem discernimento agudo nem firmeza suficientes para tomar decisões.
Sem contar na chance que se dá com isso à oposição para classificar o Governo como uma ação entre amigos.
Ato contínuo, às mentes suscita a óbvia questão: se ele é todo para os amigos, então quem é pelo País?
Como a idéia dos assessores não é a de exibir um presidente refém dos tormentos da dúvida – nem esta é uma característica própria dos seres pouco afeitos aos tormentos do intelecto –, sobra-nos a possibilidade de que estejam falando de um assunto para esconder outro.
Por exemplo, o já notório apetite do PT pelas coisas do poder seria um tema muito mais adequado à pauta das mudanças ministeriais. Não se trata aqui de juízo de valor, mas de constatação baseada na atuação do partido nesses dois últimos anos.
Entre os fatos acumulados no período há não apenas os ilustrativos do modo petista de agarrar-se ao poder, mas também os relacionados à facilidade objetiva que o presidente da República tem em demitir, amigos ou não amigos, quando a providência apresenta-se como indispensável.
Alguém cujos dramas de consciência se sobrepusessem a quaisquer outras questões dificilmente teria demitido o companheiro Cristovam Buarque do Ministério da Educação pelo telefone, sem direito a nenhuma explicação pessoal.
Alguém cuja capacidade de decidir estivesse permanentemente submetida aos ditames da emoção, convenhamos, não teria a carreira longeva de Lula no poder seja do sindicato ou do partido.
Um hesitante choramingas nem por todo carisma do mundo conseguiria sobreviver como candidato em quatro eleições presidenciais consecutivas e ser eleito na última delas.
Mais de acordo com a realidade do que a versão “sentimental eu sou”, estão a voracidade e as contendas internas do PT para explicar as dificuldades do presidente em alterar o perfil de sua equipe.
Basta observar que ele só não “pode” tirar os amigos/aliados que dispõem de algum tipo de proteção social-político-partidária-ideológica bem forte e organizada.
Olívio Dutra, cuja ineficiência o Governo propagandeia com afinco, é objeto de abaixo-assinado a cada vez que se fala em substituí-lo. E, assim, a poder de reação interna, tem ficado. Até a hora em que sua saída passar a valer mais que a sua permanência.
E assim outros. Pelo mesmo motivo, a necessidade de acomodar os interesses petistas, Lula criou 10 pastas com status de ministérios, aumentou os cargos de primeiro escalão de 23 para 33 e entregou 18 deles para o PT.
Gesto incongruente com o, em tese, Governo de coalizão que o PT propaga exercitar. Fala isso, mas corre a exigir a devolução da pasta da articulação política alegando que, em ano eleitoral, é fundamental ter um petista em tão estratégico posto.
Esse tipo de movimentação com vistas a manter intactos espaços e, se possível, ainda conquistar mais alguns, não é algo que confira estatura ao partido. Bem como não fica bem dar publicidade a socos e pontapés – no sentido figurado – trocados em defesa de um cargo. Coisa de fisiológicos, não de ideológicos.
Então, a fim de manter as aparências, é preferível usar essa história da agonia presidencial ante a hipótese de demitir um amigo. Ora, fossem as coisas no poder e na política uma questão de altruísmo, teríamos como lícita a conclusão de que os amigos não dedicam ao presidente a mesma dedicação sentimental a eles conferida por Lula.
Afinal, ficam impávidos onde estão por mais que sejam testemunhas das premências governamentais por vagas em ministérios para moços e moças de fino trato. Ou não.
Quando o PT ganhou as eleições de 2002, os artífices da organização da equipe acharam por bem inchar a estrutura e nela abrigar os companheiros derrotados nas disputas estaduais, ainda que isso contrariasse o resultado das urnas e também a lógica de um Governo de coalizão composto pelas forças políticas representativas da sociedade.
Pode até ser que, passados dois anos, alterado o cenário, o governo queira agora remontar-se de forma a traduzir com mais fidelidade a representação popular contida nos partidos. Terá problemas para desalojar os seus.
Não porque o presidente da República seja um reverente a amizades, mas porque é um petista e, como tal, é primordialmente um obediente aos ditames e às circunstâncias do partido. Reside aí a dificuldade.
Cooptação
O Governo considera fundamental para o projeto de reeleição ter o PMDB ao seu lado. Mas o partido todo, sem divisões. Nesse sentido, não serão surpresa na reforma em curso tentativas de cooptação, até possíveis adesões, na ala oposicionista.
Entrevista:O Estado inteligente
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