Eu gosto de ser mulher. Gosto de batom, salto alto e meia fina. Detesto tudo o que destrate a mulher, que a diminua, mesmo que venha recoberto com aquelas supostas delicadezas. Discordo dos mitos tratados como fatos como “mulher é sentimento e homem é razão”. Temos razão e sentimento, atributos dos seres humanos. Fico espantada com a facilidade com que tantas mulheres abrem mão, ainda hoje, da identidade e do nome próprio.
Tudo avançou nos últimos anos, tudo está longe ainda do que se possa chamar de aceitável. As mulheres conquistaram muito espaço no mercado de trabalho nas últimas décadas. É visível e está nas estatísticas. Mesmo assim, os processos de promoção das empresas estão contaminados pelas velhas barreiras: rígidas para as mulheres, flexíveis para homens. Mulher só passa se for muito boa, homem mediano passa.
Há quem negue a discriminação mesmo diante de todos os dados. Ou tente torturar as estatísticas para que elas confessem uma igualdade inexistente. Mas, pelo menos uma vez por ano, no início de cada março, são expostos os dados: há um contingente incontável de mulheres vítimas de violência doméstica, há uma multidão de meninas submetidas à exploração sexual, há assimetrias intoleráveis no mercado de trabalho, há a coleção diária de pequenas ofensas. Tudo mostrando que o problema está longe do fim.
A propaganda brasileira nos ofende. Está implícita, nos esquetes criados para a venda dos produtos, a informação desrespeitosa. Nem sempre são tão gritantes quanto aquela velha da Parmalat contra a qual eu protestei aqui: tratava como sonho da mulher o elogio do marido pela gaveta de cuecas sempre arrumada. Até hoje, não atino com a relação entre a grosseria e o leite que ela queria vender.
Certa vez, parei alguns minutos em frente à televisão e assisti a três ofensas consecutivas. Ourocard: a mulher compra uma roupa nova, mas esconde a bolsa de compras debaixo da cama e garante para o marido que a roupa é velha. Vick: o marido num quarto de hotel liga para a mulher dizendo que está passando mal, ela é que informa em que parte da mala está o remédio que ele precisa tomar. Ariel: a mulher lava a camisa de futebol do marido e teme a reação dele quando percebe que apagou o autógrafo. Tem uma outra da Aneel, antiga, em que o homem fica espantado quando a mulher demonstra ter conhecimento técnico da conta de luz. “Onde você aprendeu isto?”, pergunta; como fazem os adultos com as crianças.
Que mulher é esta descrita nestes anúncios? É consumista; mente; é a única que lava roupa, arruma as gavetas de cuecas do marido, faz suas malas; é ignorante. Sou uma consumidora, há 30 anos dona da minha conta bancária e dos meus cartões de crédito, que jamais se sentiu representada na publicidade brasileira.
As jovens acham que feminismo é coisa do passado. “Um mal necessário”, que teria cometido o erro de querer que as mulheres se comportassem como homens, como escreveu outro dia uma jornalista, colega do meu filho. As mulheres estão de volta ao lar, onde, no fundo, sempre quiseram ficar, sustentam inúmeras reportagens recentes, confundindo casos individuais com tendência.
O feminismo tem sido apresentado de forma caricata há décadas. O que me espanta é a falta de conhecimento — principalmente das mulheres jovens — sobre um tema complexo, que atravessa a história e marca de forma aguda e dolorosa a metade da Humanidade à qual pertencem. Ser feminista é saber que a mulher foi tratada como inferior ao longo de toda a História; que ainda hoje restam desigualdades com as quais não se pode conviver; que as atrocidades como a mutilação de meninas na África, a imposição de casamento às jovens muçulmanas, a agressão física nos lares são flagrantes contemporâneos de uma velha opressão ainda não eliminada. É também saber que, no cotidiano, são múltiplas as teias, as armadilhas, as confusões que nos empurram para um posto subalterno nas nossas próprias vidas. A construção da independência é permanente, exige atenção aos detalhes.
O pensamento está contaminado pela defesa da desigualdade. Para Aristóteles, a mulher se definia pela carência de certas qualidades, tinha uma deficiência natural. Para São Tomás de Aquino, era um homem incompleto. Para o Gênesis, foi extraída do homem e o induziu ao pecado. Para o direito romano, era uma imbecil; para a lei brasileira, até meados do século XX, uma incapaz. Para Freud, tinha complexo de castração. A maioria das religiões veta acesso da mulher ao sacerdócio. O Alcorão recomenda que se bata na mulher desobediente. A História é uma sucessão de fatos em que os homens são os protagonistas. Para o diretor de Harvard, ainda hoje, elas não têm mente para a matemática e a ciência. Livrar-se de carga tão antiga e disseminada não se consegue em poucas décadas de debate. A briga apenas começou.
Pelo jeito com que investia contra meus irmãos mais velhos na infância, acho que nasci feminista. Na adolescência, ilustrei o impulso com o pensamento ainda não superado de “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir. Com ela, aprendi que a mulher tem sido tratada como “o outro” e que jamais se deve aceitar esse papel secundário. O recado que tenho para as jovens é que essa atitude não tem a ver com negação do prazer. É, antes, a forma de conquistá-lo. Essa atitude é como dizer, como resumiu lindamente Marina Lima, no “Lado quente do ser”: “Eu não quero, amor, nada de menos.”
Entrevista:O Estado inteligente
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