Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 06, 2005

Folha de S.Paulo - Editoriais: EM RITMO MAIS LENTO - 06/03/2005

A divulgação dos dados relativos ao desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no quarto trimestre do ano passado suscitou justificadas reações de alívio. Confirmou-se, afinal, que 2004 foi o melhor ano, da ótica do crescimento da economia brasileira, desde 1994. Ao mesmo tempo, porém, analistas menos contaminados pelo clima de euforia oficial levantaram dúvidas sobre os possíveis desdobramentos desse processo de crescimento.
Os números divulgados pelo IBGE mostraram que a economia sofreu nítida perda de velocidade ao longo do ano. No trimestre final de 2004, ela avançou a um ritmo, anualizado, de 1,6%, bem abaixo da média do ano (5,2%) e daquele observado no terceiro trimestre (4,5%).
Essa desaceleração no final do ano passado, segundo as estatísticas, decorreu sobretudo da perda de ímpeto do consumo das famílias e dos investimentos. No primeiro caso, outras pesquisas atestam que os bens duráveis foram o principal item atingido. Já em relação ao segundo caso, o dos investimentos, não se verificou apenas uma redução da velocidade do crescimento: houve uma inflexão abrupta. Passou-se de um ritmo firme de alta no terceiro trimestre -de 6,8%- para uma queda de 3,9% no quarto trimestre.
Não há consenso entre os analistas quanto às razões da desaceleração dos duráveis e do investimento. Alguns enfatizam que a velocidade prévia da expansão dessas parcelas da demanda agregada era muito alta, sendo portanto natural uma posterior acomodação. Outros dão maior peso à influência dos sucessivos aumentos de juros levados a cabo pelo Banco Central a partir de setembro -que teriam contaminado as expectativas e, em particular, o ânimo das famílias e do empresariado para realizar gastos e ampliar negócios.
Assumindo-se que a alta dos juros tenha de fato contribuído para a nítida desaceleração do quarto trimestre, como parece razoável supor, perde sentido o argumento corrente de que o aperto da política monetária se estaria revelando pouco eficaz para conter a demanda -assim como o corolário de que seria necessário insistir nos aumentos da taxa Selic e/ou tomar outras medidas restritivas, como elevar os depósitos compulsórios ou promover cortes drásticos de gastos públicos.
Se, pelo contrário, a razão estiver com aqueles que argumentam que não houve tempo para o aumento dos juros contribuir de modo relevante para a queda da atividade observada no quarto trimestre, essa diminuição do ritmo teria de ser explicada por outros fatores.
Nesse caso, revelar-se-ia ainda mais preocupante o momento em que esses fatores responsáveis pela desaceleração do último trimestre se acrescentassem aos efeitos negativos das elevações da taxa básica que vêm sendo determinadas pelo BC.
Em qualquer hipótese, os cenários sugerem que o mais sensato seria interromper imediatamente a trajetória de alta da taxa de juros.

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