Nós e o terror
MADRI. O papel da mídia diante do fenômeno do terrorismo foi tema de um dos painéis de ontem do congresso aqui em Madri, com um sugestivo título, “A mídia e o terrorismo: amigos ou adversários?”. Não há dúvida de que o terrorismo é uma estratégia de comunicação, o que nos coloca diante de um dilema, como ressaltou Matthias Naas, subeditor-chefe do “Die Zeit”, revista semanal de informações da Alemanha: o terrorismo floresce com sua divulgação.
A ex-primeira ministra inglesa Margareth Tatcher disse certa vez que “a informação é o oxigênio do terrorismo, e nós é que damos esse oxigênio”. Já que o que os grupos terroristas querem é publicidade, quanto maior impacto tiverem suas ações, maior destaque terão nos meios de divulgação, e assim estará aparentemente estabelecido um círculo vicioso que só favorece os terroristas.
Como os terroristas usam as modernas mídias, qual é o papel da mídia e sua responsabilidade na luta contra o terrorismo? Como jornalistas responsáveis podem lidar com o equilíbrio de informar o público e o desejo de protegê-lo contra o terrorismo?
Vários pontos de consenso surgiram, embora ficasse claro que não existe firmada uma posição comum sobre como tratar o problema. Antonio Franco, editor-chefe do “El Periódico”, da Cataluña, Espanha, embora tenha dito que a coesão contra o terrorismo tem que ser como uma religião, disse também que os jornalistas têm que ter claro que não estão a serviço do governo, mas dos cidadãos. Segundo ele, “é dever ético separar o que é ato contra a população civil da resistência dos povos contra uma invasão”, numa referência aos homens-bomba na guerra do Iraque. “Esses matizes devem chegar à opinião pública”, ressaltou Franco.
Não houve discordância quanto ao fato de que o jornalista não pode ser o braço informativo do governo, e de que a tendência de qualquer governo, seja de que ideologia for, é querer controlar as informações de acordo com seus interesses. Embora todos afirmem que o jornalista não pode ser neutro diante do terrorismo, nem pode fazer propaganda do terrorismo, uma pergunta do moderador da mesa, Juan Luis Cebrian, CEO do Grupo Prisa da Espanha, ficou no ar, sem resposta: a resistência francesa contra os alemães, na Segunda Guerra, era terrorista ?
Giannini Riotta, editor-chefe do “Corriere della Sera”, da Itália, pergunta: o que é fazer apologia do terrorismo, publicar um manifesto? Segundo ele, “os Estados impõem uma carga muito grande sobre a mídia”. Outro paradoxo ressaltado por ele: sabíamos tudo e não podíamos revelar nada no caso do seqüestro da jornalista italiana, para não colocar em risco sua vida. “Mas tenho a impressão de que quanto mais escrevermos, quanto mais sair publicado, melhor. Essa é a melhor saída”.
Hasan Cemal, colunista do “Milliyet National Daily”, da Turquia, lembrou que entrevistou radicais turcos no Afeganistão, que tinham ódio do regime laico da Turquia. Acabou se revelando, tempos depois, que um deles era homem da al- Qaeda. “Eu pensei que havia sido um instrumento dos radicais”, lembra ele. Ele criticou as muitas restrições legais na Turquia sobre terrorismo, mas lembrou que “temos lá 30 mil mortes em 15 anos”.
Vários dos jornalistas coincidiram que é preciso ter cuidado quando a imprensa se refere aos terroristas. Há uma crescente tendência a chamá-los de “insurgentes, resistentes”, e muitos políticos também adotaram a fórmula. Matthias Naas, subeditor-chefe do “Die Zeit”, embora tenha ressaltado que “não podemos ser neutros diante dos acontecimentos terroristas”, salientou que o clima de “quem não está conosco está contra nós, como definiu o presidente Bush certa vez, não é democrático”.
Segundo ele, o clima nos EUA é uma prova disso, “há demasiado patriotismo nos meios de comunicação dos Estados Unidos”. Uma das estrelas do painel foi a jornalista do “New York Times” Judith Miller, que tem papel de destaque nos dois lados da questão.
Com suas reportagens sobre as armas de destruição em massa apoiadas basicamente em informações do então presidente do Congresso iraquiano, Ahmad Chalabi, ela ganhou prêmios e ajudou a criar o clima propício à invasão do Iraque. Mais adiante, com a desmoralização de Chalabi, o próprio “New York Times” teve que pedir desculpas em público por ter baseado reportagens “em fontes não confiáveis”.
Acusada de governismo, Judith Miller hoje encontra-se do outro lado, sendo pressionada por um juiz a revelar as fontes de uma reportagem que não chegou a escrever, sobre a identidade de uma espiã da CIA. Judith chegou a ser condenada a 18 meses de prisão por se recusar a revelar as fontes, e ontem disse que o que está em jogo nos Estados Unidos “é a liberdade de imprensa e a democracia”.
Jean-Marie Colombani, editor do “Le Monde”, da França, ressaltou que os meios de comunicação têm que tentar sair do marco ideológico, que define a classificação dos atos terroristas. Lembrou que “a tentação autoritária é controlar a imprensa, tanto por parte dos governos quanto dos terroristas”.
Francisco Santos Calderon, jornalista seqüestrado por oito meses pelas Farc, hoje vice-presidente da Colômbia, levantou uma questão muito conhecida pelos jornalistas, especialmente os do Rio de janeiro: acusou os meios de comunicação de servirem de “caixa de ressonância” aos grupos terroristas, e está sendo muito criticado em seu país por isso.
Segundo ele, em dois anos o governo colombiano recuperou o território legal, reduziu drasticamente o número de seqüestros e de atentados. “Mas três atentados recentes fizeram a imprensa questionar a eficácia do sistema de segurança. É preciso ajudar a construir a confiança nas forças públicas”.
Entrevista:O Estado inteligente
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