Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 11, 2005

O DIA Online Dora Kramer A (in)eficácia da mudança

Tomemos como verdadeira a alegação do Governo de que a utilidade de fazer agora a reforma do Ministério prende-se à necessidade de assegurar ampla coalizão partidária para sustentar a reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva.

Tal premissa pressupõe que haverá redefinições de rumos, inclusão de forças políticas anteriormente antagônicas e afirmação conjunta de princípios programáticos a partir da qual o Palácio do Planalto terá segurança de que tais e quais partidos firmam um compromisso prévio de seguir aliados a Lula em 2006.

Sem o atendimento dessas preliminares, a dita reforma não se enquadra nos termos do propagado objetivo e nada garante a relação de causa e efeito entre o entra-e-sai de ministros agora e as definições eleitorais de cada partido em junho do ano que vem, daqui a 15 meses.

Considerando a temeridade de se fazer no Brasil previsões de caráter político com 15 minutos de antecedência, o governo federal realmente exibe uma convicção extraordinária em seus parceiros ao acreditar que o cargo de hoje assegura a decisão de amanhã.

Senão vejamos a movimentação em torno do PMDB, visto pelo Governo como o fundamental sustentáculo da recandidatura Lula. O presidente quer o partido consigo por inteiro e para isso ofereceu aumentar de duas para três as pastas ocupadas pelo PMDB na equipe de primeiro escalão.

Uma ficaria reservada à permanência do atual ministro das Comunicações, deputado Eunício Guimarães; outra iria para o senador Romero Jucá, e a terceira seria destinada à senadora Roseana Sarney.

Se for isso mesmo, talvez tenha faltado ao presidente da República perguntar a seus interlocutores pemedebistas como, quando e por que essa composição ministerial garantirá que na convenção de junho de 2006 o PMDB vai mudar por maioria de dois terços a decisão de ter candidatura própria.

Sim, porque isso foi resolvido por uma convenção, realizada em dezembro último, contestada judicialmente pelo grupo governista, mas recentemente convalidada pela Justiça.

A tese da candidatura está valendo e tem como seu maior defensor um pretendente a candidato, Anthony Garotinho, cuja única atribuição profissional atualmente é cuidar do assunto em regime de dedicação exclusiva. Garotinho ainda dispõe da estrutura do governo do Rio de Janeiro para fazer política país afora.

Portanto, trata-se de um obstáculo e tanto.

Na direção oposta, não é possível enxergar de que maneira Eunício Guimarães, Roseana Sarney e Romero Jucá provocarão qualquer alteração na conformação interna do PMDB, partido aliado a Lula desde janeiro de 2004 sem que com isso o Governo tenha contabilizado ganhos políticos.

Eunício Guimarães, com Ministério das Comunicações e tudo, não consegue garantir a permanência de um líder na bancada da Câmara. Ou seja, não dispõe da metade mais um dos deputados do PMDB.

Roseana nem do partido é. Retira-se agora do PFL porque o partido é de oposição e não pode ter ministros em suas fileiras. A única credencial pemedebista da senadora é a certidão de nascimento.

Ainda assim, o senador José Sarney não parece pleno de prestígio nas internas pemedebistas, já que sua filha está obrigada a fazer quarentena antes de assinar a ficha da nova filiação a fim de evitar protestos da ala adversária. Uma vez exibidas em públicos, essas manifestações enfraqueceriam o “sinal” de que o PMDB senta praça todo ele na a área de influência do Planalto.

Finalmente, temos o senador Romero Jucá, também um pemedebista cristão-novo. Ex-tucano, ex-líder de Fernando Henrique no Senado, entrou no PMDB por força de uma intervenção em Roraima conduzida pelo padrinho, o atual presidente do Senado.

A ele, o senador Renan Calheiros, a nomeação de Jucá serve à perfeição, assim como o acordo em torno da indicação de Roseana garantiu-lhe o apoio de Sarney na eleição para o comando da Casa.

Agora, para presidente da República e seu projeto de reeleição, francamente, ainda não deu para perceber ao que serve mesmo essa reforma no Ministério.

Quermesse

Um dia, é homenagem à Assembléia de Deus no plenário da Câmara em cerimônia animada por cânticos e sanfona. No outro, é celebração ao Dia Internacional da Mulher no plenário do Senado em solenidade embalada por bolero – Sabor a mi – e violão.

Diante disso, digere-se até com certa facilidade, por adequação entre atores e atuação, a cena dos presidentes da Câmara e do Senado proferindo discursos reverentes à condição feminina onde, entre outras providências, declara-se solenemente que as mulheres são “imprescindíveis”.

Sem jeito

E, faltou dizer, também muito generosas e pacientes, ante tanta condescendência e consideração como se ao gênero não pertencessem mais da metade dos seres da humanidade.

Justiça seja feita, em matéria de homenagens arrevezadas, reveladoras de machismo implícito, nesta semana Severino e Calheiros não foram os únicos.

Nenhum comentário:

Arquivo do blog