Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 11, 2005

O GLOBO- Luiz Garcia Primeiro teste para Severino




Até que enfim surge no Congresso um tema que reúne — na trincheira da resistência — muitas das boas cabeças de quase todos os partidos.


É a proposta de dar autonomia aos estados para legalizar o jogo do bicho e o funcionamento dos bingos. Lembram-se dela? Nasceu na imaginação, aparentemente mais prolífica do que profunda, do senador Maguito Vilela, goiano do PMDB. E representa o mais recente capítulo da briga entre o governo Lula e a jogatina.

Há exatamente um ano, o presidente jurou guerra de morte a bingos, caça-níqueis e similares. Perdeu nos tribunais, as casas de jogo voltaram a funcionar numa situação que pode ser definida como de sólida precariedade (só no Brasil deve existir isso, querem apostar?) e agora podem ganhar, com o projeto Maguito, o status mais tranqüilo de firme solidez.

A iniciativa é anterior à última crise: foi aprovada no Senado em 2002 e a qualquer momento pode ser votada no plenário da Câmara. Uma nau que, a propósito e infelizmente, tem timoneiro de primeira viagem. Respeitáveis analistas ignoram se, nas primeiras viagens, pela legislatura afora, ele saberá para que lado girar o timão — ou se velas são objetos que se içam ou se acendem. São temores sem malícia ou desdém: primeiras viagens todos as têm, inclusive na mais plena maturidade.

Mas a questão é séria — e não por acaso PT e PSDB (aguardam-se outras manifestações) estão unidos contra a proposta de Vilela. Juntando bingo e jogo do bicho, ela abre caminho para mais uma forma de lavagem de dinheiro (como se poucas existissem), e cria bases de ação para o crime organizado de todas as modalidades. Pior, dando aos estados e não à União o controle sobre o jogo, obviamente abre uma quantidade de novas portas para ligações perigosas.

Certamente a União não é invulnerável à corrupção — mas o que dizer, pelo menos em hipótese, de uma porta entreaberta em cada capital estadual?

Tudo depende da Câmara, no momento sob nova administração — o que significa, sejamos cruelmente sinceros, novas possibilidades de corrupção, aberta ou disfarçada. Faz parte da experiência de um parlamentar experimentado saber distinguir, na conversa mole dos lobistas, o que é defesa honesta de uma proposta ou disfarçada tentativa de compra do voto. Creiam: há parlamentar que se vende sem saber, e em qualquer país.

A investida do jogo, nas duas modalidades e no nível estadual — menos sofisticado, digamos assim — representa risco real de corrupção na máquina do Estado. Mais um; os que existem não são poucos.

Vem aí, portanto, teste importante para a administração Severino Cavalcanti na Câmara, e seus companheiros do baixo clero: cabes-lhe saber enfrentar, além de propostas que impliquem óbvias modalidades de corrupção, aquelas que propiciem mais projetos que contenham sementes de ladroeira. É mais complicado e pode depender de ajuda no alto clero do plenário.

O que não é vergonha alguma, presidente Severino.

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