Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 11, 2005

Folha de S.Paulo - LUÍS NASSIF: A lei da gravidade - 11/03/2005

É curioso o processo de avaliação atual da China. O padrão mental é o mesmo que antecedeu a quebra da Nasdaq e da Argentina. O mundo evolui sempre por meio de trancos. Em alguns períodos, podem ocorrer rupturas históricas, como a Revolução Industrial, a internet etc. Ou podem ocorrer bolhas. Mesmo nos processos consistentes, a consolidação desses movimentos não é linear. Está sujeita a oscilações bruscas em todo o processo inicial.
É só analisar a economia norte-americana e todas as crises por que passou até se consolidar como potência. Ou analisar o que foi a economia mundial no século 19, no período das grandes inovações, uma sucessão de crises, de cracks e recuperação, cujo ápice foi a crise de 1929.
No caso da Nasdaq, a partir de certo momento a valorização das ações passava a atropelar a lógica financeira. O preço de um ativo corresponde, grosso modo, ao fluxo de caixa descontado do investimento, a um múltiplo dos lucros ou da geração de caixa ou métodos similares. Depende também da previsão de crescimento do setor. Setores novos têm o inconveniente da falta de passado, para poder estimar o futuro. Com isso, tornam-se propícios a qualquer exercício de futurologia fantasiosa. Grande parte das empresas listadas na Nasdaq não dava lucros nem indícios de quando entrariam no azul. Mesmo assim, sofriam processos constantes de elevação.
Quando Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos), alertou para a "exuberância irracional", a reação dos analistas foi a de que a internet tinha consolidado um novo paradigma, uma mudança de patamar. Logo, não estaria sujeita aos métodos convencionais de análise. Aboliram até o método cartesiano. Se o corpo está em queda livre e demora para espatifar, é capaz de que digam que a lei da gravidade mudou de patamar.
Essa mesma loucura justificou a apreciação do câmbio brasileiro em 1994. O mercado financeiro internacional tinha entrado em um novo patamar, de oferta ilimitada de financiamento, diziam os financistas do Real. Uma semana antes da quebra da Argentina, analistas mantinham acesas as esperanças dos tolos acenando com a dolarização como receita para todos os males.
Agora essa retórica se volta para a China e para os preços dos metais. Desde o ano passado, o próprio governo chinês defendia a necessidade de um pouso suave da economia chinesa. Não ocorreu. A China continua com todo o gás, elevando as cotações de minérios para níveis insustentáveis, mas que proporcionam uma sobrevida ao superávit comercial brasileiro.
É impossível à China escapar de crises de ajustamento, tão mais graves quanto mais tempo levar para o governo conseguir disciplinar o crescimento. Não tem essa história de novo patamar de produção, porque os insumos são finitos e há limites para a alta dos preços.
Os próprios dados de crescimento do Produto Interno Bruto chinês, de 2004 e as previsões para 2005. Cada mês que passa sem a economia chinesa ceder não deve ser interpretado como prova da mudança de patamar, mas como sinal de que a inversão será muito mais aguda.
Qualquer gestor responsável trabalha, sempre, com hipóteses pessimistas. Aqui, o Banco Central continua na hipótese Poliana. Se nada acontecer... nada acontecerá.

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