Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 09, 2005

O DIA Online Barganha na veia Dora Kramer

Invocando a condição de “partido do presidente da Câmara dos Deputados, o qual o presidente da República gostará de ver aliado ao governo”, o PP reclama direito à ocupação de ministérios de “porteira fechada” – ao molde das fazendas vendidas com o gado dentro.

A exigência é explícita por estruturas ministeriais postas inteiramente, de cima a baixo, à disposição da sanha de um partido, cujo mérito inequívoco aqui é o de ter inaugurado uma nova modalidade de fisiologismo de aplicação direta. Na veia.

Para usar a linguagem do PP, o partido acha-se no direito porque tem entre seus filiados o presidente da Câmara, de tratar a administração pública como terreno de porteira escancarada. Dá-se ao desfrute de escolher até a pasta, desdenhando, por exemplo, das Comunicações.

O PP quer “coisa mais recheada” – no dizer do presidente do partido, deputado Pedro Corrêa –; deve receber “não apenas cargos, mas também poder” – no entender do líder na Câmara, José Janene.

Segundo ele, é hora de o partido aproveitar a boa maré para dar a seus correligionários a oportunidade de “contrabalancear” com a disponibilidade das benesses do poder, o desgaste de ser Governo.

Foi o líder quem disse, com todos os efes e erres na televisão ontem às sete da manhã que, do ponto de vista popular, só vale a pena apoiar o governo Lula se houver “contrabalanceamento”. Escambo, troca, permuta, barganha, ou dê-se ao pretendido produto da chantagem o nome que se quiser dar.

Fato incontestável é que, nem nos piores (ou melhores) sonhos do mais venal dos fisiológicos, jamais anteriormente imaginaram-se cenas semelhantes às protagonizadas pelos próceres pepistas – que, de tão indecorosos, dão ao PMDB certo ar de colégio para moças de fino trato.

Para se ver o efeito e a força de um contraste.

Está nas mãos do presidente da República aceitar ou não conversar nos termos e no tempo propostos pelo PP.

O partido exibe pressa. Reclamava da demora outro dia o seu presidente, explicando-se sabe-se lá se com excesso de argúcia, estultice ou deboche, que “o problema da reforma ministerial é a demora”. Ponderava em seguida: “Se tivessem nomeado o deputado Pedro Henry ministro dos Esportes, o Severino sequer teria saído candidato”.

Ou seja, estamos diante de um plantel de réus confessos em série: o presidente da República confessa que mandou abafar corrupção, o presidente da Câmara confessa que usou prerrogativas parlamentares para ocultar da lei dois infratores e o presidente do PP confessa que a candidatura de Severino Cavalcanti esteve à venda.

O presidente Lula agora escolhe: pode fazer como quer o PP ou fazer como o interesse público indica que deve ser feito. Trata-se de um exercício de livre arbítrio.

Os finórios saíram à luz mas, se é que é possível aplicar o termo ao tema, justiça se lhes faça, não agem em desacordo com o ambiente. Afinal, ao recorrer sistematicamente ao estratagema da reforma ministerial para resolver seus problemas de natureza política, o governo dá o tom da conversa.

A cada vez que se ensaia uma rebeldia na chamada base, acena-se com a reforma ministerial, estabelecendo-se assim uma relação direta de causa e efeito pela qual toda concordância tem seu preço.

Fica até injusto o PP levar sozinho a má-fama quando foi o governo quem inaugurou a prática da reforma anual e desde novembro vem dizendo que os ministros e os espaços dos partidos seriam redefinidos e redistribuídos logo depois da eleição das presidências da Câmara e do Senado.

Supôs assim assegurar ao candidato Luiz Eduardo Greenhalgh os votos pela via da expectativa do loteamento e do pânico da exclusão. Não impôs medo a ninguém, errou feio, mostrando pouco traquejo – não obstante muita disposição – nas artes de manhas do malfeito.

Convenhamos, nessa escola onde o PT apresenta-se como aprendiz, o PP – e não só o PP – é professor.

Além do ônus da derrota, o governo ficou também com a despesa final, nela incluídas não apenas as pastas a serem entregues mas também o desgaste pelos termos da negociação e pela autoria da idéia de franquear a administração pública à partilha dos partidos.

Ou seja, o governo perde, salda a conta e, do ponto de vista da lisura de procedimentos, ainda paga o pato.

Considerando que entre os personagens do espetáculo o PT é o único que tem a perder no quesito nome a zelar, francamente não deu ainda para perceber qual é mesmo a vantagem que o presidente Lula leva no negócio em questão.

Veto global

A senadora Roseana Sarney já esteve nos últimos dias quase ministra das Comunicações. Entre outras, apresentou-se como impossibilidade a restrição imposta pela TV Globo, cuja afiliada maranhense pertence à família Sarney.

Na visão da emissora, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Já foram a mesma coisa, é verdade, mas eram tempos de autoritarismo.

Ouro de tolo

O presidente do PP aproveitou o ensejo da visita de Severino Cavalcanti à sua terra natal e lançou o presidente da Câmara à Presidência da República em 2006.

Chega a dar preguiça.

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