Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, março 07, 2005

no mínimo | Augusto Nunes Não existe desemprego no PT

07.03.2005 | Acampado na assessoria de imprensa da prefeitura de São Paulo até a derrota de Marta Suplicy, o jornalista José Roberto Pereira de Mello decerto lamentou o resultado da eleição: petista militante, sabia que perderia o cargo. Mas pôde dispensar-se da angústia decorrente de incertezas financeiras: petista militante, sabia que não ficaria ao relento. Os mandarins do partido não abandonam à beira da estrada companheiros com serviços prestados à seita (e obedientes a seus pastores). A sigla nascida há 25 anos se transformou em agência de empregos. A maior do país.

O assessor de Marta só precisou mudar de cidade. Em vez do barulho do centrão de São Paulo, ele agora saboreia o silêncio das vastidões de Brasília. Baseado na Casa Civil da Presidência, engrossa o assessoria do ministro José Dirceu. Cumpre-lhe ajudar a mostrar que, apesar das cassandras de sempre, tudo vai bem na geléia geral. Como disse Lula no Uruguai, o espetáculo do crescimento, que estreou faz pouco tempo, tem sido muito aplaudido pela platéia do Grande Teatro Brasil. Mas Lula recomendou prudência: “Não é hora de farra na economia”, advertiu.

É um aviso para os outros, já que em casa a farra está liberada. Pereira de Mello é um dos 834 petistas beneficiários do plano de emergência montado para socorrer flagelados das urnas de outubro. O partido foi derrotado em cidades importantes, como São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. De que modo preservar os salários de companheiros ameaçados pela iminente troca de guarda? Mais uma missão para a parceria público-privada surgida no primeiro minuto da Era Lula. Formada pelo governo federal e pelo PT, tem por objetivo a execução do projeto “Desemprego Zero para a Companheirada”.

Os parceiros vêm exibindo bastante eficácia, rapidez e inventividade. A abertura das 834 vagas permitiu subtrair ao relento, e nomeá-los sem concurso, tanto candidatos a prefeito repudiados nas urnas como, no caso dos que buscavam reeleger-se, alguns cachos de auxiliares. Com a canetada, a Presidência da República elevou de 2.497 para 3.331 o exército de funcionários, somados os efetivos e os comissionados.

Tais exemplos de desperdício criminoso ajudam a explicar a voracidade fiscal do governo, muito criativo em matéria de tributos, taxas e impostos. Só mesmo enfiando a mão nos bolsos do povo para compensar tanta gastança, e gastança inútil. Como os velhos punguistas, os perdulários do Planalto procuram agir furtivamente. Deram agora de recorrer a Medidas Provisórias recheadas de espertezas que facilitam a vida dos responsáveis pela política de pleno emprego para os amigos.

A MP 233, por exemplo, cria uma certa Superintendência Nacional de Previdência Complementar, a Previc. Se aprovada pelo Congresso, serão incorporados ao mamute federal 544 novos funcionários, que se espalharão por ministérios nos quais já falta mesa para tanto servidor. São 100 analistas administrativos, 80 técnicos administrativos, 120 especialistas em previdência, 194 premiados com cargos em comissão e, fecho de ouro da coleção de cabides, 50 procuradores federais.

Sob a estreita vigilância da Lei de Responsabilidade Fiscal, oportuníssima medida moralizadora adotada na Era FH, governadores, prefeitos e vereadores de todo o país tratam de poupar centavos para evitar desperdícios enfim expostos a punições. É da dispensa de gente sobrando que tem saído o dinheiro para a execução de obras físicas e programas sociais.

Enquanto isso, a administração federal não pára de acumular gorduras, ampliando uma obesidade já obscena. Permanecem desconhecidos os critérios usados na nomeação dos novos assessores. Sabe-se apenas que o trabalho é coordenado pelo onipresente José Dirceu.

Esse tipo de tarefa não é o forte do ministro: foi ele quem escolheu Waldomiro Diniz para servir-lhe de braço direito.


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