"La femme n’existe pas”. (J.Lacan). Eu nunca conheci a Mulher. Eu já amei e odiei “mulheres”. Então, por que esse título genérico? Por que não há o Dia do Homem? Os homens são mais classificáveis do que as mulheres. Não haverá nessa generalização um desejo de fazê-las compreensíveis, por medo de sua diversidade? Não existe a Mulher. Existem a mulher de burka, a strip-teaser, a mulher sem clitóris, a prostituta, existem a freira, a mãe de família, existem a perua, a piranha, a modelo, a bondosa, a malvada (tão cantada em verso e prosa), existem Eva e Virgem Maria, existem a pobre, a rica, a feia, a bela, a histérica, a obsessiva. A “Mulher” talvez tenha sido invenção dos machos.
Sempre que chega esse Dia Internacional, nós machistas escrevemos sobres elas, elogiando o lado “abstrato” das fêmeas, sua delicadeza, sua capacidade de perdão ( sic), sua coragem, sua beleza, em suma, textos de uma hipocrisia paternalista , como se falássemos de pobres ou de crianças ou de vítimas de alguma coisa. Claro que na história da Humanidade, as mulheres foram oprimidas, humilhadas, estupradas na alma e corpo. Tudo bem, mas, no meu caso, eu sempre fui vítima das mulheres; melhor dizendo, de certa forma, eu sou hoje o que as mulheres fizeram comigo ou, melhor ainda, eu sou (talvez os homens todos o sejam) o que eu aprendi com elas, no amor ou no sofrimento. Na paixão ou no ódio, minha personalidade aflorou, a cada mulher eu descobri defeitos e qualidades que me formam hoje, como acidentes que foram me desfigurando. Eram como quebra-cabeças: ao tentar armá-los, eu aprendia novos labirintos, descobria que também não tenho forma nem lógica e que sempre faltará uma peça na charada.
Claro que é um preconceito também essa mania de dizermos que as mulheres são “incompreensíveis” (mesmo Freud). Mas essa confusão na cabeça das mulheres não é maluquice ou psicose; nessa confusa cabeça há uma verdade indeterminada mais profunda do que as ilusões de certezas masculinas.
Há uma galeria em minha vida. Minha mãe, claro, a “primeirona”, me decepcionou numa noite remota quando ouvi gemidos de amor no quarto ao lado, ela e meu temível pai de bigode. De manhã, minha mãe não era mais a mesma, era alguém que me traíra, ela que sempre fora o espaço perfeito onde eu tinha vivido. Nunca mais se fechou a ferida. Nessa noite remota, desenharam-se o medo e o desejo por todas que conheci depois.
As mulheres são sempre várias. Isso não as faz “mobiles”, nem traidoras; nós é que nos achamos “unos”. A mulher não é um enigma. Nós é que somos, nós é que achamos que há clareza. Os homens são mais óbvios, fálicos. Homem é ciência. Mulher é arte. Homem tem um “fim”. Mulher abre-se num horizonte com muitos sentidos e está sempre equivocando o homem.
O maior mistério do mundo é a diferença entre sexos. Talvez o único mistério. Por mais que queiramos, nunca chegaremos lá. Lá onde? Lá onde mora o outro, a diferença.
Há alguns exploradores: os veados, sapatões, travestis, escafandros que mergulham nesse mar e voltam de mãos vazias. Nunca saberemos quem é aquele ser com útero, seios, vagina, clitóris, aquele ser ali maternal, bom, terrível quando contrariado no ponto G de sua alma; e elas também nunca saberão o que é um pênis pendurado, um bigodão, um jogo do Flamengo, um puteiro visitado, nunca saberão do desamparo do macho em sua frágil onipotência ou grossura. Elas jamais saberão como somos.
O amor é a tentativa de pular esse abismo. O amor é a patética falta de recursos de seres querendo ser absolutos, quando não passam de bichos relativos.
De certa forma, a trepada é a tentativa de um encaixe que não acontece nunca, mesmo quando dá certo. Mas isso são frescuras filosóficas...
O que aprendi com elas? Minha mãe me fez sofrer quando percebi que não era o único. Outras mulheres me fascinaram pela impossibilidade de atingi-las, as “carmens” pareciam minha mãe perdida e fiquei atraído pelo charme infinito das histéricas. Lembrando-me de quem amei, vejo que elas queriam ser “descobertas” para elas se conhecerem. Queriam ser decifradas por mim, pelos homens, por nossas mãos e bocas. Uma grande submissão a elas só as tornava mais desoladas, raivosas. Muitas vezes, cometi esse erro e dancei. Só perdi mulheres por “bondade” e “compreensão”.
E havia as prostitutas. O que buscamos nelas? A submissão, o espantoso abandono do desejo. Os homens pagam para que elas não existam. Pagamos a prostituta para que nos dê uma trégua, nos aceitando em nossa covardia. Mas ela nos despreza. A prostituta só ama o cafetão que lhe esbofeteia e lhe dá o alívio de se sentir um óbvio objeto, a sensação de uma inteireza, de ser decifrada pelo cafajeste.
Por isso me espanto quando chega o Dia Internacional da Mulher. Existe alguma coisa que as unifique em uma identidade geral? Talvez se igualem por uma incompreensão de nossa parte, talvez tenham em comum um certo descaso pelo progresso, pela política, elas sempre ocupadas em manter viva a natureza e a espécie. No entanto, elas estão muito mais próximas que nós da realidade múltipla do mundo, aberto, sem futuro ou significado. O Dia Internacional deveria estimular uma ação política das mulheres, não apenas para defender seus direitos, mas para condenar a civilização de machos boçais que destroem nosso destino.
Entrevista:O Estado inteligente
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