Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 13, 2005

JB AUGUSTO NUNES O ministro que se perdeu na selva


Dispostas a reeleger o governador Jarbas Vasconcelos, multidões de eleitores pernambucanos impuseram nas urnas uma pesada derrota ao candidato petista Humberto Costa. Disposto a demonstrar que ''altos companheiros'' merecem nesses momentos o emprego que consola, um punhado de grandes eleitores, chefiados por Lula da Silva, decidiu que quem não fora considerado pronto para governar Pernambuco seria um bom ministro da Saúde para todos os brasileiros. Deu no que deu.

Em dois anos, seguido de perto por outras flores da inépcia, Costa se manteve no topo da lista dos piores do novo governo. Voz abaritonada no limite da estridência, olhar de maior abandonado, provocou escoriações generalizadas num ministério em bom estado. As agressões à sensatez incluem nomeações de amigos desonestos, desvios de verbas, crises em hospitais de ponta ou centros de pesquisa, além de falhas assassinas nos planos de combate à Aids e assistência a portadores de doenças crônicas.

Colecionador de desastres em cenários urbanos, Costa acaba de se perder na selva. Os país nem sabia que cumpre ao ministério prestar assistência às tribos. Só agora descobriu, por exemplo, que a distribuição de medicamentos cabe à Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

Em meio a ondas de indignação provocadas pela morte em série de crianças indígenas, vítimas da desnutrição associada à incompetência dos governos, emergiram informações perturbadoras. Apoiado em números oficiais, o líder do PFL no Senado, José Agripino, revelou que a Funasa gasta mais em viagens que em medicamentos para as tribos. Com o emprego ameaçado pela iminente reforma ministerial, Costa perdeu o juízo. E soltou a frase estarrecedora.

''As mortes das crianças indígenas estão dentro do número normal'', declamou. Tecnicamente, não está mentindo. O índice de mortalidade infantil entre indígenas atinge quase o dobro da média nacional. Apesar das estatísticas que indicam quedas nessa taxa brutal, no Brasil ainda se morre muito e muito cedo. Mas os indígenas morrem mais. Costa esqueceu que nenhum ser humano é um número. Nas aldeias, não ocorrem desaparecimentos de algarismos. Estão sucumbindo à fome bebês e meninos. Essa gente perdeu a terra. Perdeu a identidade cultural. Perdeu o horizonte. Agora está perdendo a vida.

Se refletisse sobre tais obviedades, o ministro trataria de juntar-se ao esforço para extirpar o vergonhoso tumor que atormenta matas amputadas. Mas Costa considera suficiente manter os números nos patamares atuais. Num país desprovido de qualquer vestígio de política indigenista, com tribos demais para tão pouca terra, seria injusto levar sozinho ao cadafalso o homem da saúde. A culpa é dos governos. A culpa é nossa.

Mas a frase não pode ficar impune. Há tempos, Millôr Fernandes inventou o Ministério das Perguntas Cretinas. Como não costuma abandonar companheiros, Lula poderia criar o Ministério das Respostas Idiotas e nomear Humberto Costa para chefiá-lo. O governo teria a figura certa no lugar certo. E abriria uma vaga muito cobiçada. O favorito do momento é Ciro Gomes, atual ministro da Integração Nacional. Tabagista compulsivo, Ciro avisou que deixará de fumar ''facinho, facinho'' caso seja mesmo o escolhido. A sede de poder costuma ser mais convincente que conselhos médicos e advertências reiteradas pelo próprio Ministério da Saúde.

Governo financia curso para invasores

Reunida na França, a cúpula da Quarta Internacional, organização trotskista com sede em Paris e ramificações no exterior que incluem a “Democracia Socialista” ala do PT à qual se filia o ministro Miguel Rossetto –, decidiu que o companheiro “tem permanecido muito discreto diante do atraso da reforma agrária no Brasil”.

Comunista que não ousa dizer seunome, Rossetto tratou de recuar azaga: “Meu negócio é Pará, é Rondônia, não Paris”, desconversou. O diagnóstico é injusto com Rossetto. Pressionado também por chefões do MST, ele tem feito o que pode em favor da causa socialista. Nenhum governo doou tanto dinheiro ao MST. Segundo a revista Veja , Lula já afagou o movimento com verbas que, divididas em três parcelas, já somam R$ 29,5milhões. A terceira fatia saiu do Ministério da Educação, que destinou R$ 300 mil à expansão da Escola Nacional Florestan Fernandes – “a universidade do MST”, segundo os donos da idéia. “Demos o dinheiro para que o MST consiga alfabetizar jovens e adultos”, argumenta um alto companheiro no Ministério da Educação. É corrigido por um alto companheiro do movimento: “Alfabetizar é bom, mas o objetivo da escola é formar quadros para ocupar terras”. O currículo, os professores, o conteúdo das aulas – tudo conspira para comprovar que o governo viaja na gastança para abastecer viveiros de extremistas. A gentileza será retribuída com mais um “abril vermelho”.

Serra chega tarde à briga que ignorou

A renegociação das pendências financeiras entre os Estados e a União foi conduzida, do lado federal, pelo presidente Fernando Henrique e seu ministro da Fazenda, Pedro Malan. O governador de São Paulo, Mário Covas, chiou o quanto pôde, brigou feio com FH. Consumado o acerto, que envolvia também prefeituras, Covas foi à luta. Sem descumprir os prazos combinados em Brasília, conseguiu recuperar o Estado arruinado pela dupla Quércia e Fleury.

Absorvido pelo trabalho no Ministério da Saúde, José Serra não fez nenhum comentário sobre as novas regras. Prefeito, quer agora mudar o que manteria se fosse ele o presidente.

INSS acha que povo gosta de fila

Enfim a luz se fez. ''O que existe é a cultura da fila: ele não precisava ter passado a noite ali'', explicou uma assessora do INSS no Rio. ''Ele'' é o pedreiro Severino dos Santos, 65 anos, morto na segunda-feira depois de 12 horas hasteado na fila diante da agência de Padre Miguel, no Rio. No guichê, soube que faltavam documentos. Custavam 60 centavos, que não conseguiria. Morreu de enfarte. Ou, no laudo do INSS, de ''cultura da fila''.

A tese é curiosa. Se há guichês disponíveis, os aposentados vão embora. Voltam só quando há multidões enfileiradas. Devem achar divertido esperar horas a fio numa fila que cujas atrações incluem a repentina chegada da morte.

Ao ouvir o presidente qualificar de ''alto companheiro'' o autor de denúncias sobre supostos casos de corrupção no governo FH, o Cabôco deduziu que a turma no poder é dividida em categorias. Se existem ''altos companheiros'', certamente há os ''baixos'' (e, talvez, os ''médios''). Pergunta: quem é o quê? Que critérios são aplicados para a distribuição do pessoal? Vale o peso do cargo ou a centimetragem física? São dúvidas que justificam a criação de outro grupo de trabalho interministerial. Temos 200 em ação. Por que não 201?

Da cela para o alto do pódio

O prontuário de Hildebrando Paschoal é capaz de impressionar um Fernandinho Beira-Mar. Já era bandido quando fardado de oficial da PM do Acre. Eleito deputado federal, montou uma quadrilha que usou até motosserras para assassinar desafetos. No momento em Brasília para ser julgado, conquistou a taça com a declaração no tribunal:

“Se todos os políticos fossem iguais a mim, o Brasil estaria muito melhor”.

Depende da turma de parlamentares escolhidos por Hildebrando para esperar a passagem da motosserra.

PT vira agência de empregos

Revigorado pela volta às funções de chefe de campanha, agora para reeleger o presidente Lula da Silva em 2006, o ministro José Dirceu aproveitou uma reunião dos ''altos companheiros'' para mostrar que o longo inverno não lhe amainou a arrogância. Irritado com quem acha que o governo gasta demais em contratações desnecessárias, comunicou que apenas está em curso a ''modernização do Estado brasileiro''.

Conversa fiada. Dirceu acha que o Brasil é um país de idiotas, desinformados e desmemoriados. Uma terra de gente que ignora a parceria público-partidária que cuida do Projeto Desemprego Zero para a Companheirada. Foi a primeira PPP da Era Lula, juntando o governo e o PT.

A parceria fez do partido de Lula a mais eficaz agência de empregos do país (talvez a maior do mundo). Alguém aí conhece algum militante petista procurando trabalho? O Projeto Emprego é um fracasso nacional, a taxa de desemprego é perturbadora. Mas o PT não abandona companheiros no desvio, como reafirma o pronto atendimento aos flagelados das urnas de outubro.

Decidido a poupar de aflições financeiras os candidatos derrotados a prefeito, sobretudo os que haviam tentado a reeleição e carregavam nos ombros cachos de assessores sem serviço. O comando do Desemprego Zero forjou um plano de emergência que resultou na criação de 834 cargos em comissão, preenchidos sem concurso. Com golpes de caneta desferidos nos últimos meses, a Presidência da República conseguiu elevar de 2.497 para 3.331 o exército de funcionários. A farra corre solta nas barbas de Lula. E vai crescer, graças a matreirices infiltradas nas medidas provisórias que não param de pousar no Congresso.

A MP 233 cria uma certa Superintendência Nacional de Previdência Complementar, a Previc. Se aprovada, serão contratados 544 novos funcionários: 100 analistas, 80 técnicos, 120 especialistas em previdência, 194 premiados com cargos em comissão e, fecho de ouro da coleção de cabides, 50 procuradores federais. Esses desperdícios ultrajantes ajudam a explicar a voracidade fiscal do governo.

Só mesmo enfiando as mãos nos bolsos do povo os punguistas federais poderão financiar tamanha gastança. Cortes no orçamento afetam setores essenciais, ameaçados de morte por inanição. Enquanto isso, o governo segue empregando companheiros. Nós pagamos.

Pagamos e, assim, ajudamos a financiar as atividades do PT, cujos filiados entregam ao partido parte do salário.

''Posso explicar cada uma das contratações'', gabou-se José Dirceu, que vem chefiando o trabalho de recrutamento. Pode nada. Embora tenha prometido há um ano colocar os pingos nos is, ele ainda deve ao país explicações sobre a escolha do gatuno Waldomiro Diniz como seu braço direito.

augusto@jb.com.br

[13/MAR/2005]

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