Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 13, 2005

Celso Ming: Agressividade cambial

Em apenas três meses (dezembro, janeiro e fevereiro), Banco Central e Tesouro Nacional compraram cerca de US$ 12 bilhões no câmbio interno. Só em fevereiro, devem ter somado US$ 5 bilhões.
Tiveram dois objetivos. O declarado é recompor reservas. O não reconhecido é impedir o deslizamento da cotação da moeda estrangeira e, em seguida, garantir certa recuperação das cotações.
Os resultados dessa atuação foram a ampliação de US$ 15 bilhões (em setembro) para US$ 35 bilhões (quarta-feira) das reservas líquidas, conceito em que ficam excluídos os US$ 26 bilhões de empréstimos do Fundo Monetário Internacional, que têm de ser devolvidos, e uma substancial recuperação da cotação do dólar no câmbio interno. Estava a R$ 2,5630 no fechamento do dia 17 de fevereiro e ontem fechou a R$ 2,7140, alta acumulada de 5 9% em 15 dias úteis.
A atuação do Banco Central e do Tesouro para impedir o tombo do dólar ou ajudar uma recuperação das cotações não se limitou à compra de moeda. O Tesouro tratou também de substituir por títulos com remuneração a juros em reais a dívida pública antes atrelada ao dólar.
Ontem, a principal matéria do jornal Valor observou que, ao ritmo em que estão acontecendo as trocas (swaps) de títulos cambiais por títulos em reais, em abril já não haverá dívida pública interna amarrada à correção cambial.
Essa política tem seus custos. Um deles é o despejo de reais na economia. Essas compras exigiram pagamentos de R$ 30 bilhões, um despejo de reais que tromba com a política monetária (alta dos juros) que trata de fazer o contrário. O outro é o aumento das despesas com o serviço da dívida, não só porque os juros estão mais altos, mas, também, porque o Banco Central tem de desovar títulos que cobram mais juros do que podem render dólares empilhados nas reservas externas.
Até onde o Banco Central seguirá nessa política de recomposição de reservas de moeda estrangeira? Há alguns anos, o critério para o volume desejado de reservas era o equivalente a três meses de importação, o que daria hoje US$ 15 bilhões, volume que o Brasil detém há anos. No entanto, numa situação em que o fluxo financeiro é mais importante do que o comercial, seria preciso considerar as obrigações financeiras imediatas. Por esse lado, o Brasil também está coberto, pois o Tesouro vem tratando de abastecer-se de dólares para enfrentar o cronograma de amortizações e remessa de juros da dívida externa. Além disso, num regime de câmbio flutuante, em princípio não é preciso manter tantas reservas, pois o ajuste pode ser feito pelo preço (cotação da moeda estrangeira) e não pelo volume.
Isso não esgota o assunto. O País tem outros objetivos, como o de assegurar rapidamente o grau de investimento (investment grade) para sua dívida pública, situação que abrirá as carteiras dos fundos de pensão dos Estados Unidos para títulos emitidos pelo Brasil. Nesse caso, é recomendável um volume bem mais alto de reservas, certamente da ordem de US$ 65 bilhões, como as do México, cuja dívida tem hoje grau de investimento.
Como há uma boa probabilidade do governo Lula não renovar o acordo com o Fundo Monetário Internacional, pode ser que o objetivo do Banco Central na formação de reservas seja completar uma compra de US$ 26 bilhões a US$ 30 bilhões. Com esse acréscimo, pode mostrar que não precisa mais do dinheiro do Fundo.
Se for mesmo para seguir fazendo reservas, o momento é agora. Até o fim do ano, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) terá completado o ajuste de juros, os investidores internacionais tendem a voltar a se interessar pelo dólar e poderá não ser tão barato comprá-lo. Se esse raciocínio estiver correto, o Banco Central comprará dólares a esse ritmo pelo menos até final de maio.

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