Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 08, 2005

Folha de S.Paulo - LUÍS NASSIF Incluídos e excluídos- 08/03/2005

Como não poderia deixar de ser -pela polêmica que cerca o tema-, a coluna "Racismo negro", sobre a política de cotas para negros nas universidades públicas, rendeu dezenas de e-mails, contra e a favor. A íntegra dos e-mails está no endereço www.projetobr.com.br.
O ponto central de discussão é se as cotas deveriam se destinar especificamente a negros, ou aos pobres em geral. Os defensores das cotas para negros brandem estatísticas para defender o viés racial: a maioria dos excluídos é negra, logo a cota deveria privilegiá-los.
A pedido do jornalista Ali Kamel, da TV Globo, o estatístico Elmo Iório analisou a Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra Domilicar) de 2003 do IBGE, comparando grupos semelhantes de brancos e negros -residentes em áreas urbanas, com um filho e rendimento familiar total de até dois salários mínimos. Pela pesquisa, não houve diferenças estatisticamente relevantes em relação a nível de alfabetização, média de anos de estudo, percentual que cursou curso médio e ensino superior. Os pobres são iguais na excludência.
Logo, há um sofisma no uso das estatísticas. Vai-se descontar no não-negro da baixa renda -que eles não freqüentam- a discriminação que existe no ambiente branco de alta renda -onde eles competem-, como se houvesse a classe dos brancos e a dos negros, e não a dos ricos e a dos pobres.
Aí se entra em outra questão relevante, que é a natureza social do chamado movimento negro. Por serem negros, são necessariamente excluídos? Pelo contrário. Seus líderes são "incluídos" social, intelectual, digital e politicamente, são pessoas que chegaram até a universidade (muitos são docentes), comunicam-se por meio de grupos de discussão do Yahoo, copiam hábitos de outros países -como essa denominação de "afrodescendentes".
Fica-se na dúvida se sua luta por cotas visa os negros excluídos das classes de menor renda, visa ampliar o seu próprio espaço de competição, ou se apenas confirma a maldição de Paulo Freire, de o excluído repetir os hábitos do opressor.
Tomando por base alguns e-mails que recebi (que não devem ser generalizados), há claro preconceito social de parte desses militantes, comprovado no desprezo como encaram o "boteco" -o mais democrático dos ambientes sociais brasileiros.
Para parte deles, a "pureza" racial, a invocação das raízes africanas é uma maneira de apagar da história o período da escravidão e da senzala. Como me escreveu um dos adeptos do movimento negro, a miscigenação equivaleu a um "estupro". Ou seja, mulatos, mamelucos, cafuzos são filhos do estupro.
Obviamente não são todos os líderes do movimento negro que pensam assim. Há manifestações de muito bom nível, que divulgarei oportunamente. O relevante é entender que senzala e a escravidão são uma mancha na história do país, mas que não podem ser ignoradas -nem por brancos, nem por negros. São elementos constitutivos da nacionalidade, tanto pelo seu lado sórdido como pelo seu lado na formação da mistura racial brasileira. Queiram ou não os "afrodescendentes", seus pais e avós foram brasileiros, e acho que se orgulhavam disso.

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