Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 08, 2005

Folha de S.Paulo - Janio de Freitas: De conversa em conversa - 08/03/2005

O ministro José Dirceu traz do seu "tour" por Washington uma notícia interessante: as relações entre Brasil e Estados Unidos estão excelentes. A rigor, poderia ser mais interessante, se houvesse alguém com a suposição de que as relações iam mal. Nem por isso deixou de ser boa notícia.
O que não alcança a dupla excelência das relações e da síntese são as descrições do ministro para os temas de suas conversas com o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Steven Hadley, e com a secretária de Estado, Condoleezza Rice. Dirceu explicou-lhes, e "obteve compreensão" dos ouvintes, que a integração latino-americana, a que Lula costuma referir-se, é só econômica e não é anti-americana. E que é da conveniência dos Estados Unidos, dada sua presença empresarial por aqui, participar da integração. Inclusive em razão da Alca, a aliança de livre comércio desejada pelos Estados Unidos, antes indesejada e ultimamente aceita pelo governo Lula, sem que o plano tivesse alterações fundamentais entre uma posição e outra. Não faltou nas conversas, nem poderia, a menção a Cuba, mas secundária até pela inconseqüência.
A descrição é boa para jornalistas modernos. Para macaco velho, não dá. As explicações citadas por José Dirceu, além de óbvias, já eram assunto público. Quando muito, poderiam merecer algumas frases em Brasília, entre um diplomata de cá e outro de lá. Se o teor das explicações citado por Dirceu não é crível, os temas poderiam ser verdadeiros. Mas, nesse caso, não haveria sentido em que Dirceu deles tratasse, havendo, para tanto, o assistente e mensageiro de Lula nos assuntos externos -o habilitado Marco Aurélio Garcia-, o bem-sucedido ministro Celso Amorim e sua equipe de competência indiscutível.
José Dirceu foi o autor da estratégia fundamental do governo Lula: prioridade absoluta às boas relações com o poder econômico, reconhecida a importância que aí têm os investidores financeiros norte-americanos e as multinacionais idem, por sua influência permanente na Casa Branca em relação a governos estrangeiros.
José Dirceu foi mais do que o formulador estratégico: foi o interlocutor principal com representantes das partes interessadas, sobre os fundamentos da estratégia.
José Dirceu continua sendo o proponente das linhas estratégicas do governo Lula.
Há todas as razões para admitir algo mais importante, muito mais, do que os temas citados por José Dirceu para suas conversas em tão alto nível do poder nos Estados Unidos. Assim como não é fácil aceitar que sua também recente viagem a Cuba se restringisse às duas motivações públicas -uma feira de livros e sua aparição em pretendido documentário sobre exilados brasileiros em Havana.
Talvez se tenha que esperar por um daqueles freqüentes livros que revelam, pelos próprios protagonistas norte-americanos, tudo o que viram, ouviram e fizeram em segredo. Ou que apareçam, como sempre, documentos reveladores. Em qualquer dos dois casos, porém, conversas, negociações e pactos do governo Lula não aparecerão apenas em relação à atual ida de José Dirceu a Washington. A história vai começar lá na campanha eleitoral.

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