Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 17, 2005

Folha de S.Paulo - ELIANE CANTANHÊDE: Desconstrução - 17/03/2005

BRASÍLIA - O PT rejeita um acordo, faz aliança com dissidentes tucanos e com o "centrão" e, assim, derrota o prefeito José Serra na eleição para a presidência da Câmara de Vereadores de São Paulo.
O PSDB se delicia com as disputas internas do PT, vira as costas para a tradição de dar a presidência da Câmara dos Deputados para o partido majoritário e se alia ao baixo clero para derrotar o presidente Lula.
O PT agora se alia ao PFL e derrota o governador Geraldo Alckmin na eleição para a presidência da Assembléia Legislativa de São Paulo.
Enquanto isso... Marta Suplicy diz que sua gestão na prefeitura está sendo "desconstruída" por Serra e passa a "desconstruir" o governo Alckmin. Uma guerra também de números, mas principalmente de adjetivos.
Em Brasília, Lula conclui a reforma ministerial entronizando o baixo clero do PP e o partido dos Sarney no ministério, ampliando a participação do PMDB e fazendo das tripas coração para conter a sofreguidão do PT. Não se ouviu um pio sobre a competência dos senhores ministros que entram. Talvez apenas sobre a incompetência de alguns que saem.
Talvez esteja nessa barafunda a explicação para a cena do plenário da Câmara na véspera e na madrugada da eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Casa.
No meio da balbúrdia, deputados inexpressivos, desconhecidos, desarticulados no falar e até no gesticular. Um grande baixo clero. Qualquer observador poderia perfeitamente se perguntar: "Cadê os Ulysses, os Tancredo, os Covas, os FHC, os Montoro, os Dirceu, os Genoino, os Brossard?".
Não há. Como lembrou José Sarney na sessão pelos 20 anos de redemocratização, "o poder político é a síntese de todos os poderes". Mas, com a política como está, os jovens talentos nem sabem da vocação. Se sabem, dissimulam. É feio, quase obsceno. Os novos Ulysses seguem carreira de advogados, os Covas, de engenheiros, os FHC ficam nas cátedras.
Nesse cenário, o baixo clero floresce. E, com ele, a desesperança.

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