Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 18, 2005

Folha de S.Paulo - Editoriais: UM "NEOCON" NO BIRD
- 18/03/2005

A recente viagem do presidente George W. Bush à Europa, em que o mandatário norte-americano falou em reconciliação e posou ao lado de líderes que se opuseram à invasão do Iraque, foi principalmente um périplo de "tapinhas nas costas". Duas indicações feitas por Bush nos últimos dias sugerem que os ímpetos unilateralistas da Casa Branca não foram de modo algum contidos.
Na semana passada, o presidente nomeou John Bolton para o posto de embaixador dos EUA nas Nações Unidas. Bolton era subsecretário de Estado e destacava-se entre os "neocons" (neoconservadores) pelas ferrenhas críticas que fazia à ONU.
Anteontem, o presidente indicou Paul Wolfowitz para presidir o Bird (Banco Mundial). Como Bolton, Wolfowitz é um dos mais proeminentes "neocons" do país. Tido como o arquiteto da invasão ao Iraque, ele era o número dois do Pentágono.
O caso de Wolfowitz, contudo, tem repercussões mais amplas. Enquanto o posto de embaixador dos EUA é um cargo de livre escolha da Casa Branca, a presidência do Bird, que é um órgão multilateral, se faz mediante acordo com os europeus (os segundos maiores cotistas da instituição). Tradicionalmente, a Europa escolhe o diretor do FMI e Washington aponta o chefe do Bird. O acordo de cavalheiros, no entanto, foi rompido em 2000, quando os EUA lograram vetar a indicação do germano-brasileiro Caio Koch-Weser para o FMI. Agora, setores da opinião pública européia defendem uma tentativa de veto a Wolfowitz.
É difícil compreender a decisão de Bush. De um lado, ao nomear um colaborador tão próximo, ela revela que Washington atribui importância ao banco -o que é um bom sinal. A principal missão do Bird é reduzir a pobreza mundial. Wolfowitz, porém, é uma figura que, além impopular na Europa, conta com o repúdio de algumas importantes ONGs que atuam em países pobres.
"Verdadeiramente aterradora", foram as palavras utilizadas por Dave Timms, do World Development Movement, uma coalizão de ONGs britânicas, para qualificar a indicação. Editoriais da imprensa européia não trouxeram termos mais abonadores. É claro que ser simpático não é uma qualidade necessária para chefiar o Bird, mas um comando execrado por grupos com os quais terá de trabalhar pode ser contraproducente.
No mais, analistas temem que o entusiasmo de Wolfowitz por soluções ultraliberais, ao lado da insistência de Washington em promover um "downsizing" no banco, possam levar à desmontagem do Bird. Seria um retrocesso. Embora a instituição cometa equívocos e apresente uma série de problemas, é forçoso reconhecer que ela é uma fonte de financiamento importante para países pobres e em desenvolvimento.

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