Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, agosto 26, 2008

Merval Pereira O sonho de Obama

DENVER, Colorado. A emoção está no ar, e há simbolismos para todos os gostos nessa convenção democrata que apontará Barack Obama como o primeiro negro candidato à Presidência dos Estados Unidos, exatamente 40 anos depois que outro negro, Channing Phillips, um delegado partidário de Washington, D.C., tornou-se o primeiro político negro a disputar a indicação de um dos dois grandes partidos, embora em caráter simbólico de protesto. Ele, que era delegado de Robert Kennedy, assassinado poucos meses antes, recebeu o voto de 67 delegados naquela ocasião. A convenção de Chicago, que completa 40 anos, marcou uma reviravolta na maneira de escolher os delegados no Partido Democrata.

O choque de gerações que se refletia nos movimentos de protestos nas ruas do país contra a guerra do Vietnã e a favor dos direitos civis, os assassinatos do líder negro Martin Luther King em abril daquele ano, e de Bob Kennedy em junho, virtualmente escolhido o candidato democrata, davam o pano de fundo de uma convenção que dividia o Partido Democrata.
E os protestos tomaram conta das ruas de Chicago naquele agosto de 1968.
De um lado uma nova geração de eleitores que havia se entusiasmado com a campanha de Bob Kennedy, do outro a velha guarda partidária, que acabou indicando como candidato o vicepresidente Hubert Humphrey, que não disputou as primárias, mas prometia continuidade.
Acabou sendo derrotado pelo candidato republicano Richard Nixon.
O famoso livro de Norman Mailer, “Miami e o cerco de Chicago — A história informal das convenções republicana e democrática de 1968”, que entre outros fatos relata a história de Channing Phillips na convenção de Chicago e os protestos de rua juntando os estudantes e os militantes democratas contra a guerra do Vietnã, está sendo reeditado, no mesmo momento em que, aqui em Denver, várias manifestações estão acontecendo contra uma outra guerra, a do Iraque.
Ao mesmo tempo, a campanha de Obama esforça-se para grudar a imagem dele à dos Kennedy, não apenas para reforçar a idéia de mudança que impulsiona sua candidatura entre os jovens e as minorias, como para contrabalançar o poder político de um outro clã, o dos Clinton, que divide o Partido Democrata desde as primárias.
Para acalmar os eleitores jovens, que se sentiram desguarnecidos com o assassinato de Bob Kennedy e o golpe dos políticos tradicionais, o Partido Democrata mudou, após a convenção de Chicago, o processo de escolha de delegados, a fim de dar voz aos representantes das minorias e tornar a escolha mais aberta.
A escolha e subseqüente derrota de George McGovern na eleição de 1972 convenceu, porém, a direção democrata que deixar em mãos inexperientes a decisão final não era uma boa solução, e foi criada então a figura dos superdelegados, indicados pelas direções partidárias nos Estados.
Na eleição deste ano, os superdelegados foram acionados pela senadora Hillary Clinton, na tentativa de desequilibrar a pequena diferença que Obama tinha a seu favor nas primárias e fazer o resultado mais uma vez pender para o lado dos “caciques” democratas.
Preferida pela cúpula partidária, Hillary, no entanto, não obteve o apoio da maioria dos superdelegados, e muitos acham que eles só não se dispuseram a reverter o resultado das prévias com receio de uma reação violenta dos eleitores entusiasmados por Obama, especialmente os jovens, justamente como aconteceu em Chicago há 40 anos.
No seu livro “Audácia da esperança”, Barack Obama analisa negativamente o ambiente político de Washington, se colocando como um outsider que se apresenta para mudar a maneira de fazer política. Foi com esse discurso que ele conseguiu neutralizar a adversária Hillary Clinton, que passou a encarnar a velha politicagem.
E foi também com essa pretensão que ele fez aquela viagem internacional cujo ponto alto foi seu discurso para uma multidão em Berlim. Tentou, sem conseguir, firmar-se internamente como um líder reconhecido internacionalmente.
Ao escolher para seu companheiro de chapa, como antídoto contra a também senadora Hillary Clinton e as críticas à sua inexperiência com assuntos internacionais, o senador Joe Biden, de 65 anos, que está há 36 no Senado, Barack Obama deu uma demonstração de que realmente é difícil se livrar da pequena política de Washington.
Virtualmente empatado com seu adversário republicano John McCain, em uma disputa que era vista como a mais fácil dos últimos anos devido à impopularidade do governo Bush e à situação econômica, Obama joga tudo nessa convenção para voltar a tocar os corações e mentes dos americanos, ao mesmo tempo em que faz concessões diversas dentro e fora de seu partido.
A festa está obedecendo aos melhores roteiros de Hollywood, e até mesmo um sósia de Obama desfila pelas ruas de Denver, dando autógrafos e entrevistas.
O gran finale será na quintafeira, com um discurso que se prevê histórico de Obama para uma platéia de 75 mil pessoas num estádio da cidade.
O dia foi escolhido a dedo.
Comemoram-se em 28 de agosto os 45 anos do famoso discurso de Martin Luther King que ficou conhecido como “Eu tenho um sonho”, um sonho “profundamente enraizado no sonho americano”, o sonho da igualdade em que as pessoas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo seu caráter. Todo esse processo desaguou na candidatura de Barack Obama, no seu sonho pós-racial, que encontra resistência até mesmo entre a velha liderança do movimento negro.

E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br

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