Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 09, 2008

Cultura Tesouros da Terra Santa

1 600 anos num passeio

Com relíquias arqueológicas trazidas de Jerusalém,
a exposição Tesouros da Terra Santa lança luz sobre 
momentos cruciais do judaísmo e do cristianismo, 
entre o tempo do rei Davi e o século VII d.C.


Isabela Boscov

Em um espaço de 1 000 anos, do surgimento da linhagem do rei judeu Davi ao nascimento de Jesus, uma cidade plantada no inóspito deserto palestino se estabeleceu como o centro mais sagrado de duas religiões que viriam a ditar o curso da civilização – o judaísmo e o cristianismo. Mais uns poucos séculos e também outro grande ramo da fé monoteísta, o islamismo, fincaria raízes ali. Desde seu início, Jerusalém, essa cidade que é o ponto de convergência entre diferentes fés e entre Ocidente e Oriente, foi palco de disputas. Por ali passaram ocupadores assírios, babilônios, romanos. Ali se travariam os combates mais sangrentos das Cruzadas medievais, e ali está, hoje, um dos nós cegos do conflito entre israelenses e árabes. Mas em Jerusalém os protagonistas dessa trajetória experimentariam também (e experimentam ainda) uma convivência singular na riqueza e fertilidade. Um intervalo crucial dessa história é o que a exposiçãoTesouros da Terra Santa, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp) a partir do dia 13, pretende recuperar. Montada com 160 objetos trazidos na maioria do Museu de Israel em Jerusalém, a mostra combina exibição de relíquias arqueológicas e cenografia para recompor um período de cerca de 1 600 anos, do estabelecimento da "Casa de Davi" ao século VII d.C., quando judaísmo e cristianismo conviviam lado a lado na região. "Como tudo o que diz respeito à história humana, religiosa e artística da terra de Israel, a exposição contém uma mensagem para o presente – que, a meu ver, é comovente e esperançosa", diz o arqueólogo do Museu de Israel David Mevorah, um dos curadores do evento.

Muitos dos objetos que estarão expostos no Masp até 2 de novembro (a mostra só viajará para outras cidades caso consiga captar patrocínio para tanto) podem ser incluídos entre os maiores achados feitos na região nas últimas décadas, de valor histórico e também simbólico inqualificável. É o caso da rocha inscrita com o nome de Pôncio Pilatos – única prova física da passagem pela Judéia do governador romano que ordenou a execução de Cristo – ou do ossuário do sumo sacerdote judeu Caifás, que presidiu o julgamento do nazareno. A oportunidade de observar essas relíquias também é, de certa forma, única: quando retornarem ao Museu de Israel, elas não mais deverão deixar sua exposição permanente.

 

AQUI SE REZA
A menorá, símbolo judaico que se firmou paralelamente à cruz cristã: maneiras de "anunciar" a fé a seu público

Concebida conjuntamente pelo Museu de Israel e pela produtora Calina Projetos (que trouxe para o Brasil a exposição dos Pergaminhos do Mar Morto), Tesouros da Terra Santa leva o visitante a percorrer um trajeto cronológico desses 1 600 anos. O ponto de partida é o conjunto de peças dedicado ao período do chamado Primeiro Templo – o Templo de Salomão, destruído no século VI a.C. Relembra-se então o exílio dos judeus, em razão da ocupação babilônia, e depois se volta à Judéia do período do Segundo Templo, arrasado em 70 d.C. – e sobre cujas ruínas foi construído o Domo da Rocha, do qual resta hoje a porção conhecida como Muro das Lamentações. O próximo passo é o conjunto dedicado ao nascimento do cristianismo, ao martírio de Cristo e, finalmente, à coexistência entre as duas fés no período bizantino, por meio da recriação de uma igreja e de uma sinagoga. Essa é uma das montagens mais curiosas da exposição. Nela se podem conferir não apenas as maneiras pelas quais as duas fés se anunciavam para seus respectivos "públicos" (tanto a cruz cristã quanto a menorá judaica ganharam sua força de símbolos nesse momento), como também seus vários elementos comuns, da arquitetura à decoração.

Nesse trajeto, encontram-se várias outras relíquias que ganharam os noticiários, como a lápide do rei judeu Uzias e um ossuário com a inscrição "Jesus, filho de José" – outro Jesus, filho de outro José, numa demonstração de como esses nomes eram populares na Judéia daquele tempo. Mas vêem-se também dezenas de objetos de uso cotidiano. Por exemplo, jarros de pedra como aqueles que Jesus teria tido à disposição para o milagre de transformar água em vinho, ou utensílios que freqüentavam as mesas (quando mesa houvesse) das pessoas comuns da Judéia, provavelmente semelhantes àqueles usados na Santa Ceia. São artefatos que em nada lembram a riqueza com que eram representados nas pinturas renascentistas. Mas que por isso mesmo, na opinião do curador David Mevorah, carregam algo que transcende origem e filiação religiosa: o poder de transportar o visitante de uma história transformada em mito para o tempo e o lugar reais em que ela transcorreu.

 

Fotos Divulgação
RELÍQUIAS DO DIA-A-DIA
Modelo das colunas do Templo de Salomão, motivo comum nas sinagogas, e jarros como os que Jesus teria à disposição para converter água em vinho: histórias trazidas do mito para a realidade

Arquivo do blog