06.03.2005 | O Rio de Janeiro fez 440 anos esta semana. Mas parecia alguns séculos mais jovem há pouco mais de duas décadas, quando o cronista José Carlos Oliveira publicava no Caderno B do “Jornal do Brasil” as colunas que acabam de ressuscitar no livro “O Homem na Varanda do Antonio’s”, organizado pelo jornalista e biógrafo Jason Tércio. “Antonio’s”, para quem não sabe mais ou nem chegou a saber, era um pequeno restaurante do Leblon, com uma varanda que se debruçava na calçada da Avenida Bartolomeu Mitre e um bar cujo expediente se derramava pela madrugada a dentro.
Ele montou ali a sucursal do “JB” na Zona Sul, freqüentada por todo mundo, inclusive uma ratazana que o arquiteto Marcos de Vasconcellos batizou com o nome de Pirassununga. E por muitos anos conseguiu convencer o Brasil – ou pelo menos o Rio de Janeiro, o que naquele tempo era praticamente a mesma coisa – que tudo o que acontecia diante de sua mesa era assunto de interesse nacional e absoluta relevância. Como no domingo em que, estando a casa lotada de atores, jornalistas, advogados e a família inteira do ex-presidente Juscelino Kubitschek – que, aliás, “pediu escargots e depois espaguete à milanesa” – a normalidade foi quebrada pelo “imprevisível”, que se instalara lá fora, obrigando os clientes a largar os pratos e espiar o tal imprevisível pelo vidro da porta.
No Antonio’s, segundo o cronista, podia acontecer de tudo, menos isso. “Afinal de contas, aqui estamos acostumados a conviver com celebridades. Aqui, certa ocasião, Mick Jagger e Marianne Faithfull. Ele com um chapelão tipo Greta Garbo, passaram uma noite fumando maconha e ninguém deu a menor pelota. Os mais sensíveis se limitaram a trocar de mesa, já que o fumacê expelido pelo líder dos Rolling Stones dava para colocar em órbita um elefante. Aqui, também, o poeta Pablo Neruda. Jantando com a mulher e Rubem Braga, teve a honra de escutar um discurso de seu vizinho de mesa, cujo tema era: ‘Não Pode Haver Grande Poeta que Escreva em Castelhano; o Maior Poeta Vivo das Três Américas é J.G. de Araújo Jorge’. Era uma forma irreverente de lhe dizer: Pode comer à vontade. Ninguém aqui lhe pedirá autógrafo, nem exigirá que leia poemas inéditos.”
Mas, dessa vez, estava na varanda o bailarino Rudolf Nureyev, “um homenzinho de estatura perfeita (para não dizer normal), que trazia à cabeça uma boina de lã e em cujo rosto se lia uma tensão monstruosa. Aquele rosto, entretanto desamparado, transmitia uma tal agressividade, vigilância e desamor, que era como se seu portador vivesse a quilômetro de distância de qualquer ser humano”. Nureyev “era um escândalo sentado no Antonio’s, e escandaloso e temerário continuaria a ser, se o temperamento do brasleiro não o trouxesse irresistivelmente para o âmbito do nosso estilo de vida”.
Em outras palavras, Adolpho Bloch, o dono da “Manchete”, “dirigiu-se calmamente ao bailarino, falando russo”, para convidá-lo a visitar o teatro que estava constuindo na nova sede da editora, no Flamengo. E o maître Zelito, “ouvindo Nureyev falar uma língua que não era russo, não era inglês e não era francês”, empilhou à sua mesa pratos vazios e talheres, “para que ele escolhesse os de sua preferência”. Instantaneamente aculturado, o bailarino, “depois de passar meia hora pedindo consommé sem gema”, engoliu sem reclamar seu consommé com gema.
Parece simples. Mas tente achar uma história parecida na próxima edição da revista “Caras”. Aliás, tente encontrar pelo menos um retrato como esse de Nureyev nas fotografias de celebridades que transbordam diariamente de nosso colunismo social. Tendo cada vez menos sociedade para observar e cada vez mais colunistas para seguir todos os passos de seu cotidiano, hoje parece natural os brasileiros passarem duas ou três semanas discutindo o casamento de Ronaldinho no castelo de Chantilly. E isso não acontece só por falta de José Carlos Oliveira ou de Antonio’s, mas também pela abdicação do carioca a morar numa cidade que o turista comum não precise olhar da caçamba de um jipe militar e que se ache obrigada a tratar o visitante ilustre como se ele estivesse descendo da primeira caravela.
Uma cidade como o Rio de Janeiro dos anos 60, 70 não se faz só com providências administrativas e muito menos com governos decentes. Em sua fórmula também entra um certo tipo de cronista que invista na realidade os subsídios da ficção. Sem esse pacto literário, o jornalismo jamais tornaria Ipanema verossímil como “um bairro entre jardins”, onde sopram “sempre bons ventos”, as ruas “são íntimas, calmas, familiares”, “os sorveteiros vendem fiado às crianças, sabendo que suas mães vêm pagar depois”, os meninos “vão para a calçada junto ao mar com seus balões coloridos”, e as “moças estão sempre com ar de quem veio do banho – limpas, frescas, perfumadas”.
Era assim que naquele tempo as coisas funcionavam. Em maio de 1965, José Carlos Oliveira produziu, com lirismo e sarcasmo, uma obra-prima da falta de assunto. Chama-se “Aquarela”. Tratava de ventos que atravessaram a varanda do Castelinho às dez da noite do dia 14. “O vento da terra e o vento do mar. Havia uma lua cheia sobre a pedra, e na varanda os dois ventos se misturavam, produzindo uma brisa morna com laivos gelados. ‘É o vento sul’, disse a moça que conhecia a cidade de Vitória e seus ventos. ´Mas não é apenas o vento sul’, falei eu. ‘Outro vento, que vem do sertão, perfumado de estrume de boi e açucena, agita nesse momento nossos cabelos’. Havia mais dois rapazes na mesa e estabelecemos, os quatro por unanimidade, que o Rio de Janeiro seria o lugar mais visitado e mais festivo do mundo se aquele instante se reproduzisse com regularidade todos os anos”.
Do Antonio´s ele podia falar de tudo, mas não precisava falar dos assuntos que poucos anos depois se tornariam inevitáveis na crônica da cidade. Favela, nesta coleção, roça o texto pela tangente, resumida numa palavra: Rocinha. Menino de rua é pretexto para contar um caso de boemia. E o assalto ao Antonio’s em setembro de 1971 hoje soa como se fosse extraído de uma velha comédia italiana:
“Ouvimos um barulho de briga, a porta se abriu e entrou o Zelito, o maître, com um fio de sangue descendo dos cabelos, atrás da orelha esquerda, e maculando seu paletó branco. Éramos agora sete em um banheiro onde só cabe um. Começou com um barulho de quebra-quebra, seguindo-se, convincentemente implacável, a voz do assaltante:
– Vamos embora! Quem se mexer ou olhar para trás nos próximos 15 minutos vai morrer! Estou avisando! Ninguém se mexa nos próximos 15 minutos – e, abrandando a voz, como se pretendesse tranqüilizar os assaltados:
– Terminou o assalto.
Cinco minutos depois, Fernando apareceu e me ofereceu um uísque – um para mim, outro para ele, pagando no ato. E assim o caixa voltou a ter Cr$ 20,00”.
Para escrever assim, não bastou a José Carlos Oliveira se destruir, alimentando com muito álcool e pouca comida seus 23 anos de crônicas no “Jornal do Brasil”. Ele teve também que se inventar, como mostra o “Diário Selvagem”, também organizado por Jason Tércio. Nele o cronista guardou os segredos de sua carreira rumo à morte precoce, aos 52 anos, sofrendo de pancreatite e diabetes, obcecado com a prisão de ventre, masturbando-se com revista pornográfica por medo da impotência, bebendo chá, fumando maconha e ressentido com os velhos companheiros de copo.
Ele não se enganava. “Posso escrever um romance autobiográfico de 500 páginas começando sempre assim: ontem dormi tarde, e bebi muito”, ele confessou na coluna lá pelas tantas, relevando “o namoro com a morte que é, literalmente, o meu pão de cada dia”. E não enganava o leitor, porque a cidade que ele inventava de uma maneira ou de outra acabava existindo. Semanas depois dessa confissão, faria o convite público para a festa que estava preparando em homenagem ao “Zé”, um ex-garçom do bar Zepellin que era “o homem mais feio do Brasil e também um dos mais encantadores”.
O Zé, naquela altura de 1969, doente e desempregado, andava em petição de miséria. Seus antigos clientes, devendo-lhe “muitos anos de carinho”, resolveram doar-lhe a renda de um espetáculo improvisado na boate Sucata. “Vai todo mundo: Vinícius, Baden, Tom, Bonfá...” E vinha a longa lista dos cariocas típicos, que pouco anos atrás viveram em outro Rio de Janeiro, talvez por serem capazes de pegá-lo no vento.
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