A solução argentina para a dívida é comemorada por muitos como sendo um caso de sucesso. Continuemos a torcer pelo nosso vizinho, cuja recuperação é boa para todos, mas o que aconteceu lá foi um colapso. Nós trilhamos outros caminhos, e eles adorarão quando estiverem na nossa situação: podendo rejeitar um acordo com o FMI e com crédito na praça.
O próprio Nestor Kirchner, no discurso que fez para anunciar o resultado da negociação, deixou claro que não se vê como exemplo:
— Agora que superamos este difícil momento, não aconselhável para país algum, é justo que tratemos de extrair lições da experiência. É necessário refletir sobre as circunstâncias que nos levaram a este extremo de dar o calote na dívida.
Kirchner disse que erraram todos — os argentinos, o mercado financeiro internacional — mas ele acha que, felizmente, o país não perdeu a capacidade de corrigir os erros. Disse que a Argentina tem pela frente uma “batalha internacional para reconstruir a confiança e a credibilidade” e deu a receita que seguiu para chegar neste momento. Uma receita que vale para qualquer país endividado e que mostra que não existe milagre:
— Encaramos um esforço fiscal muito importante, contamos com o maior superávit primário de uma nação e de suas províncias nos últimos 50 anos e pretendemos baixar os níveis da dívida para que sejam compatíveis com nossa economia.
É bem verdade que Kirchner foi à forra. Em seu discurso, fez uma lista dos erros dos economistas; sem qualquer sutileza: deu o nome de cada um deles, com a data em que declararam que o caminho da renegociação era errado.
A Argentina expropriou parte das economias dos investidores — pequenos ou grandes, nacionais ou estrangeiros — mas não teve alternativa. O país entrou em colapso por uma sucessão de erros. Para sair do fundo do poço, teve que deixar de pagar parte da dívida. Exatamente como fez o Brasil para sair do buraco em que entrou nos anos 80. Kirchner tenta fazer do limão uma limonada, salpicando frases cheias de bravatas; mas este é o estilo de Kirchner. A verdade é que ele quer retomar relações rompidas pelo calote e voltar à normalidade.
Hoje, pela agência de classificação de risco Moody’s, a Argentina ocupa o penúltimo degrau. Tem rating Ca, seis níveis abaixo do Brasil. Isso é como ter o nome sujo na praça. Esta classificação é para os bônus antigos, que foram renegociados. Os novos bônus, os bodens, têm classificação melhor. O responsável da Moody’s pela Argentina, Mauro Leos, falando de Nova York, afirmou:
— Não há comparação entre Brasil e Argentina; os índices deles são tão ruins! Até agora, não estamos projetando nenhuma melhora para o rating argentino. Estamos de olho em alguns indicadores para ver se seguirão bem. O de crescimento, por exemplo. Ele deve ser, também este ano, maior que o do Brasil, mas é bom lembrar que a base argentina é muito baixa.
Leos acredita que, racionalmente, os mercados devem evitar investimentos na Argentina, porém, faz uma ressalva: “los mercados son raros”, ou seja, os mercados são estranhos, e cita, como exemplo, o interesse por títulos do Equador que, não faz muito, também teve seu momento de default.
— Agora, estamos com olhos positivos para o Brasil. Sobre a Argentina, estamos avaliando mas, ainda que melhore, seus ratings ainda estão muito ruins — diz Leos.
Na classificação pela Standard & Poor’s, o Brasil está muito acima da Argentina, que, neste caso, também ocupa a penúltima posição. A S&P ainda reluta em fazer um novo upgrade no Brasil, mas o analista para países latino-americanos Joydeep Mukoerji se diz otimista com a nossa situação:
— Estamos confiantes em relação ao Brasil, mas o país demorou um bom tempo para chegar à estabilidade e hoje enfrenta um legado dessa época do default. A Argentina, certamente, terá que enfrentar os mesmos problemas; este comportamento tem sempre um custo enorme, inclusive social. Hoje há muito mais pobreza no país.
Entre 1998 e 2002, a Argentina perdeu 25% do PIB. Agora, felizmente, já está de volta ao valor do PIB que tinha em 98. Este ano, tem boas expectativas de crescimento.
O default e a posterior renegociação trouxeram outro problema: a poupança argentina foi destruída. A maior parte dos credores da dívida argentina é do próprio país. De grandes fundos de pensão a pequenos investidores. O país precisará de poupança para voltar a crescer. As agências de rating vão melhorar a posição argentina, o crédito começará a voltar ao país, mas eles ainda estão muito distantes do Brasil
— Não há chance de igualar por ora os ratings de Brasil e Argentina. Sem dúvida, nós temos hoje muito mais confiança no Brasil — disse Joydeep Mukoerji.
A outra opção é se isolar do mercado financeiro e da economia internacional. Esse foi o caminho que a Argentina trilhou, compulsoriamente, nos últimos dois anos. Se fosse bom, ela continuaria por lá, isolada, e nem aceitaria pagar o que está pagando.
Entrevista:O Estado inteligente
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