Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 11, 2005

Folha de S.Paulo - S�o Paulo - CLÓVIS ROSSI Miséria, traição e crise - 11/03/2005

SÃO PAULO - O motivo conjuntural da presente crise boliviana pode ser a exploração do gás, seu principal recurso natural. Mas a razão estrutural é outra: a miséria secular e a incapacidade do sistema político-partidário de dar uma resposta política ao problema. Resta o pau puro.
Depois da independência, a Bolívia viveu cem anos de feudalismo, até a revolução de 1952, que a transportou para mais perto do século 20. Em seguida, meio século, pouco mais, pouco menos, de populismo entre ditaduras. Por fim, a hegemonia neoliberal que vem até 2003, quando caiu Gonzalo Sánchez de Lozada, seu ícone.
Feitas portanto todas as experiências políticas possíveis, fora o comunismo, ficou o seguinte:
Uma renda per capita de US$ 2.300, a mais baixa da América do Sul; 62,7% da população vivendo abaixo da linha de pobreza; os 20% mais pobres com taxa de mortalidade infantil mais alta que a do Haiti, por exemplo, enquanto os 20% mais ricos têm taxas comparáveis a de países desenvolvidos.
Some-se a esse cenário, já suficiente para explicar qualquer revolta, o fato de que os partidos traíram sucessivamente todas as promessas. O pessoal que fez a revolução de 1952 criou o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), que hoje é da turma de Sánchez de Lozada, o campeão do neoliberalismo.
Os que foram à luta armada, alguns deles pelo menos, para supostamente corrigir os desvios da revolução, criaram o MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária), indistinguível, hoje, de qualquer partido da direita conservadora.
Surgiu então o MAS (Movimento ao Socialismo), cujo líder é o "cocalero" Evo Morales. Mas não conseguiu mais que 22% dos votos na eleição presidencial mais recente.
Alguma surpresa com o fato de que cresça a ação direta, com o bloqueio incessante de ruas e estradas? Ocorreu na Argentina, na esteira da crise recessiva pós-1998. Ocorrerá no Brasil quando cair a ficha de que o PT faz o mesmo que fizeram, na Bolívia, o MNR e o MIR?

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