Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 09, 2005

Folha de S.Paulo -LUÍS NASSIF Mitos e verdades da China - 09/03/2005

Está havendo certa perda de foco na discussão sobe as relações com a China. Existem duas Chinas em jogo, cada qual com dois ângulos para analisar.
A China mais evidente é a produtora de manufaturados. Ela pode ser vista como competidora do Brasil em muitas frentes. Mas essa mesma China virou o chão de fábrica do mundo. Os dez países do Leste Asiático que compõem a Asean (mais Coréia do Sul e Taiwan) têm se inserido no sistema produtivo vertical da Ásia, onde a chave é a especialização da produção. Como diz o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, a China se transformou em uma espécie de "correia de transmissão" de dólares para o Leste Asiático, "transmitindo" o superávit que acumula com Estados Unidos e União Européia para os pequenos países da região. Em 2004, a Coréia do Sul registrou superávit de US$ 30 bilhões com os chineses, ao passo que a Asean tem acumulado superávits crescentes e acima de US$ 10 bilhões desde 2000.
A segunda China é a investidora estratégica. Está montada em um caminhão de dinheiro, buscando parcerias por toda a América Latina e acenando com investimentos em infra-estrutura, exploração agrícola e mineral. Essa China pode ser bem-vinda. Mas não pode assumir o controle da produção de setores estratégicos: por exemplo, comprar enormes extensões de terra no Centro-Oeste, produzir soja, construir ferrovia, transportar a soja e vender com exclusividade para ela própria.
Confira-se, então, que é um xadrez sumamente interessante. Assim como a China comerciante oferece riscos e oportunidades, a China investidora também.
A produção nacional precisa ser defendida da invasão dos manufaturados chineses, mas não a ponto de comprometer acordos de cooperação que permitam a empresas brasileiras se beneficiarem do boom chinês, como parceiros complementares. Isso exige o mapeamento adequado de todos os setores, os que podem ser beneficiados e os que podem ser punidos, foco no objetivo para defender aqueles considerados estratégicos -seja pela absorção de mão-de-obra ou outro critério objetivo-, dada a ampla vantagem comparativa dos chineses em quase todos os fatores importantes para a formação de um custo de produção baixo, e uma melhora paulatina de produtividade, inovação e infra-estrutura.
Mas, como lembra um especialista da matéria, o ponto crítico dessa argumentação é que ela enfatiza os desafios ligados ao Brasil. A China aparece aqui apenas como o mais recente capítulo de uma tragédia estrutural da falta de competitividade da economia brasileira.
Nesse tipo de argumentação, diz ele, perdem-se todas as especificidades do caso chinês e o norte necessário para que governo e empresários tracem linhas estratégicas sobre como lidar com a emergência de uma possível nova potência mundial.
O que merece estar em foco no debate sobre China são as estratégias que os setores irão empregar, com apoio do governo, para negociar o avanço do relacionamento bilateral, com definição clara dos setores a serem protegidos, mas sempre olhando para a frente.

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