Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 13, 2005

Folha de S.Paulo - ELIANE CANTANHÊDE: Hoje, como ontem - 13/03/2005

BRASÍLIA - Lula não está procurando os melhores entre os melhores para fechar a reforma ministerial hoje. Está acomodando interesses de partidos, de aliados, de projetos eleitorais. Não faz o ideal, tenta o possível.
Mais ou menos como, há 20 anos, que se completam na próxima terça-feira, quando José Sarney assumiu o governo que seria de Tancredo Neves e se viu envolto numa imensidão de ambições. Quem era Sarney, o intruso, para resistir aos nomes da ampla aliança da transição?
A diferença é que Sarney não precisou de muito esforço para acalmar iras e recalques da direita, inclusive da área militar, mas sim para seduzir e manter a esquerda a seu lado. E Lula faz exatamente o oposto.
Questão de origem. Sarney sempre atuou à direita. Foi da UDN (da ala liberal, gosta de frisar), da Arena e do PDS, até se filiar ao PMDB só para atender a lei e ser vice de Tancredo. Seu problema, em 1985 e nos anos seguintes, era cativar a esquerda.
Já Lula fez toda uma vida à esquerda, bradando contra a ditadura, exigindo direitos e salários em portas de fábrica, criando o PT, articulando as Diretas-Já. A esquerda que vá desculpando o mau jeito, mas seu problema no primeiro mandato é ampliar ao máximo os apoios à direita.
Foi assim que as primeiras providências de Sarney foram liberar partidos clandestinos, convocar a Constituinte, reatar as relações diplomáticas com Cuba e endossar o heterodoxo Plano Cruzado. E foi assim que Lula, ao assumir, já andava de namoricos com o PL, o PTB, setores do PMDB e se atirando nos braços do PP. Além de já estar amarrado a compromissos com os contratos, com o FMI, com a ortodoxia neoliberal.
Sarney partiu da expectativa zero e tudo o que ganhasse seria lucro. Lula, ao contrário, saiu de um patamar alto. Seu risco é a perda de esperança.
O grande desafio é identificar o ponto de equilíbrio. Nem tão à esquerda que ameace sua base no Congresso; nem tão à direita que não se reconheça no espelho.

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