Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, março 07, 2005

Celso Ming Dureza na agricultura

Enquanto tudo foi bem no agronegócio, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, mesmo sem ter carteirinha do PT, foi aplaudido e seu desempenho no governo considerado grande sucesso de público e de crítica.
Bastou que os preços das commodities agrícolas internacionais começassem a tropeçar e que, junto com eles, tropeçasse a cotação do dólar no câmbio interno, para que as reclamações tomassem corpo e aparecesse o cordão dos que pedem a demissão do ministro, como acaba de acontecer em Goiás.
Na semana passada, os sojicultores tiveram boas notícias. A primeira foi a aprovação da Lei de Biossegurança pela Câmara dos Deputados. Depois de regulamentada a Lei, o plantio de soja transgênica ficará liberado.
A segunda boa notícia foi a de que as cotações internacionais da soja voltaram a subir. No fim de fevereiro, o bushel (27,2 kg) estava sendo comercializado na Bolsa de Chicago a preços 19,5% mais altos do que no início do mês.
A soja é o principal produto do agronegócio brasileiro. Sozinho, corresponde a 10,4% das exportações. E os 49,7 milhões de toneladas colhidos em 2004 perfizeram 42% da produção de grãos.
A recuperação dos preços no mercado internacional repetiu-se em parte nas cotações internas. Em Sorriso (MT), por exemplo, a alta acumulada da saca (60 quilos) em fevereiro foi de 16,5%. A comercialização da produção, que pode ser feita antes da colheita, está atrasada. Até o dia 28, só 43% da produção foram negociados. No ano passado, no início de março já haviam sido 73%. Isso mostra que o agricultor ainda aposta na melhora dos preços. Por isso, prefere esperar, com um olho em Chicago e outro na meteorologia.
E assim já estamos dizendo que a segunda boa notícia tem uma contrapartida ruim. A alta dos preços tem sido provocada por uma quebra de cerca de 10% na produção nacional em conseqüência da seca que atinge o Sul do País, importante região produtora. Levantamentos da Universidade Federal do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) indicam que as chuvas acumuladas em fevereiro no Estado são 50% inferiores à média histórica.
Essa quebra de safra ainda não aparece nas previsões oficiais. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que se encarrega dos acompanhamentos das safras, estimou a colheita nacional de soja em 61,4 milhões de toneladas, 23,4% mais alta do que a do ano passado. Mas as consultorias especializadas já estão refazendo contas. A Agroconsult revisou suas previsões de 58,4 milhões de toneladas para 53,1 milhões. E a Safras & Mercados calcula que serão 49,9 milhões de toneladas.
Apesar da reação, é improvável que os preços voltem aos níveis de 2004, que chegaram a US$ 0,989 por bushel. Os estoques mundiais estão elevados. Deverão estar, em maio, nas 60 milhões de toneladas, 60% acima de igual período em 2004. Além disso, se a quebra da produção brasileira for de, digamos, 5,0 milhões de toneladas, ainda estaríamos falando de um recorde de 56,4 milhões de toneladas.
Com os custos subindo, se as cotações não reagirem, os sojicultores terão de equilibrar suas contas com aumento de produtividade. Mas não é o que está pintando.
No Mato Grosso, por exemplo, deverão ser colhidas 2,9 toneladas por hectare, quase o mesmo que na safra anterior. E, no Rio Grande do Sul, o que se espera é uma tragédia: 1,2 tonelada por hectare, ante uma previsão inicial de 2,3 toneladas - como mostram os levantamentos da MB Associados.
É cedo para uma avaliação mais segura do que acontecerá. Na semana passada, o governo Lula demonstrou sensibilidade às pressões dos agricultores e aceitou esticar o prazo de amortização dos financiamentos agrícolas.
Mas as pressões tendem a aumentar. O ministro Roberto Rodrigues mostrou que tem jogo de cintura. Agora, terá de provar que é bom equilibrista.
(Recepção 100%)

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