Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 17, 2005

Alberto Tamer:Economia dos EUA cresce



As últimas declarações de Greenspan sobre a gravidade do déficit e a situação potencialmente explosiva do sistema de saúde, aposentadoria e social provocam tensões no mercado financeiro internacional, com dúvidas sobre o aumento da taxa básica de juros nos EUA. A reunião do comitê de mercado aberto do banco central americano irá realizar-se na próxima terça-feira, e ontem aumentavam os rumores, inclusive na “city” de Londres, de que o Fed poderia elevar os juros acima dos previstos e anteriores 0,5%. Ninguém mais acredita que no comunicado final dessa reunião o Fed mantenha a expressão “política acomodativa” para a taxa de juros que vinha repetindo nas últimas reuniões. Há, sem dúvida, uma alteração para mais grave na linguagem de Greenspan sobre o montante e o financiamento do déficit fiscal e comercial, revelando uma preocupação que ele não havia sinalizado antes. Falava-se em ajuste de até 0,5%, no que poucos acreditavam, porém, pois os demais indicadores econômicos e financeiros são positivos.

Porém, ontem, as especulações do mercado e as informações oficiais eram contraditórias. De um lado, o Departamento do Comércio anunciou que o déficit na balança comercial, no último quadrimestre do ano passado, batia o recorde de US$ 187,9 bilhões, somando US$ 665,9 bilhões no ano todo. A causa principal foi o aumento dos preços do petróleo, segundo o Departamento do Comércio.

No mesmo dia, porém, outros dados, também divulgados pelo governo, atenuavam o nervosismo. O mais importante refere-se à entrada de recursos externos nos EUA. Só em janeiro, o mercado financeiro americano atraiu US$ 91,5 bilhões. Isso representa 50% a mais do que se estimava, e muito acima do nível necessário para financiar o déficit comercial, nesse mesmo mês, de US$ 58,5 bilhões.

Muitos analistas alertavam para o verdadeiro significado desses números. Afirmavam que grande parte dos recursos veio do Caribe, indicando a existência de um forte movimento especulativo. Além disso, em janeiro, a compra de títulos por empresas, fundos e pessoas físicas, jurídicas residentes ou sediadas nos Estados Unidos, reduziu-se drasticamente.

Otimismo, apesar de tudo - Apesar dos movimentos do mercado financeiro que lançam no mínimo incerteza a curto e médio prazo, a economia americana continuava mostrando ontem robustos sinais de crescimento. O número de criação de empregos continua aumentando nos últimos 21 meses. Só neste ano, foram criados cerca de 400 mil postos de trabalho, de acordo com o Departamento do Comércio americano. Há mais. Nada menos que 69% de empresas consultadas pela CareeBuildr Co., que acompanha esse mercado, informaram que pretendem contratar neste ano mais de 600 pessoas. Grande parte desses empregos está sendo criada nos setores de construção civil, obras públicas e infra-estrutura.

Construção empurra a economia - A resistência surpreendente do setor de construção civil e aquisição de imóveis continuava ontem desafiando a expectativa dos analistas, entre eles Greenspan, que esperavam um desaquecimento após anos de intensa atividade. De acordo com o Departamento do Comércio, em fevereiro a construção imobiliária aumentou mais 0,5%. A causa principal é a baixa taxa de juros oferecidas no financiamento de imóveis. E, mesmo com um novo reajuste de 0,25%, ou mais, estima-se que, mesmo assim, ainda haverá demanda. Os juros incidentes sobre as hipotecas de longo prazo - até 30 anos - continuam sendo compensadores.

David H. Resler, economista-chefe na Nomura Securities International, estava entre os otimistas. ôAté que a taxa de financiamento hipotecário aumente mais de forma persistente, o setor de construção de imóveis residenciais irá manter-se forte, informava ele em nota aos seus clientes.

Até agora, essa taxa vem se mantendo abaixo de 6% ao ano. A associação dos bancos que operam na área de empréstimo hipotecário informou que, em fevereiro, aumentou em 2,5% o número de candidatos ao financiamento de imóveis. É o maior nível, neste ano, e a taxa mais alta, para financiamento de 30 anos, era de 5,91% ao ano, um aumento de apenas 0,22%.

Para Bethany Baldino, do J.P. Morgan, “historicamente, quando há sinais de novo aumento da taxa de juros as pessoas correm para fechar contratos, mesmo antes que isso ocorra”.

Não estaria havendo, porém, uma tendência para saturação nos próximos meses? Aparentemente, não. A autorização para construção de novas habitações e prédios continuou subindo em janeiro e fevereiro. E vem assim há mais de dois anos. É bolha que pode explodir a qualquer momento, como ocorreu com a bolsa? Esta é uma questão em aberto, ainda pouco provável, mas, de qualquer forma, por enquanto esse setor vem crescendo sem parar. E ele representa nada menos que 5% do PIB (Produto Interno Bruto), somando os gastos decorrentes na encomendas de matérias primas e semifaturados ou na utilização na construção do imóvel de bens duráveis para torná-lo habitáveis. E o setor é grande absorvedor de mão-de-obra.

O Departamento do Comércio informa que há também um constante aumento da produção destinada ao mercado externo, estimulado pela cotação do dólar. O déficit comercial americano vem aumentando não porque as exportações diminuíram - ao contrário, passaram de US$ 100 bilhões só em um mês - mas porque as importações foram a fúria consumista dos americanos.

Previsão é de alta - “The Wall Street Journal” consultou 56 economistas do mercado nos dias 3 e 4. E todos elevaram as projeções de crescimento feita em pesquisa anterior. Para este trimestre, de 3,8% para 4%. Já para o segundo trimestre, 3,7% para 3,8. Todos admitem, no mínimo, 3,8% até o fim do ano. Isoladamente, o Morgan Stanley, mais otimista, elevou a previsão e crescimento econômico, neste trimestre, de 3,3% para nada menos que 4,4%.

Resumindo, mesmo com aumento de juro, com a proeupação com a escalada dos déficits e da dívida, a economia real americana continua em franca expansão, ignorando os riscos potenciais de médio ou longo prazo. Enquanto isso, mesmo desequilibrada, a economia mundial caminha...



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