segunda-feira, agosto 31, 2009

Reinaldo Azevedo: Unasul- E Lula dá com os burros n’água! De novo!!!-Reinaldo



Unasul- E Lula dá com os burros n'água! De novo!!!

sábado, 29 de agosto de 2009 | 5:41

Por Ariel Palacios e Denise Chrispim Marin, no Estadão. O título é meu.
A ambição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de atuar como um líder apaziguador de ânimos e como disseminador do bom senso durante o encontro da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), ontem, foi arruinada por seu próprio comportamento. Em sua exposição, Lula não apresentou nenhuma contribuição efetiva para solucionar a polêmica causada pelo acordo militar entre os EUA e a Colômbia e terminou por bater boca com seu colega equatoriano, Rafael Correa, ao acusá-lo de conduzir mal os debates e de querer prolongar a reunião.

Em seu discurso, Lula retomou a necessidade de um encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama, para tratar dos planos da Casa Branca para a América Latina - tema já abordado em abril, na Reunião de Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago. Insistiu ainda na convocação da reunião dos ministros do Conselho de Defesa e do Conselho de Combate ao Narcotráfico da Unasul, em setembro.

Apenas de leve, Lula citou a exigência de garantias jurídicas de que as ações das forças americanas se restringirão ao território colombiano. Acentuou um pouco mais apenas o temor de invasão da Amazônia. Nas últimas semanas, esses foram os pilares dos discursos do Palácio do Planalto e do Itamaraty em relação ao acordo EUA-Colômbia. "Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém", arrematou.

Suas impressões sobre o "sagrado" conceito de soberania e a necessidade de fortalecimento da Unasul caíram em uma vala comum, diante dos confrontos verbais entre Uribe e os aliados de Hugo Chávez, da Venezuela. Nesta semana, Lula havia solicitado um café da manhã com Chávez antes da cúpula. Tratou-se de uma tentativa de Lula de conter os ímpetos mais agressivos de seu "companheiro" contra a Colômbia e de instigá-lo a adotar um tom mais construtivo para um consenso.

A tentativa de Lula durou cerca de três das sete horas do encontro. Sem um canal de confiança para igualmente convencer Uribe a se deter nos temas propostos para o debate, Lula observou a série de ataques entre o colombiano, de um lado, e Chávez e Correa, de outro. Lula deixou-os brigar, sem nenhuma intervenção. Aqui


A crise internacional: as verdadeiras e as falsas questões Luiz Carlos Mendonça de Barros

 VALOR ECONÔMICO

Estamos entrando no terço final de 2009 com uma visão mais clara sobre os fatores que levaram à crise financeira que nos atingiu a partir do colapso do banco Lehman Brothers. Um dos pontos centrais na sua construção foi certamente a questão da regulação e controle das instituições financeiras. Mesmo não sendo a origem propriamente dita da crise, a regulação falha permitiu que os elementos de fragilidade no sistema assumissem enormes proporções. Depois de termos vivido um longo período em que prevaleceu a ilusão da racionalidade intrínseca aos mercados financeiros, hoje há novamente o reconhecimento das fragilidades e dos riscos sistêmicos associados a seu funcionamento.

Não tenho dúvidas de que um novo entendimento sobre o controle da atividade financeira nascerá a partir das lições duramente aprendidas nestes dois últimos anos. Esta minha posição nasce também a partir do acompanhamento de fatos ocorridos recentemente. Cito ao leitor do Valor dois que me impressionaram nos últimos dias: o presidente da poderosa agência que regula os mercados futuros nos Estados Unidos - a CFTC - falando à imprensa revela que já há consenso nesse órgão de que os mercados de derivativos financeiros precisam ter uma regulação própria. Ele - que foi funcionário do Tesouro americano entre 1997 e 2001 - cita que, em 2000, no governo Clinton, essa mesma questão foi discutida no âmbito dessa agência federal e a decisão foi a de deixar o mercado totalmente livre de regulação externa, o que, em sua análise, foi um erro muito grave.

O outro fato que merece nossa atenção está estampado na edição de sexta-feira do site da Bloomberg. A SEC, outra agência regulatória do governo americano e responsável pelo mercado de títulos em geral, contratou um respeitado professor universitário para ser o responsável pela análise de risco nas operações sob sua supervisão. "Nós estamos criando um novo foco na análise de riscos para podermos identificar as áreas da indústria de títulos financeiros que podem representar riscos para os investidores" disse o presidente da SEC à agência de notícias. É preciso lembrar que, nos anos Bush, a SEC foi um dos centros do movimento pela liberdade total dos mercados.

Quem acompanha o dia a dia dos mercados financeiros sabe que o pensamento ultraliberal em relação à regulação dos mercados financeiros foi dominante desde a década de 1980, mas especialmente a partir do governo Clinton. Bush deu continuidade a essa visão. Os perigos associados a essa postura ficaram ainda maiores em função do aparecimento de uma série de inovações financeiras que criaram segmentos do mercado sem nenhum acompanhamento pelos órgãos reguladores. Além desses espaços sem lei, instrumentos legítimos de busca de eficiência das instituições financeiras e que funcionaram adequadamente durante muito tempo foram sendo desvirtuados. Como não havia a disposição das autoridades de acompanhar os movimentos das instituições financeiras, os riscos associados a essa evolução também não foram identificados com antecedência.

Tomemos o exemplo tão discutido do pagamento de bônus aos executivos das instituições financeiras. Essa prática, usada para estimular talentos, nasceu em instituições financeiras organizadas sob a forma de associação de sócios. Nesse tipo de instituição, a maioria dos funcionários que recebe bônus participa também no capital da empresa. Além disso, essas empresas não tinham ações colocadas no mercado junto a investidores. Elas funcionavam como uma grande cooperativa de funcionários, de maneira que o pagamento de bônus por performance a cada período não causava distorções em relação ao valor futuro dos lucros dos acionistas. Esse sistema funcionou de forma correta por décadas no mercado financeiro. Mas a partir do momento em que se aprofundou a separação entre beneficiários dos bônus e os detentores de ações, a racionalidade do sistema foi destruída e uma nova fonte de risco criada. Neste momento, os mecanismos que criavam estímulos positivos se tornaram instrumentos perigosos e destrutivos. O exemplo do ocorrido com o Citi e a Merrill Lynch, entre outros, é ilustrativo dessas mudanças.

Esse envelhecimento de todo um arcabouço institucional construído ao longo de muitos anos é o resultado direto de uma postura errada em relação à questão da regulação externa dos mercados. A interferência dos governos é a única forma capaz de equilibrar os interesses individuais, principalmente em função da assimetria de informações que existe no sistema financeiro moderno. No modelo ideal de regulação deveria haver a centralização das informações sobre as transações financeiras em um único órgão regulador. Mas isto certamente levaria à criação de uma burocracia enorme e que dificilmente conseguiria ser eficiente. Uma segunda alternativa seria a manutenção dos vários órgãos reguladores hoje existentes e a centralização apenas no caso das grandes unidades financeiras integradas e que representam riscos sistêmicos. Nesse caso o Banco Central assumiria esse papel.

Outra lição da crise atual e que será certamente incorporada no desenho de um novo sistema de regulação é que, no mundo integrado que existe hoje, o sistema de regulação e controle das operações financeiras não pode estar restrito às fronteiras nacionais. Uma das causas da crise recente foi exatamente a existência de espaços vazios de regulação entre um país e outro e que foi aproveitado por várias empresas para fugir da regulação. O exemplo mais claro dessa esperteza é o da AIG, que criou uma empresa em Londres para fugir da supervisão dos órgãos americanos no mercado de companhia de seguros.

Usando aqui a imagem dos movimentos de um pêndulo, podemos dizer que o risco agora passa a ser o de exagero na regulação. Os custos associados à liberdade excessiva dos mercados financeiros foram tão grandes que existe hoje um clima de caça às bruxas. Por isso o papel das cabeças mais lúcidas neste momento é o de evitar exageros, pois a liberdade legítima dos mercados precisa ser preservada para manter sua eficiência.

A novidade Fernando Rodrigues


FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Marina Silva discursou ontem por 34 minutos. Filiou-se ao Partido Verde. Firme, culta, falou para a classe média bem informada. Citou Gandhi, Mandela, Luther King, Leonardo Boff, Santo Agostinho e Guimarães Rosa.

A cerimônia foi transmitida ao vivo pela internet. A senadora pelo Acre deixou o PT disposta, como disse, a "construir uma nova casa". Ela é uma novidade, mas se soma a outra ainda maior que é o uso da web na política. O PV e sua cúpula parecem estar dispostos a pisar firme nessa estrada irreversível.

Se for candidata a presidente, o maior obstáculo de Marina é o tamanho de seu novo minúsculo partido e o tempo mínimo que terá na TV durante a campanha. Aí entrará um pouco, como ontem, a força realmente nova da eleição de 2010: o uso amplo da internet.

Mas é necessário relativizar antes de classificar Marina como um "Obama de saia". Nos EUA, foi transposta no ano 2000 a barreira de mais de 50% dos domicílios conectados à rede mundial. Aqui, numa conta otimista, haverá cerca de 60 milhões de internautas em 2010 -num universo próximo de 200 milhões de brasileiros.

É claro que 60 milhões formam um contingente nada desprezível. Mas esse é também o número mínimo de votos para vencer a eleição presidencial de 2010 -Lula, em 2006, foi reeleito no segundo turno com 58,3 milhões de votos.

Marina Silva certamente terá como se beneficiar do novo meio. Sobretudo arrecadando fundos e oferecendo uma forma de participação eficaz aos seus eleitores nestes tempos de praças vazias.

Ainda assim, no Brasil, é sobretudo pela TV o contato com os eleitores. Até porque está prestes a ser votada uma lei no Congresso restringindo o uso da web na política. Tudo somado, sem alianças para turbinar seu horário eleitoral, a senadora acriana arrisca-se a entrar na disputa sem chances reais.

A Justiça é cega Ricardo Noblat

O Globo - 31/08/2009
 

 

"É questão de status: 99% dos brasileiros na situação de Palocci seriam réus a essa altura." ( Luiz Flávio Gomes, jurista )

A Justiça é cega

O que é, o que é? Tem tromba de elefante, corpo de elefante, pata de elefante, mas não é um elefante, segundo o Supremo Tribunal Federal? É o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, depois de livrar-se da denúncia apresentada pela Procuradoria Geral da República contra os suspeitos pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa.

"Decisão judicial não se discute, cumpre-se", repetem os que consideram errada uma sentença, mas preferem calar a respeito. Decisão judicial se discute, sim. Juiz não é infalível. A infalibilidade do Papa só se tornou dogma em 1817. Mesmo assim se restringe às questões e verdades relativas à fé e à moral. Acata-se decisão judicial. Mas quando possível se contesta junto à própria Justiça.

Francenildo foi caseiro de uma mansão em Brasília frequentada por prostitutas de luxo, Palocci e ex-assessores da época em que ele foi prefeito de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Desconfia-se que ali rolavam negócios sujos. Em depoimento na CPI dos Bingos do Senado, um motorista havia dito ter visto Palocci na mansão várias vezes. Palocci jurou jamais ter ido lá.

Descoberto pelo jornal O Estado de S. Paulo, Francenildo contou que flagrara Palocci na mansão de 10 a 20 vezes. A entrevista foi publicada no dia 14 de março de 2006. No dia 16, Francenildo renovou a acusação na CPI. Só pôde fazê-lo porque chegou com atraso ao Senado liminar concedida pelo ministro Cezar Peluso em ação impetrada pelo PT proibindo Francenildo de depor.

No mesmo dia, pelo menos seis órgãos do Estado, entre eles a Polícia Federal e a Receita, se ocuparam em devassar a vida de Francenildo. Um empregado da jornalista Helena Chagas confidenciara à ela que Francenildo procurava uma casa para comprar. Como poderia ter tanto dinheiro para isso? A informação bateu nos ouvidos do senador Tião Viana (PT-AC), que a repassou a Palocci, que convidou Helena para um encontro.

Palocci perguntou a Helena se o empregado dela toparia depor contra Francenildo. Helena respondeu que não. Às 19h, no Palácio do Planalto, Palocci reuniu-se com Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica. Em seguida foi para casa e Mattoso voltou ao prédio da Caixa. Às 20h, Mattoso entregou a um assessor o CPF e o nome completo de Francenildo. Saiu para jantar em um restaurante.

Dali a uma hora, Mattoso recebeu do assessor um envelope pardo com os extratos bancários de Francenildo, dono de uma conta na Caixa e de depósitos que somavam R$ 38.860,00. Estava consumado o crime de quebra do sigilo bancário. Ainda no restaurante, Mattoso atendeu a um telefonema de Palocci. Foi ao encontro dele. Palocci examinou os extratos. Que no dia seguinte foram parar na sucursal da revista Época.

Pouco depois das 19h do dia 17, a revista postou os dados em seu site junto com a explicação de Francenildo sobre a origem do dinheiro - uma doação do empresário Eurípides Soares da Silva, seu pai. Eurípides confirmou a doação, mas negou que fosse pai de Francenildo. A tentativa de desacreditar o caseiro, sugerindo que ele fora subornado para mentir, acabou desmontada até as 22h. A mãe de Francenildo admitiu que ele era filho bastardo do empresário.

O próprio Eurípides confessou que dera dinheiro a Francenildo para não ter que reconhecê-lo como filho. "Por que fizeram isso comigo?", queixou-se Francenildo. Porque "a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco", conferiu o ministro Marco Aurélio de Melo, um dos quatro votos vencidos na sessão do Supremo da semana passada. Cinco colegas dele rejeitaram a denúncia contra Palocci. Não viram indícios suficientes de sua participação na quebra do sigilo.

Sobrou para Mattoso, que será processado pela quebra do sigilo bancário do caseiro. Para a Justiça, o elefante da história é ele. Quanto a Palocci, poderia ter denunciado Mattoso ao receber dele os extratos de Francenildo. Ignora-se por que não o fez.

Guerras no vácuo do Congresso Paulo Guedes

O Globo - 31/08/2009
 

 

A engrenagem administrativa da Nova República dá claros sinais de mau funcionamento. Há pouca técnica e uma extraordinária turbulência na condução de matérias essenciais ao interesse público. São pouco construtivas as frequentes guerras de ocupação de espaço político, como no caso de três ferozes disputas que ocorrem no momento. Todas disparadas e conduzidas de olho no calendário eleitoral de 2010. 

A primeira eclodiu no Senado, com as denúncias de práticas inaceitáveis. Collor e Lula descreveram em termos extremamente ofensivos ao então presidente Sarney sua tolerância, em nome da governabilidade, com práticas que consideravam inadequadas. Parecem ambos mais tolerantes hoje. Seria melhor para o país se o atual clima de entendimento e compreensão mútua que desfrutam pudesse resultar em uma reforma política. Sabendo o que sabem hoje, reescreveriam para melhor suas biografias ante o julgamento da História. 


A segunda disputa é uma guerra intestina na Receita Federal, com as digitais de sindicalismo e de facções partidárias. A hipertrofia e as disfunções de uma engrenagem que absorve 40% do PIB de uma economia de dimensões continentais revelam o superdimensionamento de suas estruturas administrativas. Da cúpula do Senado, com milhares de funcionários servindo 81 senadores, à própria complexidade da máquina de arrecadação da Receita. Os quadros técnicos de boa qualidade desta última deveriam estar formulando propostas de uma reforma tributária com simplificação de impostos, redução de alíquotas e ampliação da base de incidência. 

Finalmente, uma terceira disputa, entre estados produtores de petróleo e a União, por recursos do pré-sal. Isso não é assunto para ser decidido num fim de semana pelo presidente e três governadores. Revela-se uma vez mais o vácuo na atuação do Congresso. A reforma fiscal, a descentralização de recursos e atribuições para estados e municípios e até mesmo a redistribuição da riqueza do pré-sal deveriam estar na pauta dos senadores e de seus assessores parlamentares, que são tantos. 

São legítimas as aspirações de transformar a riqueza potencial do petróleo em uma oportunidade histórica de reduzir a pobreza por meio de investimentos maciços em educação. Trata-se de uma alquimia não apenas politicamente desejável, mas também economicamente viável. Faz sentido a conversão de recursos naturais exauríveis, responsáveis pela riqueza das nações no presente, em recursos humanos mais produtivos, fator crítico de sucesso na futura sociedade do conhecimento. 

Mas é importante não colocar a carroça na frente dos bois. Em economia, a ordem dos fatores altera o produto. Serão necessárias centenas de bilhões de dólares em novos investimentos para extrair, transportar, refinar e distribuir o óleo recém-descoberto. Transformar essa riqueza potencial em educação exige muita técnica e nenhuma politicagem.

Índices de produtividade Denis Lerrer Rosenfield

O ESTADO DE S PAULO
O governo engajou-se num projeto ousado, se não temerário, de mudar os índices de produtividade do campo brasileiro. E trata-se bem do campo, pois nenhuma atividade empresarial está submetida a tal exigência, como se os produtores rurais e o agronegócio devessem sofrer uma espécie de punição por investirem e produzirem. São pecadores desde sempre! Tal temeridade é ainda mais perigosa por criar um clima de instabilidade num ano que já se apresenta como pré-eleitoral. Literalmente, o governo está brincando com fogo.

Essa iniciativa depende apenas de uma portaria interministerial, a ser assinada pelos ministros da Agricultura e da Reforma Agrária. O primeiro, numa situação de constrangimento, não teria estado presente à reunião em que foi decidido esse anúncio. Depois, procurou equilibrar-se. Contudo, se assinar essa portaria, perde condições de continuar no cargo, ficando completamente desprestigiado. Ressalte-se que o ex-ministro Roberto Rodrigues, quando titular da Pasta da Agricultura, recusou-se a assinar tal portaria, embora já estivesse pronta - atitude que teria sido a razão de sua renúncia ao cargo.

O MST obteve essa decisão presidencial ao cabo de várias manifestações, culminando com uma marcha em Brasília. Observe-se que o presidente já havia anunciado medida do mesmo tipo quando de sua eleição em 2006, como forma de retribuição pelo apoio recebido. O anúncio, no entanto, terminou não se concretizando numa portaria, provavelmente pelo risco de instabilidade institucional que a medida acarretaria. Se isso agora ocorrer, poderemos ter a certeza de que os próximos anos testemunharão uma recrudescência de invasões, com o MST aumentando a sua ingerência no campo brasileiro, com expansão possível de suas atividades às cidades.

Embora essa organização política tenha sido fortalecida financeiramente pelo atual governo, via concessão de recursos por intermédio de entidades de fachada, ela vinha perdendo fôlego perante a opinião pública. Financeiramente, nunca esse movimento gozou de tantos recursos, repassados por diferentes Ministérios, como os da Reforma Agrária, da Educação e do Desenvolvimento Social. Politicamente, porém, suas ações expuseram, cada vez mais, seu caráter arbitrário, com atos explícitos de violência em suas invasões e na ausência de objetivos concretos em suas demandas. Uma das razões disso consiste em que, sob os atuais índices de produtividade, não existem mais "latifúndios improdutivos" no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil senão marginalmente. Ora, são essas regiões o foco das ações do MST. No Norte a questão é de regularização fundiária e no Nordeste há ainda algumas regiões que se situam abaixo dos índices atuais de produtividade.

Trata-se, portanto, de uma criação artificial de latifúndios improdutivos. Segundo estimativas do ministro Guilherme Cassel, da Reforma Agrária, o governo teria a criação "artificial" de 33 milhões de hectares de propriedades "improdutivas". Para se ter uma ideia da enormidade anunciada, o Brasil já conta com 80,6 milhões de hectares de assentamentos, segundo dados de dezembro de 2008. Chegaríamos a algo em torno de 113,6 milhões de hectares de assentamentos. Ora, o conjunto de lavouras permanentes (55 milhões), temporárias (17 milhões) e de florestas plantadas (6,5 milhões) é de 78,5 milhões de hectares - dados de dezembro de 2008. Tem-se, assim, uma ideia mais precisa do dano que está para ser causado.

O que não se diz, também, é que nos "novos" desapropriados "latifúndios improdutivos" não teremos mais produção de nada, dada a falência do processo de reforma agrária no País. Ou seja, terras produtivas serão repassadas para quem não produz, com a queda do ritmo de expansão da agricultura, que, além de atender com alimentos baratos a todo o mercado interno, tornou-se um grande polo exportador, colocando o País dentre os primeiros do mundo. Poderíamos, então, colocar a seguinte questão: quais são os índices de produtividade dos assentamentos brasileiros? Por que não vêm eles a público? Uma medida prática, de enorme repercussão, consistiria em aplicar os atuais índices de produtividade aos assentamentos, de modo que se pudesse verificar a contribuição que dão ao País. Seria não apenas uma questão de equidade, mas de transparência necessária, pois o cidadão brasileiro tem o direito de saber para onde vão os recursos destinados à dita "reforma agrária".

Observe-se, ainda, que tal iniciativa governamental se inscreve num contexto de crise mundial, com alguns produtos agrícolas sendo vendidos abaixo de seu custo de produção. Ora, de acordo com uma economia de mercado, o que deveriam fazer tais produtores e empresas? Diminuir a sua área plantada, para reduzir, nessa situação, a sua produção e os seus prejuízos. O que está, no entanto, obrigado a fazer? A produzir mais, pois se não o fizer pode perder a sua terra! O produtor rural e o agronegócio ficam expostos à seguinte situação: de um lado, a crise mundial exigindo medidas específicas de controle da produção; de outro, o MST ameaçando invadir segundo novos índices de produtividade.

O empreendedor rural e o agronegócio são punidos pelo aumento de sua produtividade. Um banco, uma siderúrgica ou uma fábrica de eletrodomésticos ganham com seus investimentos, suas inovações e os riscos assumidos. O que acontece com um empreendedor e uma empresa rurais? Os seus ganhos não revertem para si, mas estão sob a ameaça de ser transferidos para o MST se não alcançarem um determinado patamar. A que visa, na verdade, uma revisão dos índices de produtividade? A uma transferência de bens, a uma transferência de propriedade. E para quem? Para uma organização política de cunho leninista que procura inviabilizar a economia de mercado, destruir o direito de propriedade e implantar um regime socialista autoritário/totalitário.

domingo, agosto 30, 2009

DANUZA LEÃO Vivendo de Brasília

folha de s paulo


A simpatia é seu capital, e seu objetivo, um só: fazer negócios. Alguns mais ingênuos entram na dança

É MUITO BOM conhecer pessoas simpáticas; mas se elas forem simpáticas demais, prestativas demais, desconfie, sobretudo no mundo dos negócios. Quem não gosta de ser bem tratado, de ter em volta pessoas que sempre concordam com nossos pontos de vista, que acham graça em tudo que dizemos? Pois fique sabendo que isso é uma profissão e que são exatamente estas as pessoas mais perigosas.
Esse é o caminho mais curto para chegar à nossa intimidade e conquistar nossa confiança, e se você ocupa algum cargo poderoso, todo cuidado é pouco. Essas pessoas têm talento para serem agradabilíssimas, estão sempre prontas a fazer pequenos favores, apresentar alguém a outro alguém, e um dia vão pedir alguma coisa que você vai ter dificuldade em negar. Às vezes, uma pequena (aparentemente) informação para eles é mais importante do que um cheque em branco.
Os homens corretos -em seu trabalho e diante da vida- podem ser discretamente simpáticos, mas nunca passam da conta, porque não vivem disso; já esses outros têm, como profissão, um grande charme pessoal e total disponibilidade para estarem nos lugares certos, nas horas certas, para encontrarem as pessoas certas. Eles sabem exatamente que lugares são esses, e as pessoas que interessam.
São adoráveis; com eles não há um só minuto de tédio, e estão sempre prontos a conseguir qualquer coisa de que você precise. De um twister que ainda não existe no mercado a qualquer aproximação que você queira, seja com um homem de negócios ou com uma gatinha; tudo isso rindo muito e prontos a dizer, se pegar mal, que estavam apenas brincando. A simpatia é seu capital, e seu objetivo, um só: fazer negócios. Bons negócios.
Alguns mais ingênuos entram na dança, e às vezes, inocentemente, facilitam que esses negócios aconteçam. Negócios que, claro, não têm nada a ver com trabalho honesto, é um toma lá dá cá. Eles são perigosos, e quanto mais simpáticos, mais perigosos.
Nunca, em nenhum momento, pensam no país, nem de onde está vindo o dinheiro que conseguiram numa "tacada". São nefastos à sociedade de um modo geral, e não porque sejam imorais. São piores, porque são totalmente amorais, e também muito espertos: não deixam rastros por onde passam e têm sempre uma corte em volta, que eles alimentam com pequenos favores. E são capazes de qualquer coisa, por exemplo, namorar uma mulher que não tem nada a ver com eles mas que tem uma posição que poderá ser de grande utilidade em algum momento. Mulher carente, como se sabe, faz qualquer coisa pelo homem que a saiba levar, e é até covardia chegar perto de uma delas.
Os chamados homens de bem que se cuidem; esses são extremamente destrutivos, mas conseguem fazer amigos com facilidade. Amigos geralmente com pouca experiência de vida e que conhecem pouco o ser humano. Se tomassem informações, saberiam, mas quem tem tempo para isso nos dias de hoje? Essas pessoas geralmente não bebem, nem fumam, o que causa sempre uma boa impressão. Mas é só ficar atento para perceber o mal que são capazes de fazer.
Esse tipo de gente costuma ir muito a Brasília.

FERREIRA GULLAR Para muitos, ele era o cara

FOLHA DE S PAULO


Prudente pregava a derrubada de Jango, mas tratava com carinho os esquerdistas da Redação


POSSO DIZER que dei sorte na vida, porque sempre encontrei pessoas generosas que me ajudaram. Não consigo imaginar que rumo teria tomado se não as tivesse conhecido. Por exemplo, se Lucy Teixeira, lá em São Luís do Maranhão, não me houvesse incentivado a vir para o Rio, teria vindo? E, se tivesse vindo, mas sem ter me tornado amigo de Mário Pedrosa, Ivan Serpa, Lygia, Amílcar, Palatnik? A vida é feita também de acasos, pode tomar um rumo ou outro, dependendo de fatores circunstanciais.
Lucy apresentou-me a Otto Lara Rezende, que me admitiria na revista "Manchete", onde havia ótimos profissionais com os quais muito aprendi. No "Diário Carioca", para onde fui em seguida, assimilei o modo novo de escrever a notícia. E lá estavam Carlos Castelo Branco, Evandro, Tinhorão, entre outros, e, especialmente, Prudente de Moraes Neto, que era o chefe da Redação.
A Redação do "Diário Carioca" foi o lugar mais divertido em que já trabalhei. Já falei disso em outra ocasião: o jornal funcionava na sobreloja de um prédio na avenida Rio Branco, quase esquina com a praça Mauá, onde está o edifício em que ficava o jornal "A Noite" e também os estúdios da Rádio Nacional. Era o ano de 1956, quando o rádio ainda mantinha enorme popularidade.
Nas tardes de domingo, as fãs de Emilinha e Marlene saíam do auditório da Nacional, gritando o nome das cantoras. Tinhorão, debruçado à janela da Redação, as provocava: "Macacas! Macacas de auditório!". Elas respondiam com palavrões. Prudente, de pé no meio da Redação, ria às gargalhadas.
Esse era o ambiente do jornal, consentido e estimulado por ele, que também se divertia com as peças que alguns pregavam aos outros, atirando-lhes bolas de papel ou passando-lhes trotes com falsos telefonemas. Lembro-me de um desses trotes, cuja vítima foi Tinhorão, que tinha fama de namorador. Um dos colegas, imitando voz de mulher, marcou um encontro com ele aquela noite mesmo, na Cinelândia. Imediatamente vestiu o paletó, foi até Prudente e inventou que sua mãe o chamara, aflita, pelo telefone. Mal saiu da Redação, Prudente e o autor do trote começaram a rir, logo seguidos pelos demais. Uma meia hora depois, voltava Tinhorão, sorrindo amarelo, encabulado por ter bancado o bobo.
Do "Diário Carioca", fui para o "Jornal do Brasil", onde fiquei até 1962, quando fui demitido por ter aderido à greve dos jornalistas. Logo, recebi um recado de Prudente de Moraes Neto, que então chefiava a sucursal de "O Estado de S. Paulo" no Rio. Ali, se o ambiente não era o mesmo do "Diário Carioca", também reinava o bom humor e a camaradagem. Ganhei muitos amigos, Mário Cunha e Villas-Boas Correa, e me divertia com as piadas de Guaxito, teletipista do jornal. Ele punha apelido nos companheiros e gozava a todos. Quando alguém falava alto demais ao telefone, ele os sacaneava: "Avisa o coleguinha aí que já inventaram o telefone!".
Durante 1963, as tensões políticas e a agitação social já anunciavam o golpe militar. Prudente, em seus artigos, pregava a derrubada de Jango, mas tratava com carinho os esquerdistas da Redação. Assim foi que, no começo do ano seguinte, quando finalmente os generais consumaram o golpe, Prudente nos aconselhou a sumir. Eu e Mário Cunha sumimos, mas, de vez em quando, telefonávamos para ele, que nos falava em código: "O tempo continua nublado, ameaçando chuva", avisava ele. Quando, algumas semanas depois, o tempo melhorou, nós voltamos ao trabalho.
Prudente era uma personalidade pouco comum. Quando jovem, fundara, com Sérgio Buarque de Holanda, a revista "Estética", que difundia as ideias modernistas. Ensaísta brilhante, tinha uma visão muito própria das questões estéticas e literárias. Foi também poeta, embora de sua poesia pouco se conheça, além do célebre poema "A Cachorra", que Manuel Bandeira incluiu na sua antologia dos poetas bissextos. "Sorriu da minha tolice / eu sou a Cachorra, disse / Tu me chamaste, aqui estou."
Em 1975, eleito presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ele, que apoiara o golpe militar e já se tornara um de seus mais firmes opositores, liderou a luta dos jornalistas contra a censura. Essa firmeza e determinação exasperaram de tal modo os militares que chegaram a destruir, com uma bomba, o sétimo andar do edifício-sede da instituição.
Prudente morreu em dezembro de 1977. A última vez que estive com ele foi em sua casa, em Ipanema, quando um grupo de amigos o homenageou. Ao despedir-me, segredei-lhe ao ouvido: "Você é o melhor ser humano que conheci em minha vida". Ele me apertou o braço e sorriu entre encabulado e agradecido

VINICIUS TORRES FREIRE O capital insociável da Petrobras

FOLHA DE S PAULO



Na véspera da festa do pré-sal, ainda era medonha a confusão sobre quem vai deter o capital da maior empresa do Brasil

A HISTÓRIA do aumento do capital da Petrobras começou a vazar em agosto de 2008 (uma empresa aumenta seu capital quando vende novas ações: fica "maior" e com "mais dinheiro"). Em março de 2009, ouvia-se, aqui e noutras páginas, que o governo compraria de "R$ 40 bilhões a R$ 70 bilhões" das novas ações da Petrobras.
Quitaria a operação por meio da transferência de blocos do pré-sal para a Petrobras, áreas não licitadas nem avaliadas. Ou, então, a Petrobras não precisaria pagar dividendos à União até a quitação do negócio. Ou, ainda, o governo federal faria dívida para comprar ações e, assim, reestatizar parte da empresa.
A amplitude da estimativa e dos esquemas de financiamento ilustra o tamanho dos delírios brasilienses, para nem mencionar a dificuldade de quitar a compra de ações por meio de um ativo do qual não se conhece nem o tamanho nem o preço (as tais áreas do pré-sal).
Em abril, a troca de ações pelas reservas "havia sido descartada por Lula". A capitalização também deixava de ser líquida e certa: "era muito lobby da Petrobras", dizia um ministro. Mas, em julho, Lula de novo "queria prestigiar a estatal". Na verdade, havia se decidido que a empresa teria papel relevante na gerência e na exploração de todas as áreas do pré-sal, o que demandaria capital extra em quantidade que a Petrobras não seria capaz de levantar no mercado por meio de mais dívida.
No final de julho, um ministro dizia que a capitalização seria de "R$ 30 bilhões a R$ 80 bilhões" (sic), e, outra vez, que a União pagaria as novas ações com as áreas do pré-sal.
Nesta semana, houve relatos de que a capitalização poderia ser de até R$ 100 bilhões. Um ministro da área econômica, tão (ou tão mal) inteirado como outros da comissão do pré-sal, dizia na sexta que "isso [R$ 100 bilhões] é só o que a Petrobras quer".
Então chegamos na véspera da festa da campanha do pré-sal nesta confusão a respeito do que será da maior empresa do país e da Bolsa;
que investe tanto ou mais que o governo federal; que tem o maior plano quinquenal de investimentos do mundo, empresa que será, aparentemente, dominante no pré-sal.
Não se sabe se o governo vai reestatizar parte da Petrobras "no grito", superfaturando reservas incógnitas do pré-sal, ficando assim com ações demais. Ou se o governo pode comprar as ações por meio de endividamento, dívida que seria paga quando e se se soubesse o valor das áreas do pré-sal que seriam transferidas à Petrobras. Quantos áreas teriam de ser entregues à estatal? Vai ser uma graça ver como essa conta vai ser feita.
Outra graça vai ser um bloco de uns 2 milhões de ações sendo ofertado no mercado de uma só vez.
Se a capitalização vier e se houver respeito aos acionistas minoritários, o valor da empresa pode até dobrar (na sexta, valia R$ 320 bilhões). Se os minoritários não tiverem dinheiro bastante, podem sofrer uma diluição pesada (sua fatia no capital cai, assim como seus rendimentos).
Levando a mixórdia da discussão a um dos absurdos que a confusão do governo permite, o que será do câmbio se estrangeiros em massa comprarem ações da estatal? E tudo é discutido à matroca, com vazamentos disparatados a respeito de uma empresa que está na Bolsa.

ELIO GASPARI O MAPA DO TESOURO DA ILHA DE FURNAS

FOLHA DE S PAULO

Prossegue a caça ao tesouro da Fundação Real Grandeza, o fundo de pensão dos trabalhadores de Furnas, onde há um ervanário de R$ 8 bilhões. Começou a eleição dos três representantes dos funcionários no conselho da instituição. É um um processo que mobiliza 14 mil pessoas e dura cerca de um mês, culminando com a posse dos escolhidos, em outubro, quando termina o mandato da atual diretoria do fundo. O novo conselho escolherá a próxima diretoria.
Numa das últimas reuniões da diretoria de Furnas, que não tem poder sobre o conselho, ouviu-se um curioso comentário: se os conselheiros não atenderem aos desejos de Brasília, a Fundação Real Grandeza sofrerá intervenção da Secretaria de Previdência Complementar.
Caso clássico de ameaça de golpe antes de se saber o resultado de uma votação. Se o Real Grandeza deve sofrer intervenção, ela deveria ter sido feita ontem. Usar essa ameaça para influenciar os conselheiros é coisa de quem quer criar mais uma encrenca, como se não bastassem as existentes.
A principal pressão sobre o Real Grandeza vem da Câmara, mais precisamente, da banda ágil do PMDB, que já perseguiu a diligência em três outras ocasiões. O período de esplendor desse poderio sobre Furnas deu-se entre 2007 e 2008 quando a estatal foi presidida pelo ex-prefeito do Rio Luis Paulo Conde, um arquiteto que se doutorou em artes elétricas sob a orientação do deputado Eduardo Cunha. O PMDB do Rio tenta dominar as arcas de Furnas com tanto afinco que há poucos meses um diretor da estatal recebeu um pedido para fazer do departamento de produção de Campos um pudim de amigos.


"1808", um sucesso de simplicidade e trabalho


A história de d. João 6º chegou a 100 semanas na lista de mais vendidos porque o autor botou o pé na estrada

O "1808", do jornalista Laurentino Gomes, bateu a marca mágica dos sucessos editoriais e entrou na 100ª semana de presença nas listas dos livros mais vendidos. Para quem acha que brasileiro não lê, foram 500 mil exemplares. Na categoria de trabalhos de não-ficção de autores nacionais, a melhor marca está com "Estação Carandiru", do médico Drauzio Varela, lançado em 1999, que chegou a 160 semanas.
Há poucas semanas a professora canadense Margaret MacMillan publicou um livro sobre as atuais dificuldades da historiografia, contando que uma estudante decidiu estudar um período porque ele estava "subteorizado". Laurentino foi na direção oposta. No "1808" não se encontram expressões como "burguesia mercantil" ou "pacto colonial". É uma obra simples, dividida em 29 pequenos capítulos, contando a chegada de d. João 6º ao Brasil. Mostra que ele não foi o paspalho retratado pela burrice convencional.
Por trás do sucesso de "1808" há uma lição. Em 2007, quando Laurentino percebeu o próprio êxito, resolveu cavalgá-lo. Contratou uma assessoria que rastreou as vendas do livro, reinventou a obra lançando uma edição juvenil, um audiolivro, uma caixa com DVD, criou um sítio na internet e entrou no Twitter. Gastou R$ 300 mil do seu bolso (mas ganhou R$ 2 milhões). Deixou o emprego que tinha na Editora Abril e, nas suas palavras, "botei o pé na estrada". Visitou 60 cidades, fez 250 palestras, autografou 5.000 exemplares e respondeu a 10.000 e-mails.
É dura a vida de um autor. Há seis meses ele descobriu (graças aos leitores) que a Editora Planeta rodara 8.000 exemplares embaralhando capítulos de uma biografia de Indira Gandhi. Pior: esse reparte fora mandado para livrarias da internet para ser vendido a R$ 9,90 e acabara em livrarias a R$ 40.
Laurentino publicará em setembro de 2010 seu novo livro, "1822", pela Ediouro. Para recontar a história da Independência, ele foi ao sertão piauiense e visitou o campo da batalha de Jenipapo, em Campo Maior.
Nela morreram 400 brasileiros ignorados pela história. Deles há a lembrança dos túmulos e um monumento de concreto, perdido numa mata de carnaúba.


FISCAIS DA VIÚVA
O ministro Guido Mantega pôs o dedo na ferida ao revelar que, durante sua gestão (mais precisamente, em 2008), fortaleceu-se o setor de fiscalização da Receita Federal sobre instituições financeiras, que "estava carente". Põe carente nisso, até então a Viúva tinha 29 funcionários na fiscalização externa da banca paulista. Apesar dos muxoxos, esse número está em 44 e os novos auditores começaram a trabalhar há poucos meses. Numa atividade que nada tem a ver com o trabalho da Receita, a Prefeitura de São Paulo tem 602 fiscais para vigiar os ônibus fretados.

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e procura abandonar essa condição acompanhando o programa juvenil "Viva Pitágoras", da TV Cultura de São Paulo, mantida pela Viúva. Na quarta-feira o idiota surpreendeu-se com três interrupções para que se divulgasse a inauguração da "Universidade Virtual" criada pelo governo do Estado. Uma das interrupções durou quatro minutos e propagou um discurso do governador José Serra. Eremildo é um frequentador da TV Brasil, do governo federal e garante que nunca teve o prazer de ouvir Nosso Guia durante quatro minutos ininterruptos. O idiota concorda com Serra: "Não me venham escrever de novo que isso aqui é um lance para a campanha presidencial".

FÉRIAS
Nos próximos quatro domingos o signatário prestará sua solidariedade às centrais sindicais que lutam pela redução da jornada de trabalho, radicalizando a proposta: cumprirá jornadas sem trabalho.

TED KENNEDY
Para quem acredita na eternidade do poder e na memória curta das gentes. No dia 12 de julho de 1973, sendo presidente da República o general Emílio Garrastazu Médici e ministro da Justiça o professor Alfredo Buzaid, a censura emitiu a seguinte nota para a imprensa: "É proibido divulgar as denúncias do senador Edward Kennedy sobre torturas no Brasil".

VAMOS ALMOÇAR?
Está nas livrarias "Kissinger e o Brasil", do professor Matias Spektor. É um estudo exemplar da articulação (fracassada) do secretário de Estado Henry Kissinger para criar uma relação preferencial com o Brasil, entre 1974 e 1977. Poucas vezes uma fase da diplomacia nacional foi pesquisada com tamanha riqueza documental. O livro de Spektor conta dois episódios ilustrativos da displicência com que os americanos tratavam as relações com o Brasil. Em 1974, o vice-presidente Gerald Ford acabara de assumir o lugar de Richard Nixon e tinha uma reunião com o chanceler brasileiro Azeredo da Silveira. Recebera documentos preparatórios para a conversa e Kissinger procurou atualizá-lo. Deu-se o seguinte diálogo:
Ford: "Deixei meu papel na residência."
Kissinger fez o possível: "Geisel é o presidente, Silveira é o ministro das Relações Exteriores".
Noutro lance, Kissinger reuniu-se com o chanceler soviético Andrei Gromiko. O russo estava preocupado com o acordo nuclear assinado pelo Brasil e Alemanha e temia que disso resultassem bombas em Bonn e Brasília. O secretário de Estado americano deu uma resposta tranquilizadora, porém breve, e concluiu: "Vamos almoçar?"

País do faz de conta Gaudêncio Torquato

O ESTADO DE S PAULO
Houvesse um campeonato mundial de epítetos, o Brasil faria boa performance: somos o país da piada pronta, da improvisação e da bagunça. Por aqui, nada é certo, positivo ou medido. Somos a terra do "mais ou menos", onde "pois não" quer dizer "sim" e renúncias irrevogáveis se tornam revogáveis. Gilberto Amado, embaixador e gozador de nossos costumes, cunhou com propriedade o chiste: "O Brasil é um país aproximativo." Impropérios não devem ser levados a sério. Querelas públicas fazem parte do show. O ataque apoplético do senador Eduardo Suplicy, na terça-feira, ao exibir o cartão vermelho para expulsar da grande área do Senado o presidente José Sarney, foi um ato do teatro escatofônico em que se transformou a política. No dia seguinte o cartão ganhou as cores branca, azul e até rosa, sendo motivo de chacota. Também, pudera: o senador Suplicy, com sua fleuma, parece sempre chegar atrasado. Já a demissão de membros da cúpula da Receita Federal se impregnou do caráter político que eles pretendiam denunciar. Ou seja, ao pedir o boné, os demissionários agiram politicamente. Qual a motivação? Evitar política no Fisco. Para locupletar o acervo do faz de conta que marca o cenário institucional, o senador Tião Viana (PT-AC) propõe a extinção do Conselho de Ética do Senado. O argumento? Resgatar a moral da Casa. É risível.

A ideia de que o Brasil é a terra da improvisação ganha força principalmente no momento em que os motores pré-eleitorais começam a esquentar. Veja-se esse projeto do pré-sal preparado pelo Executivo e que tem a rejeição pública do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. A decisão do governo de substituir o regime de concessão, adotado atualmente para a exploração do petróleo, por contratos de partilha para as jazidas do pré-sal não agrada aos Estados e municípios produtores, que sofrerão fortes perdas com o novo sistema. Só o Rio de Janeiro deixaria de ganhar R$ 14 bilhões por ano. Para compor um programa que poderá conferir ao País a condição de grande produtor de petróleo seria oportuno um debate aberto com as cadeias produtora e consumidora, as organizações representativas da sociedade e a esfera política. Não houve. Concebido para encarnar interesses do governo, e não os do Estado, o projeto é mais uma fonte de atrito entre os entes federativos.

Eis o cerne da questão. Os limites do Estado e os espaços do governo se confundem. Quando o manto do Executivo cobre o mapa do Estado, passa a acolher um leque de contrafações. O lulismo tem caprichado na imbricação dos dois entes. Nunca se gastou tanto com os quadros funcionais e nunca houve tanta distribuição de feudos como nestes tempos de cooptação geral. O efeito é catastrófico: programas, escopos e modos de operação saem dos trilhos. Olhe-se para a balbúrdia no Fisco. O espírito de corpo manifestado por um grupo de demissionários sinaliza um viés sindicalista, politiqueiro e oportunista, que não combina com a identidade técnica que deve caracterizar o órgão. O que se sabe é que ocorreu ali uma grande mudança na cúpula, após os ciclos de Everardo Maciel e Jorge Rachid, com o ingresso de perfis carimbados pelo sindicalismo. Ora, as bandeiras sindicalistas, como se sabe, são desfraldadas por poderosas centrais, cuja ação política é visível. O argumento de que a Receita deixou de fiscalizar grandes contribuintes é lorota, pois desde 2005 as grandes empresas têm respondido por mais de 86% da arrecadação do IRPJ.

A queda da receita deve-se ao refluxo da economia em tempos de crise - a "marolinha" de Lula tinha, afinal, de apresentar a conta - e ao pacote de isenções que o governo preparou para embalar o sono de cerca de 60 milhões de brasileiros: 20 milhões agasalhados pelo assistencialismo que os jogou na rede de consumo e 40 milhões beneficiados com o programa de isenções para os produtos da linha branca, motos e automóveis. Se somarmos esses benefícios à queda da produção - em alguns setores alcançou 40% -, teremos a equação responsável pelo ingresso menor de recursos nos cofres do Tesouro. Sob esse entendimento, a rebelião na Receita ganha coloração política, sendo fruto do açodamento de grupos que disputam poder. E por que isso acontece? Por conta dos buracos abertos pelo presidencialismo. Os órgãos de Estado passam a ser braços e pernas dos governos. Seria inimaginável uma crise no Fisco num sistema de governo parlamentarista. Os corpos técnicos seriam preservados mesmo sob grave crise política.

Outro campo minado pela politicagem é o das relações trabalhistas. O governo Lula entregou essa seara às centrais sindicais, cuja ação avassaladora se entranha no corpo do Estado, não para injetar sangue novo, mas para conservar os velhos privilégios. Não satisfeitas com as polpudas verbas que abocanham - R$ 116 milhões este ano -, promovem espetáculo na Esplanada, ameaçando jogar na fogueira os parlamentares que não rezarem por sua cartilha. Fazem cerco ao Congresso para reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas, desprezando estudos que demonstram o impacto da medida sobre o sistema produtivo: aumento de 8% no custo de produção. Quem for contra a bandeira das 40 horas poderá ter o nome exposto em praça pública como traidor da Pátria. O ideário trabalhista no País vive preso no curral antiquado da CLT, sem receber o oxigênio modernizante que toma conta dos pulmões do trabalho em nações desenvolvidas. O cabresto das centrais segura o burro do trabalho, tirando-o do caminho dos avanços. Políticos e empresários morrem de medo da "guerra do barulho" travada pelas endinheiradas máquinas sindicais.

O mapa institucional está cheio de furos. As tentativas de tapá-los são inconsistentes e até grotescas. O Senado atravessa um calvário sem fim. Agora, prega-se o resgate da ética pela extinção do Conselho de Ética. O argumento é o de que parlamentar não pode julgar colega. Mais uma asneira. Será que ninguém pensou na montanha de processos que chegaria ao STF? A judicialização tomaria conta da política. Quanta falta de senso. 

Uma decisão presidencial Sergio Fausto

O ESTADO DE S APULO

É de Luiz Werneck Vianna a frase que possivelmente melhor define a dinâmica da política brasileira nos últimos 15 anos. Diz o sociólogo carioca que PSDB e PT disputam entre si, no nível nacional, para ver quem lidera o "atraso".

O que é o "atraso" para Werneck Vianna? É a forma tradicional de fazer política no Brasil, que se caracteriza pela conquista de posições de poder e privilégio no governo central em benefício de grupos políticos e familiares de base regional.

A liderança do PSDB se exerceu sob Fernando Henrique; a do PT, sob Lula. O aspecto contraditório dessa "fórmula de governo" é que a liderança dos setores mais "modernos" requer compromissos com o próprio "atraso". Primeiro, porque não é possível governar sem alianças. Segundo, porque PSDB e PT disputam quase o mesmo território político e jamais cogitaram seriamente de se aliar contra o "atraso". Portanto, na fórmula adotada nos últimos 15 anos, a questão-chave a avaliar, para um e outro partido, a cada momento, a cada questão, diz respeito ao tamanho do preço a pagar em nome da "modernização" democrática do País.

Na crise do Senado, o presidente Lula resolveu pagar o preço de dar ampla, total e irrestrita sustentação a Sarney. Moveu-o alguma consideração relativa a reformas pendentes ou conquistas democráticas a defender, que dependeriam do apoio do grupo majoritário no PMDB? Sabemos que não. A decisão presidencial foi exclusivamente motivada pela importância atribuída ao apoio do partido - por sua estrutura municipal e estadual e, principalmente, pelo tempo a que faz jus no horário eleitoral "gratuito" - à candidatura de Dilma.

A esta altura, é cedo para dizer qual o resultado eleitoral da decisão de Lula. É incerto se os votos que certamente Dilma perderá entre os eleitores mais informados, em maior número nos centros urbanos, serão compensados, com sobra, pelos votos dos eleitores mais suscetíveis à propaganda eleitoral e aos fatores locais de definição do voto, nos municípios menores. Não há dúvida, porém, dos danos que a decisão do presidente Lula inflige a seu próprio partido, cujas história e imagem estão ligadas aos setores mais "modernos" da sociedade brasileira, que repudiam as práticas políticas típicas do "atraso".

A decisão de Lula tem implicações, ainda, para a equação de poder num eventual futuro governo de sua hoje candidata, mais amarrada do que nunca ao PMDB comandado por Sarney e Renan. Que condições terá Dilma, se vitoriosa, de liderar o "atraso" no próximo mandato presidencial? Ela que não tem peso político específico nem sequer dentro de seu próprio partido. Dessa ótica, a decisão presidencial produz danos que vão além de seu próprio partido e além do momento presente. Lula deu fôlego ao "atraso", quando este poderia ter sofrido uma derrota exemplar.

A decisão presidencial não é, por outro lado, um episódio de todo surpreendente. O governo Lula teve dois modelos de gestão de alianças. O primeiro deu preferência à negociação de espaços políticos, no Congresso e no Executivo, com um conjunto de médios e pequenos partidos, em especial o PTB e o Partido Liberal, hoje Partido da República (sic). Esse modelo naufragou com a crise do "mensalão". Em lugar do arranjo miúdo, implantou-se o modelo da grande aliança com o maior partido no Congresso, o PMDB. O grupo de Sarney e Renan fortaleceu-se justamente nesse processo de negociação, ampliando seu controle sobre o Senado e sobre o partido, além de sua participação no governo e no Estado. Vista dessa perspectiva, a decisão presidencial foi longa e metodicamente construída.

Precisava ter sido assim? A verdade é que Lula não necessitava de alianças tão amplas quanto as que se impuseram ao governo FHC. Este se propôs a fazer várias emendas à Constituição e estava como que obrigado a formar e manter maiorias parlamentares iguais ou maiores que três quintos nas duas Casas do Congresso. Lula, por sua vez, jamais teve uma agenda legislativa ambiciosa e, se tinha, logo desistiu dela. Não estava, portanto, forçado a compor uma supermaioria.

Poderia ter havido alianças de tipo diferente? Poderia, se o governo tivesse chamado a oposição, em especial o PSDB, para um acordo em torno de uma agenda parlamentar comum. Vínhamos de uma transição civilizada de governo e não havia no PSDB uma rejeição a priori, como no governo de FHC houvera por parte do PT, a um diálogo em torno de uma agenda parlamentar comum. Um acordo dessa natureza, sem participação tucana no governo, permitiria diminuir o peso relativo do "atraso" no condomínio do poder e não implicaria borrar a identidade e os projetos políticos dos dois partidos. Lula, no entanto, decidiu investir retoricamente contra a "herança maldita" e pescar apoio em águas mais turvas. Ainda uma vez, ao lançar-se na operação para poupar Sarney, contra parte dos parlamentares e da base do seu partido, confirmou essa opção.

Torço para que não tenha sepultado essa agenda em definitivo, mantendo-a como uma possibilidade aberta para o próximo mandato presidencial, seja quem vier a ser o ocupante do Palácio do Planalto. Com todos os seus muitos defeitos, PSDB e PT estão entre os pouquíssimos partidos minimamente programáticos que a sociedade brasileira conseguiu produzir desde que começou a sair do regime autoritário. É bom que não se misturem, preservando duas ofertas eleitorais diferenciadas. Mas é importante que busquem construir, sem exclusivismos, uma nova fórmula de governo. A da aliança preferencial com o "atraso", que Lula levou ao paroxismo, esgotou-se.

Pode ser que ainda esteja apta a assegurar a governabilidade no próximo mandato, no sentido mais mesquinho e conservador do termo, mas não será capaz de nos livrar do entulho secular de privilégios, favores e transações público-privadas que teima em sobreviver.

MARIANO GRONDONA La última batalla del matrimonio presidencial

LA NACION

Si se las analiza por separado, el veto presidencial de la ley que el Congreso había votado unánimemente para darle algún respiro al campo, el proyecto de una nueva ley de radiodifusión destinada a ahogar la libertad de expresión del periodismo audiovisual, el discurso en el que Néstor Kirchner anunció "la profundización" de ese mismo "modelo" que había sido derrotado ampliamente en las urnas el 28 de junio y la sorpresiva "borocotización" de algunos políticos a quienes se tenía hasta ayer por opositores parecen batallas distintas, pero en realidad son los frentes convergentes de una única batalla: la que acaban de lanzar los Kirchner no ya para "cuidar" el poder hasta que termine el mandato de Cristina, sino para "prolongarlo" mediante la obtención de un tercer período presidencial consecutivo en 2011, ya sea en cabeza de la propia Cristina o, más probablemente, de su marido.

Si el objetivo final de los Kirchner a partir de 2003 ha sido obtener todo el poder, todo el tiempo , el lanzamiento simultáneo de estas batallas en los más diversos frentes sugiere que los miembros de la pareja presidencial continúan iguales a sí mismos pese a la aguda desaprobación popular que están sufriendo. Como este empecinamiento parece contradecir cualquier explicación lógica, no son pocos los observadores que, al no poder procesarlo desde la óptica de un análisis racional de la realidad, han empezado a atribuirlo a causas psicológicas. Algunos hablan así del carácter paranoide que a veces acompaña a los afectados por una desmedida ambición de poder, mientras que otros, aludiendo a la intensa influencia recíproca que dejan ver los miembros de la pareja presidencial, apelan a una inquietante expresión del psicoanálisis francés, la fol ie à deux, aunque esperamos que éste no sea el caso, en tanto que el filósofo Santiago Kovadloff, en un artículo para LA NACION de anteayer, ha apelado a la idea no ya del desequilibrio psicológico del apetito desmesurado de poder, sino del desequilibrio "moral" de la perversión , esto es, de la incapacidad de arrepentirse, de "sentir culpa", por la comisión de excesos que dañan a un país.

Del "dúo" al "coro"

La desmesura que están exhibiendo los Kirchner en estas horas críticas para el país no habría sido posible, sin embargo, sin el acompañamiento de otras conductas que les han sido funcionales, como si un presuroso coro se sumara al dúo protagónico del poder en esta hora incierta. Para comenzar por el último ejemplo de los que enumerábamos al comienzo, ¿cómo explicar la marea de "borocotizaciones" que, últimamente, ha venido subiendo? Quizá de una manera injusta, porque el término "borocotización" también debería aplicarse a otros actores políticos, este neologismo nació inmediatamente después de las elecciones parlamentarias del 23 de octubre de 2005, cuando el candidato a diputado por la Capital Eduardo Lorenzo "Borocotó" se pasó en menos de lo que canta un gallo de Pro al kirchnerismo. Ahora, a cuatro años de aquel escándalo, tanto la senadora "reutemannista" Roxana Latorre, que facilitó el tratamiento de los superpoderes en el Congreso, como la hasta ayer militante ruralista María del Carmen Alarcón, que ha sido aceptada para ocupar un cargo público al lado del jefe de Gabinete, Aníbal Fernández, se han sumado al despliegue del Gobierno.

Habría que agregar a estas desconcertantes noticias la otra sorpresa que estalló cuando un buen número de legisladores nacionales, supuestamente independientes, salieron a apoyar la prolongación de los "superpoderes" en favor del Poder Ejecutivo, que obtuvo holgadamente más votos que aquellos que no habían podido impedir la derrota del oficialismo en el Congreso en julio de 2008, cuando se debatió la famosa resolución 125. Después de la derrota electoral del oficialismo el 28 de junio, algunos supusieron que la menguada mayoría que aún tenía en el Congreso estaba destinada a reducirse aún más. Pero pasó lo contrario. El pueblo marchó en aquella fecha en una dirección, pero un buen número de legisladores, autodenominados "progresistas", marcharon en dirección contraria.

¿Habría que hablar aquí de un fenómeno de corrupción en algunos segmentos de la clase política? Es difícil afirmarlo sin pruebas en la mano porque los actos de corrupción, por definición, son clandestinos. Es imposible no recordar aquí, empero, el acongojado escepticismo que mostró el gran analista Walter Lipmann cuando, en un estudio sobre la corrupción política, se hizo la siguiente pregunta: aquellos a quienes no los anima una alta motivación ética o patriótica, ¿por qué habrían de dedicarse a la actividad política si no fuera para obtener más ingresos que en la actividad privada?

Entre el apuro y la cautela

La batalla por el poder entre los Kirchner y la oposición que ahora se libra con creciente intensidad es en cierto modo asimétrica porque, en tanto que aquéllos azuzan sin cesar la vorágine de los enfrentamientos, ésta se mueve acompasadamente. Los Kirchner actúan como si les fuera la vida en cada jornada, mientras que sus opositores actúan como si tuvieran todo el tiempo del mundo. Aquéllos apuntan obsesivamente al corto plazo, en tanto que éstos miran al mediano y al largo plazo. La batalla en la que ambos bandos están comprometidos se asemeja de este modo a la pugna entre unos agresivos "tanques", los pocos que les van quedando al kirchnerismo, y una masa mayoritaria aunque dispersa de infantes bienintencionados. Es lógico imaginarla entonces como el combate entre dos fuerzas metodológicamente desiguales. Véase, si no, lo que está ocurriendo entre el Gobierno y el campo. Se observa que el paro que desde ayer han vuelto a protagonizar los ruralistas es el séptimo sufrido por el oficialismo en estos últimos diecisiete meses. Pero también hay que reconocer que, si el campo ha acudido otra vez al paro, lo ha hecho después de haber apelado nuevamente al diálogo aunque sin efecto alguno, mientras la instantánea reacción del Poder Ejecutivo al vetar una ley unánime del Congreso destinada a aliviar el azote de la sequía mostró una vez más que no lo guía una consideración reposada de los problemas de la producción agroindustrial, sino la decisión de prolongar sin término su revancha contra el sector que lo derrotó hace un año.

El gobierno de los Kirchner, ¿no está pensando entonces en "el bien común" de los argentinos, que estaría al alcance de sus manos con sólo rectificar su "modelo" de dominación absoluta para pensar en la producción del país, sino en el "mal de algunos", desde el campo hasta la oposición, a los que juzga sus enemigos? Por eso estamos ahora ante esta puja entre el Gobierno y los que disienten de él, que corre el peligro adicional de que los medios de comunicación audiovisual, que son una de las cajas de resonancia de nuestra vida pública, puedan vivir ahora bajo la espada de Damocles de una nueva ley que, de ser aprobada, incluiría la concesión por sólo dos años de las licencias de las radios y los canales de televisión como una manera de interponer, entre los Kirchner que persisten y el pueblo que ya no los vota, un vidrio oscuro que separe, de un lado, lo que sucede en la realidad y, del otro, una imagen distorsionada de ella hecha a la medida de lo que aspiran a comunicar los titulares del poder. Pero la democracia consiste, después de todo, en la soberanía del pueblo. No hay mayor insolencia que burlarla precisamente en nombre de ella, con el propósito de desinformar a un pueblo que, en su mayoría, ya no desea vivir en una niebla de tapujos y mentiras.

JOAQUÍN MORALES SOLÁ Los Kirchner y una apuesta a todo o nada

LA NACION

Jugar a todo o nada. Esa es la estrategia que Néstor Kirchner anunció ante los parroquianos de Olivos. El ex presidente ya anda por el poder sólo con lo muy poco que lleva puesto, pero ha decidido apostar como lo hacen los jugadores compulsivos. En el fondo, su proyecto no es otra cosa que su futura candidatura presidencial en nombre de un progresismo marginal e indocumentado. El momento de esa competencia lo fijará él mismo, aun cuando haya perdido hasta la ropa. Esa transición desconocida en sus términos conlleva una pregunta que carece de respuesta: ¿cuánto daño está todavía en condiciones de hacer el kirchnerismo hasta alcanzar esas pobres metas personales?

En la noche del miércoles último, en la inclemente Tres de Febrero, Kirchner les pidió ayuda a varios intendentes del conurbano para librar dos batallas que calificó como fundamentales: contra el campo y contra los medios de comunicación. Kirchner recurre a los barones peronistas del conurbano como si éstos tuvieran la solución para todos sus males. Los barones están cansados de Kirchner. El enclenque líder político sólo les habla; ya no pregunta ni escucha. La relación de los intendentes con el ex presidente es más fría que tibia. El ex presidente les cuenta historias de derrotas que los otros conocen mejor que él, tanto en su descripción como en su análisis. Néstor no se resigna a que la gente ya no lo quiere , dijo uno de esos barones con inmejorable capacidad de síntesis.

Kirchner insiste. Es el más pejotista de los presidentes peronistas de los últimos 25 años. Extrañamente,pejotismo fue un neologismo que inventó el propio Kirchner para subestimar la influencia de las estructuras partidarias. Carlos Menem elaboró en su momento un contrato implícito con otros sectores sociales, y a Eduardo Duhalde le gustaba seducir también a Oscar Alende o a dirigentes empresarios de su provincia. Duhalde era el jefe de los barones del conurbano, pero nunca se paseaba con ellos por las pasarelas de la política.

La relación entre los Kirchner y la oposición está hecha trizas. Los líderes radicales y socialistas que hablaron con Florencio Randazzo, en el marco de un diálogo arruinado, tuvieron un encuentro muy secreto pocos días después con el jefe de Gabinete, Aníbal Fernández. El diálogo será conmigo. Lo otro fue para la foto , los desayunó el ministro, entre las sombras. Los interlocutores de la oposición le pidieron pruebas de esos poderíos. Va una: Guillermo Moreno se irá del Gobierno en 20 días , les aseguró Aníbal Fernández. Han pasado casi dos meses y Moreno tiene ahora más poder que el que tenía entonces.

¿Hasta dónde llegarán en esa carrera de huracanes y de inmolaciones? Es probable que radicales y socialistas traten de convencer a los demás opositores para que la oposición no asista a ninguna reunión parlamentaria por la ley de radiodifusión. Ni en las comisiones ni en los recintos. Deberá existir una foto donde estarán los que hayan estado, incluidos los aliados de centroizquierda del Gobierno , dijeron. En una medida menor y parcial, esa reacción se parece mucho a la de la oposición al chavismo venezolano, que directamente decidió no presentarse a elecciones.

La Corte Suprema de Justicia empieza a ser vista ya con cierto reproche por algunos sectores de la oposición. El jefe del bloque de senadores radicales, Ernesto Sanz, le reclamó públicamente al tribunal que se pronuncie, por ejemplo, sobre los decretos de necesidad y urgencia. ¿Son esas medidas constitucionalmente excepcionales o habituales? Hay algunos casos sobre esos decretos que ya están en manos del máximo tribunal del país. No es un reclamo desinteresado. La oposición cree que el kirchnerismo gobernará a partir del 10 de diciembre, cuando haya perdido la mayoría parlamentaria, a través del veto presidencial y de los decretos de necesidad y urgencia. Sería la virtual clausura de un Congreso indócil. Urge que la Corte fije un criterio de equilibrio institucional , sostiene Sanz.

Kirchner quiere irse, si se tiene que ir, con la bandera de que lo echaron la "presión mediática", el " poolsojero" o "el poder económico concentrado". El proyecto de ley de radiodifusión estremeció de inquietud hasta a los dueños de las radios FM de los pueblos más remotos del interior. No saben quién será el próximo. Cristina Kirchner está más convencida que su marido de que esa batalla debe suceder. Lo dice en la intimidad y hasta acusa a su esposo de haber sido tibio y negociador en sus años de poder. Es ahora una Juana de Arco que se alzó en armas no en defensa de una nación, sino de una facción.

Su esposo es el único candidato presidencial que existe, más por lo que hace que por lo que dice. Su proyecto consiste en convertirse en el referente de un progresismo de suburbio que quedaría huérfano con candidatos como Julio Cobos, Carlos Reutemann, Mauricio Macri, Daniel Scioli o Felipe Solá. El momento de la retirada lo decidirá también el matrimonio presidencial, porque prefiere a sus opositores en el actual estado de desnudez. Todos ellos están en la lenta construcción de alternativas electorales que todavía carecen de candidatos y de programas.

El combate con el campo es crucial en ese mapa de la guerra incesante. Néstor Roulet, vicepresidente de CRA, nunca dijo lo que le hicieron decir en los fundamentos del decreto que vetó las exenciones del pago de retenciones a los productores de las zonas afectadas por la sequía. En una mesa de café, conversando entre chacareros, Roulet dijo irónicamente que ellos tendrían que sembrar en las zonas eximidas de retenciones. Un periodista lo escuchaba en una mesa vecina y publicó que Roulet había propuesto que la comercialización de toda la soja se hiciera por esos lugares exceptuados. Una ironía se convirtió entonces en la incitación a un delito. Sea como sea, la frase escrita por aquel periodista y publicada por un diario fue un argumento duro y formal del decreto que vetó las exenciones. El Gobierno usa trozos de escombros cuando se queda sin municiones.

No sabemos hasta cuándo podremos contener a la gente para que no vaya a las rutas , vaciló uno de los cuatro dirigentes de la Comisión de Enlace. La bronca y la decepción de los productores son cada vez más grandes. La sequía sigue devastando importantes zonas rurales. Las vacas se mueren de sed y de hambre. El Gobierno no tiene la culpa de que no llueva, pero es visiblemente insensible. El veto presidencial a las exenciones fue el mensaje más claro de indiferencia y porfía hacia los productores rurales.

Aníbal Fernández se quedó con María del Carmen Alarcón, a la que puso a cargo de la relación con el ruralismo. No hizo una hazaña: Alarcón empezó cerca de Carlos Reutemann, luego se pasó al Pro, más tarde recaló en el socialismo de Hermes Binner y ahora desembarcó en el kirchnerismo. La faena del ministro fue un arrebato callejero más que una cooptación. Fernández hizo trascender que había tomado a Alarcón para tenderles un puente a las entidades rurales, pero éstas creen que fue otra medida de ofensa hacia ellas. Después del turismo político de Alarcón, las entidades decidieron, hace rato ya, bajarla de todos palcos del ruralismo. Alarcón nunca se los perdonó y los cuatro principales líderes rurales nunca se olvidaron de ella.

Nadie está seguro en la Argentina de los Kirchner. Las empresas productoras de energía creen que ellas podrían ser el próximo objetivo del terco cazador si prosperara la ley de radiodifusión. En Santa Cruz, un gobernador convertido en fanático líder obrero resolvió sin neutralidad una huelga de trabajadores petroleros de casi tres semanas. Kirchner no se opuso. ¿El principio de otra encerrona? Nadie lo sabe. Kirchner no tiene mucho, pero lo poco que tiene está dispuesto a jugarlo, en efecto, a todo o nada.

Cenários para o futuro presidente Merval Pereira

O GLOBO


Tomando por base a opinião generalizada entre os especialistas de que o cenário mais provável para o Brasil até o ano que vem é o de uma gradual aceleração do crescimento econômico, uma análise prospectiva dos economistas Claudio Porto e Rodrigo Ventura, da consultoria Macroplan, indica a possibilidade de dois caminhos para o país no período de 2011-2014, primeiro mandato presidencial do sucessor (ou sucessora) do presidente Lula. Um onde prevalecem ajustes estruturais, e outro de meras adaptações incrementais, que pressupõe a continuidade da estratégia atualmente em curso.

No primeiro cenário, o setor privado seria o principal "motor" do crescimento econômico, enquanto no segundo esse papel seria atribuído ao Estado, incluindo suas empresas.

No cenário de ajustes estruturais, a combinação das ameaças e oportunidades decorrentes da crise econômica mundial e dos resultados das eleições de 2010 impulsionaria um novo ciclo de mudanças econômicas que envolveriam a combinação de medidas anticíclicas orientadas à redução de riscos de cur to prazo e à sustentabilidade do crescimento a médio prazo.

Para atingir esses objetivos, o novo governo usaria investimentos públicos de grande porte e elevado poder multiplicador, com bom potencial de impacto na competitividade, como investimentos para superação de gargalos de infraestrutura e mobilidade urbana, por exemplo.

Seria dado forte incentivo aos investimentos privados por meio de financiamentos e garantias de crédito; desonerações fiscais horizontais, como redução de encargos nas folhas de pagamento e bônus fiscais, tipo abonos salariais temporários; e redução agressiva dos juros e forte contenção das despesas públicas de custeio.

O pano de fundo dessa gestão seria a retomada da agenda de reformas econômicas (tributária, previdenciária e trabalhista), de melhoria da gestão pública (desburocratização e fortalecimento dos marcos regulatórios e das agências reguladoras), e de renovação da agenda ambiental (maior proatividade e ênfase na exploração econômica das oportunidades associadas à sustentabilidade ambiental).

Os investimentos em infraestrutura seriam acelerados com a atração de empreendedores privados nacionais e estrangeiros para participação em grandes projetos, como os de expansão da infraestrutura logística (portos, aeroportos, ferrovias, rodovias e hidrovias), energética (hidrelétricas, petróleo, gás e renováveis) e urbana (transporte de massa, habitação, urbanização e despoluição).

Já o cenário de adaptações incrementais pressupõe a continuidade, com ajustes eventuais, da estratégia de travessia atualmente em curso, com a adoção de medidas anticíclicas capazes de produzir efeitos mais imediatos, mitigando riscos econômicos (e políticos) de curto prazo. Essas medidas viriam, predominantemente, por meio da expansão das despesas públicas correntes em caráter temporário ou permanente (especialmente transferências de renda, custeio, despesas de pessoal e aposentadorias), de mais fácil execução que os investimentos públicos, e têm impactos imediatos na renda e no consumo.

O estímulo à expansão do consumo doméstico seria baseado também em desonerações fiscais setoriais. Seriam feitos novos avanços incrementais na agenda de reformas econômicas (tributária, previdenciária e trabalhista), do Estado e da gestão ambiental, como aconteceu nos primeiros anos do governo Lula, com melhorias localizadas no desempenho da gestão pública, especialmente nas áreas de educação e saúde.

Mantida a baixa capacidade de execução dos investimentos públicos diretos, o governo atrairia empreendedores privados, nacionais e estrangeiros, para investimentos em grandes projetos, predominantemente em parceria com empresas estatais, ampliando a presença do Estado na economia.

Os economistas Claudio Porto e Rodrigo Ventura, da Macroplan, não deixam de apostar em qual seria o melhor cenário.

Para eles, a combinação do cenário doméstico de ajustes estruturais com uma superação eficaz da crise mundial representaria "o primeiro passo da construção de uma estratégia consistente de crescimento econômico sustentado".

A manutenção desse ambiente interno numa perspectiva de longo prazo poderia levar o Brasil a uma mudança de patamar ou, no caso de o ambiente internacional evoluir favoravelmente, até mesmo ao ingresso do país no seleto grupo das economias avançadas, num horizonte de 20 anos.

Essa possibilidade, afirmam, ilustra o primeiro passo de uma trajetória semelhante à percorrida pela Coreia do Sul nos últimos 40 anos. Em 1969, o PIB per capita brasileiro era o dobro do coreano. Hoje, o PIB per capita coreano é quase o dobro do brasileiro, fruto de quatro décadas de fortes reformas e investimentos orientados a educação, desenvolvimento tecnológico e industrial.

Novos caminhos Miriam Leitão

O GLOBO

O prazo de retorno do investimento em rodovia na Amazônia é de 14 anos; em ferrovia, de nove anos; e em hidrovia, de três anos. A emissão de carbono em rodovia é oito vezes maior do que em hidrovia. É preciso 200 carretas para transportar a carga de seis barcaças. Por um estudo do Ilos (Instituto de Logística e Supply Chain), do ponto de vista econômico e ambiental, o rodoviarismo do PAC não faz sentido.

É preciso pensar em outros modais, e incluir a conta ambiental antes das decisões, explica o professor Paulo Fernando Fleury, da equipe que preparou o estudo para um seminário do instituto, em setembro. Na Amazônia, em vez de pensar sempre em rodovias, o governo deveria comparar outros meios de transporte.

O estudo compara as possibilidades de se chegar ao Porto de Santarém, que de acordo com a projeção sobre o escoamento futuro da soja é bastante competitivo.

Uma possibilidade seria uma ferrovia de 1.650 quilômetros, ligando Sinop, em Mato Grosso, a Santarém, no Pará. Outra possibilidade seria viabilizar a movimentação da soja pela hidrovia Teles Pires-Tapajós. A hipótese rodoviária seria a BR163, cuja pavimentação é prevista no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

O Porto de Santarém tem um terminal com capacidade de armazenamento de 60 mil toneladas e sua ampliação está temporariamente suspensa por razões ambientais.

O mais interessante do estudo é que quando ele simula os outros modais é possível ter uma noção do que o governo deveria fazer, e não faz, nas obras que impõe ao país: não compara alternativas numa avaliação mais ampla de custo e retorno.

Normalmente, se vê apenas o investimento inicial.

Ele, de fato, é menor na hipótese rodoviária. Seria de R$ 1,55 bilhão o investimento necessário para acabar de pavimentar a BR-163; na ferrovia projetada, o custo seria de R$ 4,15 bilhões; na hidrovia, R$ 2,9 bilhões.

Num primeiro olhar, parece que o custo da rodovia é mais baixo, mas o estudo do Ilos foi adiante. Viu a manutenção, por exemplo. Numa rodovia, ela teria que ser feita a cada nove anos; numa ferrovia, após 20 anos; e numa hidrovia, a cada 30 anos.

O prazo para retorno do investimento seria de 14 anos na rodovia, nove anos na ferrovia e três anos na hidrovia.

O custo do transporte seria de R$ 94,7 por tonelada a cada 1.000 quilômetros na rodovia; R$ 56,9, na ferrovia; R$ 42, na hidrovia.

O que, na rodovia, exigiria 200 carretas para transportar pode ser levado em um trem de 77 vagões ou um comboio de seis barcaças.

O estudo mostra que, apesar de uma rodovia na Amazônia exigir um investimento menor inicial, ela tem um custo maior de manutenção, um frete mais caro, transporta menos e polui muito mais. Isso, sem considerar outros custos ambientais, como o incentivo ao desmatamento que uma rodovia na Amazônia produz. O estudo calcula que só no combustível queimado no transporte, a emissão de carbono numa rodovia é oito vezes maior do que numa hidrovia, e numa ferrovia é 1,7 vezes maior do que na hidrovia.

— O consumo de diesel da ferrovia seria quase duas vezes o da hidrovia, o consumo de diesel da rodovia seria cerca de 17 vezes o da hidrovia — diz Fleury.

O objetivo do estudo é imaginar o futuro do escoamento da soja, levando-se em conta que haverá maior adensamento da produção da soja no interior do país, que precisará chegar aos portos. Em 2007, foram produzidas 29 milhões de toneladas de soja para exportação; em 2020, a projeção indica que o país estará produzindo 59 milhões de toneladas: duas vezes mais. Em todos os cenários, os portos de Santarém e Paranaguá "apresentam elevado potencial de crescimento na movimentação da soja". Pelo estudo, "com infraestrutura adequada e otimização logística de exportação de soja é possível reduzir em até 9,5% os custos atuais".

Fleury diz que como o aumento da produção será grande — 30 milhões de toneladas — todos os portos podem ter aumento de volume, mas alguns são bem mais competitivos do que outros. As obras têm que ser previstas dentro dessa visão integrada que busca o mais eficiente do ponto de vista logístico. Do contrário, o governo acaba dispersando recursos.

A falta de avaliação mais ampla do que seja custo faz o governo optar preferencialmente por rodovias na Amazônia, que são mais caras quando se avalia outros itens de custo; incentivam o desmatamento; e aumentam as emissões de gases de efeito estufa que serão cada vez mais uma restrição para as empresas e para os países.

Dias atrás, grandes empresas e entidades do país assinaram uma carta se comprometendo a medir anualmente tudo o que emitem de gases de efeito estufa, na sua atividade produtiva; o inventário de emissões. E se comprometem a reduzir essas emissões. Isso seria mais fácil se, num programa como o PAC, fosse considerada a variável ambiental. Com ela, aumentaria a competitividade de obras que viabilizassem modais menos poluentes.

As empresas não assumem esse compromisso apenas para ficar bem na foto do ambientalmente correto, mas porque no futuro o carbono será taxado, e as exportadoras serão cobradas pelos seus clientes no mundo desenvolvido sobre o grau de emissão das suas atividades produtivas.

O governo reage às cobranças dos órgãos ambientais às obras do PAC na Amazônia como se fossem barreiras ao crescimento. Se tivesse uma visão mais abrangente poderia concluir que o meio ambiente é o indispensável aliado do novo desenvolvimento, e a variável que falta nas suas equações.

Saio de férias por 20 dias.

Fica neste espaço Regina Alvarez, grande jornalista de economia que vocês conhecem bem das análises e reportagens de Brasília.

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