sábado, agosto 22, 2009

Miriam Leitão As dissonâncias

O GLOBO 


As economias mundial e brasileira sofrem de dissonâncias. É o que acha o economista José Roberto Mendonça de Barros sobre os indicadores diferentes e até divergentes dos últimos dias. O economista Gustavo Loyola acha que no Brasil atual estão sendo cometidos "pequenos assassinatos institucionais", como o estatismo, a volta da CPMF e o enfraquecimento das agências regulatórias

Dissonâncias. Alemanha e Japão, duas máquinas exportadoras, estão saindo da recessão graças à exportação de máquinas para a China, mas as bolsas do Japão e da China despencaram no dia seguinte à notícia japonesa.

Ontem, as bolsas subiram fortemente no mundo inteiro por notícias boas do mercado imobiliário americano e o discurso do presidente do Fed, Ben Bernanke. Mas há uma semana estava todo mundo preocupado com o consumo americano. Há países saindo da crise mais cedo, há países ainda afundados em quedas fortes como Rússia, Chile e México.

— Há dois movimentos paralelos. Alguns países continuam mantendo PIB positivo, e outros ainda com indicadores negativos. As bolsas estão refletindo essa dissonância — diz José Roberto Mendonça de Barros.

Gustavo Loyola acha que a dissonância de agora é que o mundo está saindo da crise mais rápido do que se imaginava, mas deixando contas altas a serem pagas pelos efeitos colaterais dos remédios utilizados: — Eu acredito que é inevitável um crescimento baixo nos grandes países que se endividaram demais agora.

A sociedade terá que pagar esses excessos. Isso vai virar dívida ou aumento de imposto.

Há dissonâncias criadas pelos erros de avaliação do mercado financeiro, na opinião dos dois veteranos consultores.

— Outras bolhas podem se formar porque os erros cometidos pelos analistas do mercado financeiro são os mesmos. Eles repetem os erros porque há sempre analistas novinhos em folha, terminando seus MBAs, e acreditando em algum Prêmio Nobel reincidente — disse Mendonça de Barros.

Loyola se divertiu com a avaliação e concordou: — Dizem que o mercado é como um computador com muita capacidade de processamento e pouca memória.

Esta semana foi dissonante.

Aqui, na quinta-feira, saíram os números do desemprego e da arrecadação. No desemprego, alívio: o índice caiu, enquanto aumentaram a População Economicamente Ativa, a massa salarial e a renda. Na arrecadação, mais um alerta vermelho. Caiu pelo nono mês. Caiu pela crise, que reduz a arrecadação, e caiu pelos incentivos do governo para tirar o país da crise.

Além disso, os gastos estão aumentando em custeio, e em rubricas que não poderão ser reduzidas.

— O próximo governo terá um trabalho enorme para reequilibrar as despesas.

Elas poderiam até ter alta real, desde que ficassem abaixo do crescimento do PIB — disse Loyola.

— Até agora, o governo gastou o que tinha e por isso a dívida/PIB não subiu. Mas perigosamente começa a gastar o que não tem, anunciando aumento real a aposentados mesmo com o déficit da Previdência e com essas ideias que elevam o gasto previdenciário que estão no Congresso — disse José Roberto na entrevista que ambos me concederam na Globonews.

Para ele, o Brasil está pagando um preço à vista menor do que outros países, mas pode vir a pagar um preço maior a prazo. Em larga medida pelo gasto público errado e pela queda dos investimentos.

A tese de Loyola é que o governo está praticando "pequenos assassinatos institucionais", quando desestrutura as agências reguladoras, quando aumenta os gastos correntes, quando cria estatais e refaz o estatismo, quando recria a CPMF , tudo isso revogando avanços conseguidos anteriormente.

— Imagino o investidor da área de petróleo, que está há dez anos investindo, diante das ideias do Pré-Sal.

José Roberto acha que há uma diferença boa entre a economia brasileira e mundial que pode nos favorecer na retomada.

— Aqui, o mercado imobiliário não entra como problema e sim como solução.

O crescimento do mercado é resultado da evolução do aparato institucional na área nos últimos 15 anos. O mercado imobiliário joga a favor e não contra.

Mendonça de Barros disse que o Brasil fez avanços importantes nos últimos anos, como a estabilização da moeda, no governo anterior, e o aumento da inclusão social, no atual governo. Para o futuro, ele acha que há dois desafios inescapáveis: — Precisamos nesta etapa de crescimento econômico sustentável. Não pode ser motosserra de um lado e meio ambiente do outro. Outra questão é o aumento da competitividade da economia brasileira e isso se faz com investimento. Fala-se de investimento, mas é tudo fumaça.

Não aguento mais ouvir falar em dragagem de portos nos últimos cinco anos, e até agora não tiraram uma colher de areia dos portos.

Eles acham que o real entrou definitivamente no radar dos investidores internacionais, depois de 15 anos de estabilidade monetária. Por isso, acreditam que o real vai continuar se valorizando.

Apostam ainda que a inflação vai ficar na meta ou abaixo dela e os dois acham que é possível reduzir a taxa de juros ainda mais, apesar do conservadorismo exposto na ata do Copom.

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