sábado, agosto 22, 2009

Entrevista Jim Rogers

veja

"A riqueza virá do campo"

O lendário investidor diz que os produtos agrícolas vão 
dominar os mercados e ironiza: os corretores das bolsas 
americanas terão de procurar emprego como tratoristas


Benedito Sverberi

China Photos/Getty Images
William R. Voss
"Os operadores de Wall Street mais espertos vão aprender a dirigir tratores, para trabalhar para os fazendeiros, que serão os verdadeiros ricos"

Os operadores da Bolsa de Nova York terão de procurar emprego como motoristas de táxi. Os melhores conseguirão trabalho como tratoristas. Quem faz a previsão com a ironia e a autoridade características é o investidor americano James "Jim" Rogers, de 66 anos. A fama dele vem dos anos 70, quando, ao lado de George Soros, criou e administrou o Quantum, fundo de investimentos que obteve até então a maior valorização da história do capitalismo – 4 000% em seus primeiros dez anos. Na mesma década, as ações de empresas americanas subiram, em média, meros 50%. Rogers e Soros tiveram nas finanças reconhecimento equivalente ao desfrutado na biologia por Francis Crick e James Watson, descobridores da forma da molécula do DNA. Na dupla de cientistas, gênio mesmo foi Crick. Na de financistas, Rogers. Ele falou a VEJA de seu escritório em Cingapura, para onde se mudou a fim de acompanhar de perto a economia asiática.

A economia mundial dá mostras de recuperação, e as ações voltaram a se valorizar. Já é possível dizer que o pior ficou para trás?
Não apostaria nisso. Nos próximos anos, haverá poucos empregos em Wall Street. Sempre brinco dizendo que os corretores de investimentos terão de dirigir táxis. Os mais espertos, contudo, aprenderão a dirigir tratores, para que possam trabalhar para os fazendeiros, que serão os verdadeiros ricos dos próximos trinta anos. Os fazendeiros serão os donos dos Lamborghinis no futuro, não mais esses espertalhões do mercado financeiro.

Por que os agricultores ficarão tão ricos?
A agricultura é a única área da economia mundial cujos fundamentos, até onde eu sei, estão realmente melhorando. Ela deve ser o primeiro setor a crescer quando o mundo sair da crise. É bastante provável que nos próximos anos eu aplique a maior parte de meus recursos em commodities agrícolas. A sorte do Brasil, em particular, é ter um agronegócio bastante expressivo e competitivo e contar com abundância de recursos naturais. Certamente haverá oportunidades no mercado de produtos agrícolas. Por isso, o Brasil está mais bem posicionado que outros países na atual situação da economia mundial. Os frutos virão, desde que, é claro, o governo mantenha a seriedade na política econômica.

A economia brasileira pode se candidatar, então, a ser uma das que mais crescerão no mundo pós-crise?
Países bem administrados e com grandes quantidades de recursos naturais têm mais a ganhar. Eles tendem a se beneficiar do crescimento da única área cujos fundamentos não foram abalados pela crise, o mercado internacional de commodities. Mas, independentemente disso, aquelas nações que conseguiram amealhar fortunas em reservas internacionais também largam na dianteira. China e Cingapura, por exemplo, são países com reservas gigantescas que financiam as vitais obras de infraestrutura. Não precisam tomar empréstimos, imprimir dinheiro ou aumentar os impostos para ampliar a arrecadação. Eles possuem reservas suficientes para se reerguer mais rapidamente.

"O Brasil tem um agronegócio competitivo, além de possuir enorme quantidade de recursos naturais. Haverá muitas oportunidades. O país está bem posicionado
nesta crise"

Que países terão mais dificuldade para se livrar dos efeitos negativos deixados pela crise?
Os Estados Unidos e a Inglaterra foram os mais afetados, porque se atolaram mais fundo em dívidas. Assim, acredito que também serão os últimos a sair de fato dela e a superar suas consequências. Acho estranho quando ouço alguns analistas dizer que estão otimistas com os indicadores econômicos daqueles países. O que eles estão vendo? Ainda não vejo dados encorajadores.

Muito se fala que a crise foi a mais severa desde a Depressão dos anos 30. O senhor corrobora essa avaliação? 
Para muitos países, foi, sem dúvida. Os Estados Unidos e a Inglaterra sofrerão por muitos anos ainda os efeitos da crise. Não ficarei surpreso se a economia americana tiver uma década perdida. Como muitos pareciam imaginar, no fim das contas os Estados Unidos mostraram que não são uma terra encantada, onde nada de ruim pode acontecer. O país enfrentará, sim, desafios sérios, como já enfrentou no passado. A recessão poderá até se prolongar se o governo americano continuar a cometer erro atrás de erro.

Que erros foram esses?
O maior equívoco foi o fato de o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) e o Tesouro dos Estados Unidos não terem permitido, na última década, que nenhuma grande instituição financeira fosse à lona. Toda vez que alguém se via às voltas com alguma encrenca, chamava logo o Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, e dizia: "Salve-me, salve-me, salve-me!". O governo abraçava a causa e salvava a empresa. Para isso era necessário imprimir mais dinheiro. O Fed e o Tesouro fizeram isso diversas vezes. Por isso são os maiores culpados pela enrascada. Eles sinalizaram que não havia risco, pois sempre correriam ao resgate dos incautos. Em 1998, o Long Term Capital Management (LTCM) enfiou os pés pelas mãos e chegou à beira da falência. Era uma grande empresa de investimentos vitimada por apostas que pareciam espetaculares até que sobreveio a moratória russa. O Fed e o Tesouro deveriam ter deixado o LTCM afundar. Teria sido uma lição para todos, e hoje, como resultado dela, o Lehman Brothers (banco de investimentos que faliu em setembro passado) ainda estaria no negócio e o Bear Stearns (outro falido) também.

Mas não havia o risco de recessão? 
Não. O risco maior foi sinalizar para o mercado que eles estavam atuando sob proteção. Isso explica por que muita gente boa assumiu riscos que acabaram mais tarde envenenando as instituições financeiras. Em um mercado sem risco, os mecanismos de depuração do capitalismo deixam de funcionar e os incompetentes são premiados com a permissão de continuar no jogo quando deveriam ter sido banidos. Aliás, o Fed deveria ter varrido os incompetentes logo depois do estouro da bolha da internet, no ano 2000. Ali também, a pretexto de evitarem a recessão, as autoridades foram frouxas e acabaram permitindo a formação de uma bolha de consumo nos Estados Unidos que insuflou outra bolha especulativa, a do mercado imobiliário. Repetindo, os problemas começaram mesmo depois que o governo americano e seu banco central impediram a falência de quem, de outra forma, estaria fora do jogo, sem condições de cometer mais erros. Agora, todos nós vamos pagar por isso durante um bom tempo.

Que efeitos tiveram as ações de emergência da equipe econômica de Barack Obama?
O Geithner (Timothy Geithner, secretário do Tesouro) está "por aí" há duas décadas, e veja tudo o que já fez. Ele cometeu muitos erros. Esteve envolvido na crise asiática, no fim dos anos 90, quando trabalhava na divisão de assuntos internacionais do Tesouro. Ele ajudou a agravar a crise asiática! Nos últimos anos, antes de ser indicado para dirigir o Tesouro, Geithner havia sido o presidente do Federal Reserve de Nova York, órgão ao qual cabia justamente a supervisão das atividades de Wall Street e dos bancos. Quando esses bancos começaram a apresentar problemas, ele ajudou a resgatá-los, em vez de deixá-los quebrar. Se fosse dar uma nota, diria que Geithner é pior que zero! E o que dizer do Summers (Lawrence Summers, conselheiro econômico de Obama)? Foi ele que ajudou a arquitetar o plano de resgate do LTCM em 1998, quando estava no Tesouro, durante o governo de Bill Clinton. Como vimos, isso foi um divisor de águas na história das finanças. Ele marcou o início da era da leniência com os gestores incompetentes e imprudentes. Esses senhores têm agido assim por anos a fio. Eles conseguem estar sempre errados.

Mas alguma coisa certa eles fizeram, pois o risco de falência sistêmica foi afastado, não?
Nós estamos ainda em uma situação de risco sistêmico! O risco vai estar conosco enquanto os bancos forem vistos como instituições grandes demais para que possam ser deixadas à própria sorte quando se metem em encrencas. Durante séculos, sempre foi normal bancos irem à bancarrota. Isso nunca foi o fim do mundo. O correto é deixar meia dúzia de pessoas se arruinar justamente para que outros indivíduos mais competentes apareçam, assumam os ativos bons e comecem tudo de novo. Isso é o capitalismo. Os grupos que tiram do bolso a carta da iminência do risco sistêmico estão apenas dramatizando a situação para tentar conseguir algum tipo de ajuda salvadora. São eles que clamam aos governos: "Salvem-nos, salvem-nos, salvem-nos! Se não fizerem isso, o mundo vai acabar!". É compreensível que ajam assim, porque só o que querem é ser salvos.

"Nos Estados Unidos, o consumo e o endividamento inflaram demais. Os americanos precisam reduzir drasticamente o ritmo de seus gastos, ampliar rapidamente a taxa de poupança e começar tudo de novo"

Qual seria a melhor maneira de agir?
Veja o caso dos bilhões de dólares destinados ao resgate de bancos. Se o governo tivesse ajudado apenas os competentes, o resultado teria sido muito melhor. Mas vêm sendo usados recursos para tentar revigorar ativos de má qualidade. Essa ideia mostra que o governo americano atingiu o pico da insanidade. Isso significa enfiar dinheiro pelo buraco! Quanto mais capital for torrado com ativos ruins, menos recursos sobrarão para ser investidos em coisas que realmente contam. A duração dos efeitos danosos da crise é diretamente proporcional aos valores desperdiçados.

Muitos analistas justificam o salvamento dos bancos com base na grande lição deixada pela crise dos anos 30 – a de que agir rápido é fundamental... 
Os governos hoje têm sido, de fato, mais rápidos. Mas o problema é que continuam agindo errado. No passado recente, viu-se uma correria para tomar decisões que culminaram em planos de resgate e outros tipos de intervenção. Não raro, passado certo período, muita coisa era refeita. Em algumas situações, gostaria até que eles fossem mais lentos. Assim, levariam mais tempo para agir e, quem sabe, não cometeriam tantos erros e tão rapidamente. Mesmo na década de 30, o país não precisava ter passado por uma retração tão acentuada. Assim como hoje, o problema não foi se o socorro veio cedo ou tarde. O que levou à Grande Depressão foi o fato de os governantes terem cometido erros terríveis.

Então, os bons números atuais não podem ser vistos como garantia de que a economia americana está efetivamente se recuperando?
Tivemos dez ou quinze anos dos piores excessos já vistos no mercado de crédito – não só da história americana, mas de todo o mundo. Quando se vive um exagero gigantesco como esse, alguém tem de pagar o preço. Não se pode simplesmente acordar de manhã e dizer: "Está tudo bem agora. Vamos esquecer o que foi feito nos últimos quinze anos". É inevitável que os Estados Unidos tenham de sofrer. O grande problema da economia americana é que o consumo e o endividamento inflaram demais. Agora, na tentativa de reverter esse problema, optou-se por mais dívidas, mais consumo e mais empréstimos. É insano imaginar que uma distorção possa se resolver com mais daquilo que foi sua causa original. Os americanos precisam reduzir dramaticamente seu ritmo de consumo, ampliar significativamente sua taxa de poupança e começar tudo de novo. Não estou sugerindo que esse é um processo prazeroso. Mas é o que tem de ser feito.

Ficará mais difícil prosperar no mundo que se desenha daqui para a frente? 
Sempre existem oportunidades para ganhar dinheiro. Aposto que muitas pessoas vão conseguir enriquecer nos próximos vinte a trinta anos. Os agricultores, é óbvio, ficarão riquíssimos! É bom lembrar que, mesmo durante a Grande Depressão, houve famílias que construíram fortunas. Por outro lado, repito que não haverá mais oportunidades como as que se podiam encontrar em Wall Street ou na City londrina. Agora, riqueza mesmo virá do campo.

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