Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 06, 2008

Humoristas versus celebridades

O RISO QUE FERE

Alvo de programas humorísticos como o CQC 
e o Pânico, os famosos brasileiros procuram revidar


Marcelo Marthe

Fotos Rafael Campos, Reginaldo Teixeira/Contigo, Roberto Jayme/AE, Divulgação/TV Globo, Divulgação/Record e Divulgação
É GUERRA À esquerda, o político Genoíno e as celebridades Luana, Preta e Moura. À direita, os humoristas Vesgo e Silvio, do Pânico, e Rafael Cortez e Warley Santana, do CQC: rir é afrontar o poder

Na semana passada, o humorístico CQC exibiu uma pegadinha com o político José Genoíno. Em entrevista ao ator Warley Santana, que faz as vezes de um assessor de imagem fajuto no programa da Bandeirantes, o deputado petista envolvido no caso do mensalão expôs seu "lado humano". Convencido de que participava de um talk-show, ele ouviu dicas do que dizer diante da câmera – e, na entrevista, repetiu tudo o que o tal assessor lhe soprava, sem saber que esse bastidor também era gravado. Warley pediu que ele usasse uma frase de John Lennon. Genoíno obedeceu. Propôs que citasse o líder comunista russo Leon Trotsky ao comentar os desmandos do PT. Genoíno engoliu a isca mais uma vez – e a frase "errar é humano, perdoar é divino" nem era de Trotsky. Por fim, combinou-se que, ao responder qual era seu prato favorito, o entrevistado enalteceria a moqueca capixaba. Genoíno, claro, virou fã da moqueca capixaba desde criancinha. A brincadeira entregou o petista de um jeito que CPI alguma conseguiu. E assim se cumpriu o que se espera da relação dos humoristas com as figuras públicas: o papel dos primeiros é o de ser implacáveis. Hoje, contudo, não são só os políticos que sofrem os efeitos disso. Outros "poderosos" também entraram na mira: as celebridades. O Pânico na TV, que está para completar cinco anos no ar na RedeTV!, foi a primeira atração a perseguir e ridicularizar a categoria de forma ostensiva – caminho no qual foi seguido pelo CQC.

Meses atrás, o ator Wagner Moura protestou contra o que considerou uma agressão. A dupla Silveira e Silveirinha, do Pânico, abordou o ator na saída de uma festa. Na investida, eles besuntaram de gel seus cabelos. Num artigo no jornal O Globo, Wagner mostrou-se indignado: "O preço da fama? Não engulo essa". Em princípio, contudo, personagens como Moura são, sim, alvo legítimo para as investidas do humor. "A história da fama é a história de como os indivíduos buscaram chamar atenção para si e, com isso, conquistaram poder", notou o crítico cultural americano Leo Braudy, numa observação que se aplica tanto a políticos quanto a artistas. O escárnio, por sua vez, sempre foi uma arma contra os poderosos. É uma forma de desmontar hierarquias e privilégios. Não é por outro motivo que fazem sucesso os quadros em que o Pânico e o CQC abordam gente conhecida nas portas de festas e eventos exclusivos. Eles atuam como porta-vozes dos "sem-acesso". Como lembrou a VEJA na semana passada Adam McKay, ex-roteirista do humorístico americano Saturday Night Live, é compreensível que as pessoas gostem de ver gente conhecida pagando esse mico: "É importante saber que as celebridades e os políticos também têm fragilidades". Para falar em termos jurídicos, há também o direito, assegurado pelos países democráticos, à liberdade de expressão – da qual a crítica às figuras públicas é uma forma essencial.

Na prática, porém, há uma zona cinzenta em que o direito de zombar entra em conflito com o direito de manter a dignidade. Ao "melecar" os cabelos de Moura, o Pânico pisou na linha que separa a molecagem da agressão física. Da mesma forma, quando a dupla Vesgo e Silvio perseguiu a atriz Carolina Dieckmann a ponto de botar um guindaste em frente de seu apartamento, não foi só a atriz que se viu atingida – sua família, que não desfruta a mesma celebridade que ela, também entrou na mira.

Está em curso uma reação de celebridades que se julgam agredidas por humoristas. Recém-lançado na internet, o site Morra de Rir é a versão brasileira do Funny or Die, criado pelo já citado Adam McKay e pelo comediante americano Will FerrellUma das razões do sucesso do original é que celebridades como o cantor Justin Timberlake e a patricinha Paris Hilton participam de vídeos em que caçoam de si próprios. Aqui, duas inimigas do Pânico se propõem a fazer o mesmo em esquetes que logo estrearão no site. Preta Gil, que está processando o programa da Rede TV! por ter sido chamada de gorda no ar, se revela uma devoradora de doces compulsiva no Morra de Rir. "Faço piada sem me diminuir", diz. Luana Piovani, que também processou o Pânico, surge em vídeos como uma ladra antipática. "A Luana queria pôr em xeque a fama dela de pessoa estourada", diz o responsável pelo site, Rodrigo Pitta. "O que mais existe são celebridades querendo mostrar que vêem a si mesmas com senso de humor", diz McKay. Assim, elas mantêm o controle da situação. Zombem de mim – mas que seja do meu jeito.

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